Alberto Núñez Betancourt escreveu num artigo publicado recentemente no diário Granma, que a «história de África se faz antes e depois de Cuito Cuanavale». Com justiça se pode produzir tal afirmação, uma vez que depois da batalha ali travada, profundas mudanças na correlação de forças ocorreram na África Austral, permitindo não apenas a consolidação da soberania de Angola, como ainda a independência da Namíbia e o nascimento de uma nova África do Sul, liberta do apartheid.

«Cuito Cuanavale foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo do apartheid»,Nelson Mandela, Cuba, Julho de 1991

A localidade que deve o seu nome à confluência de dois rios, o Cuito e o Cuanavale, e que fora uma pista militar da NATO na antiga colónia portuguesa, era, dez anos depois da independência, uma peça central no xadrez militar e político de Angola.
Em 1985, as forças angolanas lançaram uma forte ofensiva contra os bandos da UNITA acoitados junto da fronteira com a Namíbia, no Sul do país. A operação não logrou desbaratar o contingente de Savimbi e os batalhões sul-africanos que acorreram em seu auxílio. As Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) viram-se obrigadas a erguer com as tropas cubanas uma linha de defesa com 750 quilómetros, entre o porto marítimo de Namibe e a cidade de Menongue, nas costas do Cuito Cuanavale, impedindo que Savimbi e os sul-africanos penetrassem no coração de Angola.

Em Julho de 1987, nova investida das FAPLA, desta feita em Mavinga, no Sudoeste de Angola. A envergadura da operação quase garantiu a derrota da UNITA, não fossem novamente as Forças de Defesa da África do Sul (SADF, na sigla inglesa).
Perante o cenário de vitória do governo do MPLA e consequente afirmação da soberania angolana, Pretória contra-atacou. Nove mil homens da UNITA e do contingente territorial sul-africano na Namíbia, tanques e carros de combate, camiões blindados, moderna artilharia e aviões Mirage F-1, encurralaram as unidades de elite das FAPLA no Cuito Cuanavale. A 9 de Novembro preparavam-se para aniquilá-las e dar o golpe na conquista do povo angolano, a sua independência.

Como um boxeur

Face ao problema criado, o presidente angolano José Eduardo dos Santos pede ajuda a Cuba para fazer frente aos agressores. Fidel Castro, ciente da importância da derrota das forças reaccionárias para os povos da região, decide, a 15 de Novembro de 1987, depois de uma exaustiva análise da situação, reforçar o contingente de internacionalistas em Angola, a começar pelo envio dos melhores pilotos cubanos para a base aérea de Menongue, a partir da qual começam a dar resposta aos invasores sul-africanos.

Fidel encarrega o general Cintra Frias, experimentado guerrilheiro da Sierra Maestra e antigo combatente em Angola, do comando da frente Sul. O presidente cubano acompanha as operações militares e coloca em marcha uma operação logística memorável. No espaço de dias, transfere para Angola milhares de homens, centenas de tanques e de peças de artilharia, grupos antiaéreos e dezenas de aviões, em viagens de 15 horas até Luanda, e, depois, outras tantas horas por terra até ao Cuito Cuanavale.

Fidel sabia que deixava Cuba defendida pelo povo e por uns restos de armamento, mas aceitou o compromisso revolucionário de ajudar os patriotas africanos. Mais, o Comandante haveria de confessar a uma delegação de políticos sul-africanos com quem reuniu em Havana, entre os quais se encontrava o então líder do Partido Comunista Sul-Africano, Joe Slovo, que aquela era a oportunidade não apenas de salvar o Cuito, mas de expulsar definitivamente as SADF de Angola.
«Desde o primeiro momento a nossa ideia foi acumular forças para atacar noutra direcção, a exemplo do que faz um boxeur, que com a mão esquerda sustém, e com a direita desfere o golpe. Cuito Cuanavale foi a mão esquerda, e a direita foram as forças que se acumularam», disse.

Rumo ao Sul

Entre Dezembro de 1987 e Março de 1988, as SADF bombardeiam os agrupamentos de Angola e Cuba estacionados no Cuito Cuanavale. Diversos ataques de infantaria apoiados por unidades mecanizadas do regime racista encontram a resistência inexpugnável de cubanos e angolanos, que não cedem um palmo de terra e ditam a perda de peças e homens às forças ocupantes.

O derradeiro assalto sul-africano ao Cuito Cuanavale dá-se entre 21 e 23 de Março, mas a investida foi travada abruptamente pelo contingente conjunto, a tal «mão esquerda», que desta forma abriu caminho ao avanço imparável das colunas angolano-cubanas no Sudoeste de Angola.

