Em 14 de fevereiro de 1956, Nikita Krushchev (1), então primeiro secretário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, pública mas obliquamente, atacou Stalin no vigésimo congresso do partido:

"É de suprema importância o restabelecimento e o fortalecimento de todas as maneiras do princípio leninista da liderança coletiva...

"O Comitê Central... condena vigorosamente o culto do indivíduo, sendo este estranho ao espírito do marxismo-leninismo". (N. S. Khrushchev: Report to the Central Committee, 20th Congress of the CPSU, fevereiro de 1956; Londres; 1956; pág. 80-81).

Em seu "relatório secreto" neste mesmo Congresso em 25 de fevereiro (tornou-se público no Departamento de Estado da União Soviética, mas não foi publicado dentro da própria União soviética), Kruschev atacou Stalin mais diretamente, afirmando que

"... O culto do indivíduo adquiriu tamanho tão monstruoso porque o próprio Stalin fez uso de todos os métodos concebíveis e apoiou sua própria glorificação?. (Russian Institute, Columbia University (Ed.): The Anti-Stalin Campaign and International Communism; Nova York; 1956; pág. 69).

Ainda que muitas testemunhas justifiquem a simplicidade e a modéstia de Stalin.

O escritor francês Henri Barbusse (2) descreve a simplicidade do estilo de vida de Stalin:

"Subindo ao primeiro andar, vê-se cortinas brancas cobrindo três janelas. Essas três janelas são da casa de Stalin. No corredor minúsculo, um longo capote militar pendurado num cabide embaixo de um quepe. Além deste corredor, existem três quartos e uma sala de jantar. Os quartos são tão simplesmente mobiliados como os de um respeitável hotel de segunda classe... O filho mais velho, Jasheka, dorme à noite na sala de jantar, em um divã que converte-se em cama; o mais novo dorme em um canto minúsculo, num tipo de cama que se abre deste...

"Cada mês, ele ganha quinhentos rublos, que constituem o escasso salário máximo dos oficiais do Partido Comunista (estando entre £20 e £25 em dinheiro inglês)...

"Este franco e brilhante homem é... um homem simples... Ele não emprega trinta e dois secretários, como o Sr. Lloyd George, ele tem apenas um...

"Stalin, sistematicamente, dá crédito a todo o progresso alcançado a Lenin, ao passo que o crédito era de grande importância para ele mesmo". (H. Barbusse: Stalin: A New World Seen through One Man; Londres; 1935; pág. VII, VIII, 291, 294).

Em realidade, Stalin faz uso de uma dacha, ou cabana rural, mas aqui também sua vida era igualmente simples, como sua filha Svetlana (3) relata:

"Era o mesmo com a dacha em Kuntsevo...

"Meu pai vivia no térreo. Ele ficava em um quarto e assim o fazia sempre. Ele dormia num sofá que à noite convertia-se em uma cama". (S. Alliluyeva: Letters to a Friend; Londres; 1967; pág. 28).

O líder albanês Enver Hoxha (4) descreve Stalin como "modesto" e "atencioso":

"Stalin não era nenhum tirano, nenhum déspota. Ele era um homem de princípios; era justo, modesto, muito gentil e atencioso com as pessoas, com seus colegas". (E. Hoxha: With Stalin: Memoirs; Tirana; 1979; pág. 14-15).

Os britânicos Fabian Sidney (5) e Beatrice Webb (6) em seu monumental trabalho, Soviet Communism: A New Civilisation, rejeitam enfaticamente a noção de que Stalin exercia um poder ditatorial:

"Às vezes afirma-se que... todo o Estado é governado pela vontade de uma única pessoa, Josef Stalin.

"Primeiro, deve-se deixar claro que, diferente de Mussolini, Hitler ou outros ditadores modernos, Stalin não foi investido de qualquer autoridade pela lei para ficar acima de seus conterrâneos. Este não possui ao menos o extenso poder que a Constituição Americana confia durante quatro anos a cada presidente, sucessivamente... Stalin não é e nunca será o Presidente da União Soviética... Ele não é também um Comissário do Povo ou membro do Gabinete... Ele é o Secretário Geral do Partido...

