No Brasil, os Guarani dividem-se em três subgrupos que são: os Guarani-Kaiwá, os Guarani-Nhandéva e os Guarani-Mbyá. Os Kaiwá estão distribuídos num território que ocupa a região fronteiriça no Mato Grosso do Sul e no Paraguai Oriental. Os Nhandéva ocupam território mais ao sul, em áreas limítrofes do Mato Grosso, Paraná e Paraguai e, ainda, no interior e litoral de São Paulo. Os Mbyá ocupam território localizado na parte central do Paraguai Oriental o qual se estende, hoje, pelo Norte da Argentina (província de Missiones) e pelo Estado do Rio Grande do Sul e litoral de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Espírito Santo.

OS GUARANI DO ESTADO DE SÃO PAULO

A partir de 1.553, a consolidação da ocupação européia na região de São Vicente favoreceu a abertura para um vasto sertão atraente por suas riquezas, entre as quais se inclui o elemento indígena. Nos séculos XVI e XVII, índios de diversas nações compunham a maioria da população paulista. No panorama etnográfico da Capitania de São Vicente, destacam-se quatro regiões: os Tupi ocupavam a faixa que ia do Rio de Janeiro à Baixada Santista, incluindo o que é hoje a cidade de São Paulo e alguns trechos do interior; Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira eram ocupados por grupos Jê e outros não Tupi-Guarani; a oeste estavam outros grupos não - Tupi, alguns próximos dos grupos do Vale do Paraíba. Ao sul e a sudoeste de São Vicente, no litoral e no interior, localizavam-se numerosos grupos Guarani que como agricultores, atraíram os portugueses, espanhóis e jesuítas interessados na sua mão-de-obra.

Durante o século XVII, com o desenvolvimento do setor açucareiro, começaram a aparecer as primeiras fazendas de produção de trigo ou de carnes salgadas destinadas a alimentar os engenhos do litoral.

As bandeiras capturavam nativos para vender aos engenhos nordestinos, que sofriam a crise gerada pelas invasões holandesas e pela dificuldade de manutenção do tráfico escravo africano. Durante anos, no século XVII, na falta de jazidas de ouro e prata, o apresamento indígena manteve a economia de São Paulo.

Em 1.675, foi erigida a Província da Imaculada Conceição, contando então doze conventos que distribuíam missionários desde o Espírito Santo até a Colônia do Sacramento no Uruguai. Com a intenção de acelerar a catequese indígena e consequentemente a formação de aldeamentos, principalmente dos grupos Tupi e Guarani, as missões se concentraram primeiro no litoral, habitado por estes e depois no interior. As atividades missionárias iniciaram-se em São João do Peruíbe (1.692 / 1.803), 12 km ao sul de Itanhaém (e 20 km de Mongaguá), depois seguiram para as aldeias de São Miguel Paulista (1.698 / 1.803), Santo Antônio dos Guarulhos (1.699 /1.758) às margens do Paraíba, hoje cidade de Campos e Nossa Senhora da Escada ou Aldeinha (1.734 / 1.804), perto de Jacareí.

Com o crescimento das cidades paulistas, os aldeamentos eram vistos como áreas a serem confiscadas. O Diretório Indígena de 1.745, legitimou a força do homem branco, criando regras de conduta para os povos indígenas. Todos esses fatores contribuíram para desarticulação das sociedades indígenas e sua fuga para as matas, longe dos brancos. Depois de várias migrações, os Guarani chegaram ao litoral de São Paulo em 1.830, vindos por um itinerário que ia do Rio Grande do Sul a São Paulo, chegando a Itariri (SP) e estabelecendo-se ali até 1.912, época em que são conduzidos ao Araribá. Outro grupo vindo no ano de 1.860, conseguiu seu intento de chegar ao mar. Desde então vivem na aldeia Bananal, Terra Indígena de Peruíbe. Em 1.927 encontra-se em Itanhaém um grupo Guarani expulso de suas terras em 1.926 e que estava residindo na aldeia do Bananal em Peruíbe.

Em 1.925, famílias Mbyá fundaram a área Rio Branco do Itanhaém (em Itanhaém, São Paulo e São Vicente). À partir da década de 50, os Mbyá passaram a ser a população indígena que mais tem crescido no litoral paulista. Os Guarani Nhandéva e Mbyá são estimados hoje, no Estado de São Paulo, em torno de 1.600 pessoas que ocupam 15 áreas, entre acampamentos temporários e áreas permanentes.

AS MIGRAÇÕES GUARANI

As migrações (Oguatá) constituem uns dos principais pontos do modo de ser específico Guarani, que buscavam conscientemente seu rekohá, impulsionados por pajés que orientavam as andanças. Eram estes indivíduos que detinham um poder carismático-religioso que, não raro, coincidia com a autoridade civil e política. Suas pregações baseavam-se na questão do mal; acreditava-se que o mundo havia ficado ruim demais e não se podia ficar nele por mais tempo, deveriam abandoná-lo para instalar-se na Terra onde o mal está ausente.

O principal motivo que teria levado os pajés ao profetismo das migrações, sob o mito Nhandéva de Guyrapoty, seria um iminente e terrível apocalipse de que somente se salvariam caso trilhassem o caminho da Terra sem Mal situada no além-mar do nascente. A ideologia de vida desses índios baseava-se no princípio da terra "nova e fresca", ou seja, a Terra sem Mal.