O plano já havia sido gizado, a 6 de Março, por Havana e Luanda. Ao mesmo tempo que defendiam o Cuito Cuanavale, preparavam 40 mil soldados cubanos, trinta mil angolanos e cerca de dois mil da SWAPO (South West African Peoples Organization), para uma ofensiva rumo à fronteira com a Namíbia. A ideia era desbloquear a «mão direita» do boxeur.

Acompanhavam aquele autêntico «punho de ferro», como lhe chamou Rolando Rodriguez Garcia, «cerca de mil tanques junto com mais de mil e seiscentas armas antiaéreas e peças de artilharia, uns mil transportes blindados e todos os aviões de combate disponíveis». «Não restem dúvidas que, caso tivesse sido necessário, aquele enorme contingente chegaria a Pretória», defende ainda o historiador.
As hordas do apartheid não tiveram outro remédio senão recuar. Para isso, muito contribuiu a construção, em apenas 60 dias e no decurso da batalha, do aeródromo de Cahama, capaz de abrigar os MIG-23 cubanos dos bombardeamentos e, paralelamente, golpear os aeródromos inimigos situados no Norte da Namíbia.
Cuito Cuanavale alterou o curso dos acontecimentos. A 26 de Maio, o chefe das SADF informava que os cubanos, angolanos e a SWAPO avançavam para Sul e encontravam-se a 60 quilómetros da Namíbia.

A aviação cubana dominava o espaço aéreo e a 8 de Junho já se encontravam a apenas 20 quilómetros da fronteira, alterando o «satus quo de maneira decisiva, com sérias implicações políticas e militares», como constatou o general Jannie Geldenhuys, citado por Piero Gleijeses em artigo publicado no passado dia 31 de Janeiro no Granma.

Entre os soldados e patentes militares da SWAPO o momento era histórico, pois pela primeira vez podiam avançar abertamente sobre o seu país combatendo as forças ocupantes sul-africanas.

Os últimos soldados da África do Sul saíram de Angola a 30 de Agosto de 1988. A Namíbia só haveria de conquistar a independência a 21 de Março de 1990, depois da vitória eleitoral da SWAPO e a designação de San Nujoma para a presidência do país.
Importa também recordar que os sucessos militares em Angola calaram fundo entre o povo, dando-lhe revigorada força para lutar pela autodeterminação e contra o apartheid na Namíbia.

Basta recordar que a 4 de Maio de 1988, em pleno conflito, o governo sul-africano liderado por Pik Botha celebrou com uma parada militar em Oshakati, no Norte da Namíbia, o 10.º aniversário do massacre de Cassinga. A reacção à arrogância foi uma impressionante movimentação de massas que desafiou a repressão policial do «poder branco».

Genuíno internacionalismo

A 25 de Maio de 1991, Fidel Castro recebe o último grupo dos 50 mil combatentes provenientes de Angola. Durante 15 anos passaram por aquele país cerca de 350 mil cubanos em missão internacionalista. Ali perderam a vida lutando como se de solo pátrio se tratasse mais de dois mil homens e mulheres.

«A missão internacionalista estava cabalmente cumprida. Os nossos combatentes iniciaram o regresso à pátria com a cabeça levantada, trazendo consigo unicamente a amizade do povo angolano, as armas com que lutaram com modéstia e valor a milhares de quilómetros, a satisfação de dever cumprido e os restos mortais dos nossos irmãos caídos. A sua missão resultou também decisiva para consolidar a independência de Angola e alcançar a da Namíbia. Foi ainda uma contribuição significativa para a libertação do Zimbabué e o desaparecimento do odioso regime do apartheid na África do Sul», sintetizou Fidel Castro em discurso proferido a 2 de Dezembro de 2005, em Havana.

Duas décadas depois de Cuito Cuanavale, Cuba prossegue solidária para com os povos que num mundo cada vez mais desigual e injusto afirmam a soberania popular e o direito a decidir do seu próprio destino.

Milhares de cubanos encontram-se em missões nas áreas da educação, saúde, ciência e tecnologia, e tantas outras, sem reclamarem esforços ou exigirem contrapartidas ou lucros, talvez porque tenham presente que «toda a glória do mundo cabe num grão de milho», como certo dia afirmou Fidel Castro.

Manobras da Casa Branca

Rico em petróleo, jazidas de pedras preciosas e dotado de uma biodiversidade invejável, o território angolano foi desde sempre alvo da cobiça do capitalismo, que perdendo posições depois de derrotada a ditadura fascista e colonial portuguesa em 25 de Abril de 1974, procurou que novos lacaios mantivessem Angola e o seu povo sob o jugo da exploração.

No terreno, uma poderosa força, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderava a aspiração de independência, mas a orientação política do partido destoava do alinhamento norte-americano.

Neste contexto de derrota da sua influência na região, Washington iniciou um programa de auxílio à Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), de Holden Roberto, e à UNITA, de Jonas Savimbi, socorrendo-se do Zaire, no caso dos primeiros, e da África do Sul, no caso dos segundos, como plataformas giratórias no apoio logístico, treino militar e envio de armas.