"Não sustentamos que o Partido seja governado pela vontade de uma única pessoa, ou que Stalin é o tipo de pessoa que reivindica ou deseja tal posição. Ele mesmo tem negado qualquer ditadura pessoal, em termos que certamente estão de acordo com a nossa impressão pessoal dos fatos.

"O Partido Comunista na URSS adotou para sua própria organização o padrão que nós descrevemos... Em tal padrão ditadura individual não tem vez. Desconfia-se de decisões pessoais e estas são postas de lado. Para evitar erros por preconceito, raiva, ciúmes, vaidade e outras destemperanças, é necessário que o indivíduo seja sempre controlado pela necessidade de ganhar o consentimento dos colegas de mesmo grau, que discutiram francamente o assunto e fizeram-se eles mesmos responsáveis pela decisão...

"Stalin... tem... freqüentemente afirmado que ele não faz mais do que cumprir as decisões do Comitê Central do Partido Comunista...

"A verdade óbvia é que, inspecionando a administração da URSS durante a década passada sobre a alegada ditadura de Stalin, vimos que as principais decisões não eram manifestadas nem com o imediatismo, nem com a obstinação destemida que são freqüentemente caracterizadas como méritos de uma ditadura. Pelo contrário, as ações do Partido Comunista eram freqüentemente tomadas após longas considerações e como resultado de uma discussão às vezes acalorada e amarga... sobre suas formulações estavam as marcas da hesitação e da falta de segurança... estas políticas levaram... o estigma de controle do comitê". (S & B. Webb: Soviet Communism: A New Civilisation; Londres; 19; págs. 431, 432, 433, 435).

Talvez Barbusse, Hoxha e os Webb possam ser considerados testemunhas. Ainda, observadores altamente críticos de Stalin concordam com o testemunho dos primeiros.

O diplomata americano Joseph Davies (7) reafirma a maneira simples e cordial de Stalin:

"Eu me surpreendi ao ver a porta aberta e o Sr. Stalin entrando na sala sozinho... seu comportamento é cordial, sua maneira é quase depreciativamente simples...

"Ele saudou-me cordialmente com um sorriso e com grande simplicidade, mas sempre com uma verdadeira dignidade... Seus olhos escuros são sumamente gentis e bondosos. Uma criança gostaria de sentar em seu colo e um cachorro chegaria próximo dele". (J. E. Davies: Mission to Moscow; Londres; 1940; pág. 222, 230).

Issac Don Levine (8) escreve em sua hostil biografia de Stalin:

"Stalin não busca honra. Ele abomina a pompa. Ele é avesso a exibições em público. Ele poderia ter todo o tipo de regalias no tronco de um grande Estado. Mas ele prefere a discrição". (I. D. Levine: Stalin: A Biography; Londres; 1931 págs. 248-49).

Outro crítico hostil, Louis Fischer, (9) testemunha sobre a capacidade de Stalin de ouvir:

"Stalin inspira o Partido com sua força de vontade e calma. Indivíduos em contato com ele admiram sua capacidade de ouvir e sua habilidade em aperfeiçoar as sugestões e propostas de subordinados altamente inteligentes?. (L. Fischer: Artigo em: The Nation, Volume 137 (9 August 1933); pág. 154).

Eugene Lyons, (10) em sua biografia entitulada Stalin: Czar of All the Russias, descreve a forma de vida simples de Stalin:

"Stalin mora em um modesto apartamento de três quartos... Em sua vida cotidiana, seus gostos permaneceram simples, quase rudes... Até mesmo esses que o odiaram desesperadamente e acusaram-no de crueldades sádicas, nunca o acusaram de excessos em sua vida privada...

"Estes que medem o ?sucesso? por milhões de dólares, iates e amantes, acham difícil entender o poder apreciado com austeridade...

"Não havia, nem remotamente, nada de grotesco em sua aparência ou sua conduta, nada de teatral em suas maneiras. Um homem agradável e sério - evidentemente disposto a ser amigável com o primeiro estrangeiro que havia admitido em sua presença há anos. Ele é uma pessoa completamente agradável. Eu me recordo, pensando em como nos sentamos lá, e pensando nisso com surpresa?. (E. Lyons: Stalin: Czar of All the Russias; Philadelphia; 1940; pág. 196, 200).

Lyons perguntou a Stalin: "Você é um ditador?"

"Stalin sorriu, sugerindo que a pergunta era absurda.

" 'Não', disse ele lentamente, 'Não sou um ditador'. Todos os que usam essa palavra não entendem o sistema soviético de governo e os métodos do Partido Comunista. Nenhum homem ou grupo de homens podem ditar. As decisões são tomadas pelo partido e são postas em prática através de seus órgãos, o Comitê Central e o Politburo." (E. Lyons: ibid.; pág. 203).

O revisionista finlandês Arvo Tuominen (11) - fortemente hostil a Stalin, comenta em seu livro The Bells of the Kremlin, sobre a modéstia de Stalin:

"Em seus discursos e escritos, Stalin sempre cuidou dos bastidores, falando apenas de comunismo, do poder soviético e do Partido, e acentuando que ele era na verdade um representante da idéia e da organização, nada mais...

"Eu nunca notei qualquer sinal de vanglória em Stalin". (A. Tuominen: The Bells of the Kremlin; Hanover (New Hampshire, EUA); 1983; pág. 155, 163).

e expressa surpresa com o contraste entre o verdadeiro Stalin e a figura da propaganda divulgada sobre ele:

"Durante meus muitos anos em Moscou, nunca deixei de me admirar pelo contraste entre o homem e a colossal imagem que fora feita dele. Aquele caucasiano de tamanho mediano, ligeiramente marcado na pele, com um bigode, estava tão distante quanto possível do estereótipo de um ditador. Mas ao mesmo tempo, a propaganda proclamava suas habilidades sobre-humanas?. (A. Tuominem: ibid; pág. 155).

O marechal soviético Georgy Zhukov (12) fala da ?falta de caprichos? de Stalin:

"Livre de caprichos e maneirismos, ele (Stalin) ganhou o coração de todos com quem falou". (G. K. Zhukov: The Memoirs of Marshal Zhukov; Londres; 1971; pág. 283).

A filha de Stalin, Svetlana Alliuyeva, é crédula o bastante para aceitar quase todas as calúnias que circulam sobre seu pai, mas até mesmo ela desmente a acusação de que ele mesmo teria arquitetado o culto de sua personalidade. Ela descreve uma viagem de trem com Stalin da Crimea até Moscou, em 1948:

"Como paramos em várias estações, podíamos dar um passeio ao longo da plataforma. Meu pai caminhava até a máquina, saudando os trabalhadores das estradas de ferro, trabalhadores como ele havia sido. Não se poderia ver um único passageiro. Era um trem especial e ninguém estava autorizado a permanecer na plataforma... Quem pensaria em algo assim? Quem teria forjado todas essas estratégias? Não foi ele. Este era o sistema em que ele mesmo era prisioneiro, e no qual ele sofreu de solidão e falta de companhia humana...

"Hoje em dia, quando leio ou escuto que meu pai costumava considerar-se praticamente um deus, me espanta que pessoas que o conheceram bem possam dizer algo desse tipo...

"Ele nunca pensou em si mesmo como um deus". (S. Alliluyeva: Letters to a Friend; Londres; 1968; pág. 202-03, 213).

Ela descreve o pesar dos criados da dacha quando Stalin morreu:

"Estes homens e mulheres que eram os criados de meu pai o amaram. Em pequenas coisas não era difícil de agradá-lo. Pelo contrário, ele era cortês, modesto e direto com as pessoas que o serviam.

"Homens, mulheres, todos, começaram a chorar por toda parte novamente...

"Ninguém estava fazendo um espetáculo de lealdade ou pesar. Todos eles haviam conhecido um ao outro por anos...

"Ninguém nesta sala olhou para ele como um deus ou um super-homem, como um gênio ou um demônio. Eles o amavam e o respeitavam pelas qualidades humanas mais comuns, aquelas qualidades das quais os criados são os melhores juizes de todos". (S. Alliluyeva: ibid; págs. 20, 22).

Além disso, os fatos mostram que, em inúmeras ocasiões, Stalin denunciou e ridicularizou o "culto do indivíduo", mostrando-o como contrário ao marxismo-leninismo. Por exemplo,

Junho de 1926:

"Eu devo dizer com toda consciência, camaradas, que não mereço a metade de todas as coisas lisonjeiras que foram ditas sobre mim. Eu sou, pelo que parece, um herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista da União Soviética, o líder da Internacional Comunista, um guerreiro legendário e muito mais. Isto é absurdo, camaradas, é um exagero bastante desnecessário. Este é o tipo de coisa que normalmente é dita de um revolucionário já morto. Mas eu não tenho intenções de morrer ainda...