Na versão oficial da Casa Branca, o referido programa só foi desencadeado devido à presença em Angola de tropas cubanas, mas o professor Piero Gleijeses, da Universidade John Hopkins, demonstra com clareza no seu livro «Missões em conflito: Havana, Washington e África, 1959-1976», que o então presidente dos EUA, Gerald Ford, ordenou o intervencionismo logo em Julho de 1975, e que os 480 conselheiros enviados por Havana, a pedido do MPLA, só chegaram a Luanda em Outubro.
Se dúvidas subsistem sobre esta matéria, Piero Gleijeses cita informações contidas nos relatórios da CIA, entretanto desclassificados, os quais não só confirmam a anterioridade da decisão da administração norte-americana, como desmentem as declarações do então secretário de Estado, Henry Kissinger, que perante uma comissão de investigação do Congresso dos EUA, em Janeiro de 1976, alegava que «os relatórios de inteligência indicaram a presença de assessores, instrutores e militares soviéticos e cubanos».

MPLA derrota pela primeira vez a reacção

Nutrida pelos norte-americanos, a FNLA avança a 14 de Outubro de 1975, a partir do Zaire, com o intuito de fazer capitular o MPLA e assumir a condução do processo de autodeterminação.

Se no Norte o ataque é conduzido pelas forças reaccionárias angolanas, no Sul o ataque é desferido pelo exército sul-africano que avança sobre Luanda. Os combates desenrolam-se até à véspera da declaração de independência. Com efeito, só a 10 de Novembro, na batalha de Quifangondo, os contingentes combinados do MPLA e de Cuba, cujas tropas haviam desembarcado no território 72 horas antes, logram a derrota dos comandados da FNLA, e é à meia noite desse dia que Agostinho Neto proclama a República Popular de Angola, livre e soberana.

Os EUA haveriam de substituir a FNLA pela UNITA como primeira aposta nas tentativas de golpe, e de forma assumida e aberta quando, em 1985, Ronald Reagan recebe na Casa Branca Jonas Savimbi e lhe cede modernos mísseis Stinger.
Quanto aos sul-africanos, derrotados militarmente pela primeira vez por angolanos e cubanos em Dezembro de 1975, só cruzariam a fronteira com a Namíbia em 27 Março de 1976. Voltariam, porém, isto apesar do Conselho de Segurança das Nações Unidas ter aprovado uma moção que condenava a primeira agressão sul-africana, sobre a qual os EUA se abstiveram, e instava Pretória a indemnizar a jovem República Popular de Angola.

Diplomacia de classe

Para além de uma retumbante vitória militar, a campanha angolano-cubana foi aliada a uma capacidade diplomática de classe. Logo no início dos anos 80, os EUA e a África do Sul tentaram afastar Cuba da mesa das negociações, acção que esbarrou na declaração conjunta de Havana e Luanda, de 4 de Fevereiro de 1982, onde se deixava claro que a permanência e retirada das tropas internacionalistas era uma questão bilateral entre Estados soberanos, em conformidade com o artigo 51 da Carta da ONU.
Incapazes de vencer a guerra, os sul-africanos compareceram a um primeiro encontro em Londre, a 4 de Maio de 1988. A este seguiram-se outros em Genebra, Brazzaville, Nova Iorque e Cairo, e foi na capital do Egipto, em Junho, que Cuba e Angola encurralaram a África do Sul e o «mediador» norte-americano.

Os representantes de Washington reconheciam a superioridade militar cubana, mas tentavam obter garantias sobre a conduta futura de Cuba. Em vão.
Mesmo nesse contexto, o então presidente sul-africano, Pik Botha, insistiu em retirar para a Namíbia e não da Namíbia, proposta que não só desrespeitava a resolução 435/78 do Conselho de Segurança sobre a autodeterminação daquele país, como mostrava a arrogância da África do Sul no que à intervenção em Angola dizia respeito. O chefe da declaração cubana, Jorge Risquet, foi lapidar na resposta quando afirmou que «a África do Sul não obterá nesta mesa o que não pode alcançar no campo de batalha» e que «só a independência da Namíbia podia dar garantias».

Botha e a corja racista que o acompanhava nos diálogos procurou até Dezembro desse ano - com a humilhante retirada de Angola, em Agosto, pelo meio -, salvar o decadente regime, mas a aventura angolana foi o canto do cisne do apartheid sul-africano, e a 22 de Dezembro de 1988, tal como pretendiam Angola, Cuba e a SWAPO, Pretoria subscreveu na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, os acordos que asseguraram a integridade angolana, a não ingerência do gigante do Sul e a independência da Namíbia.


Este artigo foi publicado em Avante número 1790 de 20 de Março de 2008