"Eu realmente era, e ainda sou, um dos discípulos dos trabalhadores avançados das oficinas da estrada de ferro de Tiflis". (J.V. Stalin: Works, Volume 8; Moscou; 1954; pág. 182).

Outubro de 1927:

"E quem é Stalin? Stalin é apenas uma figura secundária". (J. V. Stalin: Works, Volume 10; Moscou; 1954; pág. 177).

Dezembro de 1929:

"Suas congratulações e saudações, eu coloco-as ao crédito do grande partido da classe trabalhadora que sustentou-me e fez de mim sua própria imagem e semelhança. E apenas porque eu coloco ao crédito de nosso glorioso Partido Leninista, enterneço meus agradecimentos bolcheviques". (J.V. Stalin: Works, Volume 12; Moscou; 1955; pág. 146).

Abril de 1930:

"Há alguns que acreditam que o artigo ?Deslumbrado com o Sucesso? foi resultado da iniciativa pessoal de Stalin. Isto, claro, é tolice. Não é por iniciativa pessoal que um problema desse tipo é conduzido por alguém, por quem quer que seja, que tenha um Comitê Central". (J. V. Stalin: Works, ibid.; pág. 218).

Agosto de 1930:

"Você fala de sua 'devoção' por mim... Eu lhe aconselharia que abandonasse o ?princípio? de devoção a pessoas. Isto não corresponde à via bolchevique. Tenha devoção à classe trabalhadora, ao partido, ao Estado. Isto é uma coisa boa e útil. Mas não confunda isto com devoção a pessoas, esta tola e inútil bobagem de intelectuais de mentes fracas". (J. V. Stalin: Works, Volume 13; Moscou; 1955; pág. 20).

Dezembro de 1931:

"Para mim mesmo, sou apenas um discípulo de Lenin, e o objetivo de minha vida é ser um valoroso discípulo...

"O Marxismo não nega o papel desempenhado por indivíduos notáveis ou que a história é feita por pessoas. Mas... grandes pessoas são valorosas apenas quando se mostram capazes de entender corretamente as condições, de entender como mudá-las. Se elas falham em entender estas condições e pretendem alterá-las de acordo com as iniciativas de sua imaginação, as mesmas irão achar-se na situação de um Don Quixote...

"Pessoas, individualmente, não podem decidir. Decisões individuais são sempre, ou quase sempre, decisões unilaterais... Em todo corpo coletivo existem pessoas cujas opiniões devem ser consideradas... Da experiência de três revoluções, nós sabemos que de mais de 100 decisões tomadas individualmente, sem serem testadas e corrigidas coletivamente, aproximadamente 90 são unilaterais...

"Nunca, sob nenhuma circunstância, nossos trabalhadores devem tolerar o poder nas mãos de uma única pessoa. Conosco, personalidades de grande autoridade são reduzidas a nada, tornam-se meras pessoas sem importância, antes que as massas de trabalhadores percam a confiança nestas". (J. V. Stalin: ibid.; pág. 107-08, 109, 113).

Fevereiro de 1933:

"Eu recebi sua carta cedendo-me sua segunda Ordem como uma recompensa por meu trabalho.

"Agradeço-o por suas palavras afetuosas e a presente camaradagem. Sei o quanto você está privando-se a meu favor e aprecio seus sentimentos.

"Não obstante, não posso aceitar sua segunda Ordem. Eu não posso e não devo aceitá-la, não apenas porque esta pertence somente a você, e porque você a ganhou sozinho, mas também porque fui recompensado amplamente com a atenção e respeito dos camaradas e, conseqüentemente, não tenho o direito de roubá-la de você.

"Ordens foram instituídas não para aqueles que conhecemos bem, mas principalmente para pessoas heróicas que são pouco conhecidas e necessitam ser reconhecidas por todos.

"Além disso, devo dizer-lhe que já possuo duas ordens. Isto é mais do que necessário, eu garanto a você". (J. V. Stalin: ibid; pág. 241).

Maio de 1933:

"Robins: Eu considero uma grande honra ter a oportunidade de visitá-lo.

"Stalin: não há nada de extraordinário nisso. Você está exagerando.

"Robins: O que é mais interessante para mim é que por toda a Rússia encontrei os nomes Lenin-Stalin, Lenin-Stalin, sempre juntos.

"Stalin: O que também é um exagero. Como posso ser comparado a Lenin?" (J. V. Stalin: ibid.; pág. 267).

Fevereiro de 1938:

"Sou absolutamente contra a publicação de 'Stories of the Childhood of Stalin' (Histórias da Infância de Stalin).

"O livro aborda uma quantidade de inexatidões de fatos, alterações, exageros e elogios não merecidos...

"Mas... o que importa é que o livro na verdade tem a tendência de gravar na mente das crianças soviéticas (e pessoas em geral) o culto à personalidade de líderes, de heróis infalíveis. Isto é perigoso e prejudicial. A teoria de 'heróis' e de 'povo' não é uma teoria bolchevique, mas sim social-revolucionária (13)...

"Eu sugiro que queimemos este livro". (J. V. Stalin: ibid.; pág. 327).

Então, o ?culto do indivíduo?, como foi construído em torno de Stalin, era contrário ao marxismo-leninismo e sua prática era contrária à vontade de Stalin.

Isto levanta uma importante questão.

Quando eu expressei, em uma reunião anterior da Stalin Society, a visão de que o marxismo-leninismo era minoria na liderança soviética desde os últimos anos 20, houve murmúrios altos de divergência vindos de alguns membros.

Mas vimos que, mesmo Stalin tendo expressado forte oposição ao ?culto à personalidade?, este continuou existindo.

Portanto, segue-se, irrefutavelmente, que:

1) ou Stalin estava impossibilitado de freá-lo,

2) ou ele permitiu que este acontecesse e era, portanto, uma pessoa de mente pequena, um falso marxista-leninista, um hipócrita.

Os Iniciadores do ?Culto?

Mas, se o culto à personalidade em torno de Stalin não foi construído por ele e o mesmo era contrário a sua vontade, por quem foi construído?

Os fatos mostram que os mais fervorosos intérpretes do culto à personalidade em torno de Stalin eram revisionistas e revisionistas escondidos, tais como Karl Radek (14), Nikita Khrushchev e Anastas Mikoyan (15).

Roy Medvedev (16) aponta que

"A primeira edição do Pravda em 1934, continha um enorme artigo de Radek, com duas páginas, amontoado de elogios a Stalin. O antigo trotskista que havia liderado a oposição a Stalin por muitos anos, agora chamava-o de "o melhor seguidor de Lenin, o modelo do Partido Leninista, osso de seu osso, sangue de seu sangue"... Ele ?é tão previdente quanto Lenin? e assim por diante. Este parece ser especificamente o primeiro grande artigo dedicado a adoração de Stalin, e foi rapidamente reeditado em 225 000 cópias de um panfleto, um grande número para a época". (R. A. Medvedev: Let History Judge: The Origins and Consequences of Stalinism; Londres; 1972; pág. 148).

Em seu julgamento público em 1937, Radek adimitiu traição e terrorismo:

"Vyshinsky: O que Mrachovsky (17) respondeu?

"Radek: Ele respondeu definitivamente que a luta tinha entrado na fase terrorista...

"Em abril de 1933, Mrachovsky perguntou-me se eu mencionaria algum trotskista em Leningrado que empreenderia a organização de um grupo terrorista lá.

"Vyshinsky: Contra quem?

"Radek: Contra Kirov, (18) claro...

"Vyshinsky: Em 1934-35 sua posição era a de organizar sistematicamente os atos terroristas?

"Radek: Sim...

"Nós teríamos que, inevitavelmente, trazer a estrutura social da URSS à linha dos países fascistas vitoriosos... - um pseudônimo para a restauração do capitalismo.

"Estava claro para nós que isto significava fascismo... servir ao capital financeiro estrangeiro...

"Foi planejado entregar a Ucrânia à Alemanha, a província marítima e a região de Amur ao Japão". (Report of Court Proceedings in the Case of the Anti-Soviet Trotskyite Centre; Moscow; 1937; pág. 88, 90, 103, 115).

Foi Khrushchev que introduziu o termo ?vozhd? (?líder?, correspondente à palavra ?Fuhrer? em alemão). Na Conferência do Partido em Moscou, em 1932, Khrushchev finalizou seu discurso dizendo:

"Os Bolcheviques de Moscou reunidos em torno do Comitê Central Leninista como nunca antes, e em torno do ?vozhd? de nosso partido, camarada Stalin, estão animada e confiantemente, marchando para novas vitórias nas batalhas pelo socialismo, pela revolução proletária mundial". (Rabochaya Moskva, 26 de janeiro de 1932, citado em: L. Pistrak: The Grand Tactician: Khrushchev's Rise to Power; Londres; 1961; pág. 159).

Na 17ª Conferência do Partido em janeiro de 1934 foi Khrushchev, e somente ele, que chamou Stalin de

"... 'Vozhd' dos gênios". (XVII S'ezd Vsesoiuznoi Kommunisticheskoi Partii (B.); pág. 145, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 160).

Em agosto de 1936, durante a tentativa de traição de Lev Kamenev (19) e Grigory Zinoviev (20), Khrushchev, em sua condição de secretário do partido de Moscou, disse:

"Miseráveis pigmeus! Eles ergueram suas mãos contra o maior de todos os homens..., nosso sábio ?vozhd?, camarada Stalin!... Tu, camarada Stalin, elevaste a grande bandeira do marxismo-leninismo pelo mundo inteiro e a levaste adiante. E nós te apoiamos, camarada Stalin. A organização Bolchevique de Moscou - partidária fiel do Comitê Central Stalinista - irá aumentar ainda mais a vigilância stalinista, irá extirpar os trotskistas-zinovievistas que restam, e cerrar as fileiras dos bolcheviques do partido e fora dele, ainda mais ao redor do Comitê Central Stalinista e do grande Stalin". (Pravda, 23 de agosto de 1936, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 162).

No oitavo Congresso de Toda a União dos Soviets, em novembro de 1936, foi novamente Khrushchev que propôs que a nova Constituição Soviética que estava prestes a ser aprovada pelo congresso, deveria chamar-se ?Constituição Stalinista? porque

"... foi escrita do início ao fim pelo próprio Camarada Stalin". (Pravda, 30 de novembro de 1936, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 161).

Deve ser notado que Vyacheslav Molotov (21), então Primeiro Ministro, e Andrey Zhdanov (22), então Secretário do Partido em Leningrado, não mencionaram nenhum papel especial desempenhado por Stalin na elaboração da Constituição.

No mesmo discurso, Khrushchev criou o termo ?stalinista?:

"Nossa Constituição é o marxismo-leninismo-stalinismo, que conquistou um sexto do globo". (ibid.)

O discurso de Khrushchev em Moscou para uma audiência de 200 000, no momento da tentativa de traição de Grigory Pyatakov (23) e Karl Radek, em janeiro de 1937, estava num caminho similar:

"Erguendo suas mãos contra o camarada Stalin, vocês estão erguendo-as contra tudo de melhor que a humanidade possui. Stalin é esperança, ele é a perspectiva, é a baliza que guia o progresso da espécie humana. Stalin é nossa bandeira! Stalin é nosso caminho! Stalin é nossa vitória!". (Pravda, 31 de janeiro de 1937, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 162).

Stalin foi descrito por Khrushchev, em março de 1939, como

"... nosso grande gênio, nosso amado Stalin". (Visti VTsVK , 3 de março de 1939, citado em: L.Pistrak: ibid.; pág. 164).

ao 18º Congresso do Partido, em março de 1939, como

"... o maior gênio da humanidade, mestre e ?vozhd?, que nos conduz ao comunismo, nosso Stalin". (XVIII S`ezd Vsesoiuznoi Kommunisticheskoi Partii (B), pág. 174, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 164).

e em maio de 1945 como:

"... grande Marechal da Vitória". (Pravda Ukrainy, 13 de maio de 1945, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 164).

Na ocasião da celebração do qüinquagésimo aniversário de Stalin em dezembro de 1929, Anastas Mikoyan acompanhou seus parabéns com a demanda:

"... nós que, conhecendo a legítima demanda das massas, começamos finalmente a trabalhar em sua biografia e fazê-la disponível ao partido e a toda classe trabalhadora de nosso país?. (Izvestia, 21 de dezembro de 1929, citado em: L. Pistrak: ibid.; pág. 164).

Dez anos depois, na ocasião do sexagésimo aniversário de Stalin em dezembro de 1939, Mikoyan estava ainda urgindo pela criação de uma

"biografia científica" (Pravda, 21 de dezembro de 1939, citado em: L. Pistrak: ibid; pág. 158).

de Stalin.

A biografia foi publicada eventualmente em 1947, compilada por:

"... G. F. Alexandrov, M. R. Galaktionov, V. S. Kruzhkov, M. B. Mitin, V. D. Mochalov e P. N. Pospelov". (Joseph Stalin: A Short Biography; Moscou; 1947).

Entretanto, em seu "relatório secreto" ao 20º Congresso do PCUS, em 1956, baseando-se no "culto do indivíduo" que ele e seus colegas haviam criado em tono de Stalin, Khrushchev atribuiu a autoria do livro ao próprio Stalin:

"Um dos exemplos mais característicos da autoglorificação de Stalin e de sua falta de modéstia é a edição desta Short Biography...

"Este livro é um exemplo da mais dissoluta bajulação". (Russian Institute, Columbia University (Ed.): op. cit.; p. 69).

Os Motivos da Construção do ?Culto do Indivíduo?

É claro que muitos cidadãos soviéticos admiraram Stalin e manifestaram esta admiração. Mas, claramente, o ?culto do indivíduo? em torno de Stalin foi construído principalmente por revisionistas escondidos, contra a vontade de Stalin em razão de...

Primeiramente, disfarçar o fato de que o Partido e a Internacional Comunista estavam dominados por revisionistas escondidos e apresentar a ficção de que esses órgãos eram controlados pessoalmente por Stalin; assim, a culpa pelas brechas na legalidade socialista e os desvios dos princípios do marxismo-leninismo em parte poderiam ser atribuídos a Stalin;

Em segundo lugar, criar um pretexto para atacar Stalin posteriormente (sob o disfarce de levar a cabo um programa de ?democratização? que era, de fato, um programa de desmantelamento do socialismo).

Que Stalin não estava desavisado sobre o fato de que revisionistas escondidos eram a principal força por trás do culto à personalidade, foi dito pelo revisionista finlandês Tuominem, em 1935, que descreve como e quando ele foi informado de que bustos seus haviam sido colocados na principal galeria de arte de Moscou, a Tretyakov. Nesta ocasião Stalin exclamou:

"Isto é uma completa sabotagem!" (A. Tuominem: op. cit.; pág. 164).

O escritor alemão Leon Feuchtwanger (24), em 1936 confirma que Stalin suspeitou que o culto à personalidade estava sendo nutrido por "destruidores" com o intuito de desacreditá-lo:

"É notavelmente cansativo para Stalin ser adorado como o é, e de vez em quando ele ridiculariza isto...

"De todos os homens que conheço que sei que têm poder, Stalin é o mais modesto. Eu falei francamente com ele sobre o vulgar e excessivo culto feito a ele, e ele respondeu-me com igual candura...

"Ele pensa que é possível até mesmo que "sabotadores" possam estar por trás disso com o intuito de desacreditá-lo". (L. Feuchtwanger: Moscow 1937; Londres; 1937; pág. 93, 94-95).

Para concluir, o ataque feito por revisionistas ao "culto à personalidade", na União Soviética, foi um ataque não só a Stalin, pessoalmente, como o principal marxista-leninista, o principal defensor do socialismo, mas no primeiro estágio, foi também um ataque ao marxismo-leninismo e ao sistema socialista na União Soviética.

Talvez a melhor observação a respeito disto seja um sarcástico brinde que o revisionista finlandês Tuominem recorda de ter proposto a Stalin na Festa de Ano Novo em 1935:

"Camaradas! Eu quero propor um brinde ao nosso patriarca, vida e sol, libertador das nações, arquiteto do socialismo (ele ressaltou todos os títulos atribuídos a ele nos últimos tempos), Josef Vissarionovich Stalin, e espero que este seja o primeiro e último discurso feito a este gênio nesta noite". (A. Tuominem: op. cit; pág. 162).

Notas

1. Nikita Khrushchev, político revisionista soviético (1894-1971); Primeiro Secretário do Partido Comunista da União Soviética (1953-64) Premier (1958-64). Voltar ao texto

2. Henri Barbusse, escritor francês (1873-1935). Voltar ao texto

3. Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin (1926 -). Voltar ao texto

4. Enver Hoxha, político marxista-leninista albanês (1908-85); líder do Partido Comunista da Albânia (posteriormente, Partido dos Trabalhadores da Albânia) (1941-85); Primeiro-Ministro (1944-54); Ministro de Relações Internacionais (1946-54). Voltar ao texto

5. Sidney Webb, economista britânico (1859-1947). Voltar ao texto

6. Beatrice Webb, economista britânica e socióloga (1858-1943). Voltar ao texto

7. Joseph Davies, advogado americano e diplomata (1876-1958); Presidente (1915-16); Vice-presidente (1916-18) da Comissão de Comércio Federal; Embaixador em Moscou (1936-38) e na Bélgica (1938-39). Voltar ao texto

8. Issac Don Levine, americano nascido russo, correspondente de jornal (1982 - 1981). Voltar ao texto

9. Louis Fischer, escritor americano (1896-1970). Voltar ao texto

10. Eugene Lyons, americano nascido russo, escritor (1898-1985). Voltar ao texto

11. Arvo Tuominen, político revisionista finlandês (1894-1981). Voltar ao texto

12. Georgy Zhukov, oficial militar soviético (1896-1974); Chefe de Pessoal (1941); Marechal (1943); Ministro da Defesa (1955-57). Voltar ao texto

13. Anarquista. Voltar ao texto

14. Karl Radek, político revisionista soviético (1885-1939); confessou-se culpado em seu julgamento público de terrorismo e traição (1937); assassinado na prisão por um prisioneiro da mesma categoria (1939). Voltar ao texto

15. Anastas Mikoyan, político revisionista soviético (1895-1978); membro do Politburo (1935-78); Comissário do Povo para o Comércio (1926-1931), para o Abastecimento (1931-34), para a Indústria de Alimentos (1934-38) e para o Comércio Exterior (1938-49); Deputado Premier (1946-64); Presidente (1964-65). Voltar ao texto

16. Roy Medvedev, historiador revisionista soviético (1925 - ). Voltar ao texto

17. Sergei Mrachovsky, político trotskista soviético (1883-1936); confessou-se culpado por terrorismo e traição em seu julgamento público em agosto de 1936 e foi condenado a morte. Voltar ao texto

18. Sergei Kirov, político marxista-leninista soviético (1886-1934); Secretário do PCUS no Azerbeidjão (1921-26) e em Leningrado (1926-34); membro do Politburo (1930-34); assassinado por terrorista (1934). Voltar ao texto

19. Lev Kamenev, político trotskista soviético (1883-1936); admitiu traição em seu julgamento público (1936); condenado a morte e executado (1936). Voltar ao texto

20. Grigory Zinoviev, político trotskista soviético (1883-1936); Presidente da Internacional Comunista (1919-26); admitiu traição em seu julgamento público (1936); condenado a morte e executado (1936). Voltar ao texto

21. Vyacheslav Molotov, político marxista-leninista soviético (1890-1986); membro do Politburo (1926-53); Primeiro-Ministro (1930-41); Primeiro-Ministro Substituto (1941-57); Ministro das Relações Exteriores (1939-49, 1953-56); Embaixador na Mongólia (1957-60). Voltar ao texto

22. Andrey Zhdanov, político marxista-leninista soviético (1896-1948); membro do Politburo (1935-48). Voltar ao texto

23. Grigory Pyatakov, político trotskista soviético (1890-1937); Comissário do Povo para a Assistência da Indústria Pesada (1931-37) admitiu traição em seu julgamento público (1937); condenado a morte e executado (1937). Voltar ao texto

24. Leon Feuchtwanger, escritor alemão (1884-1958). Voltar ao texto

Traduzido do inglês pela camarada Raquel Borges.

O original deste artigo encontra-se em:  http://www.mltranslations.org/