13 de julho de 2009 Era Antropozóica

Acabei de comprar pela internet a obra completa de Rachmaninoff, 31 CD?s e um CD ROM, em empresa de Munich, por apenas 50 euros. Se comprasse em loja por aqui, ou não acharia o produto, ou seria dez vezes mais caro.

A internet faz a gente se sentir um cidadão do mundo, depois que a gente perde o medo dela, aprende a usá-la.

Como as coisas são mais fáceis atualmente. Há cem anos atrás, se ia de navio para a Europa, gastando quase um mês, cartas iam pelo correio, não havia fax, nem xerox, telefones e telégrafos funcionavam mal.

Há cento e cincoenta anos, nem isso.

Nos tempos coloniais, as caravelas gastavam três meses ou mais nas travessias oceânicas. Os contratos se escreviam a mão e se copiavam a mão.

Os negócios de certo passavam meses ou anos para se concretizarem. Não havia televisão, nem rádio, nem antibióticos, nem vacinas, nem avião, nem automóvel.

Já se destruía a mata atlântica, mas com certo vagar, não havia motosserra, nem trator. E a população era escassa, a natureza grande e indomada.

Hoje enfrentamos a natureza com a afoiteza e soberba que os nossos meios de destruição permitem.

Aliás, temos arsenais nucleares que poderiam destruir o planeta milhares de vezes, e gastamos com guerras bilhões de dólares, que bem poderiam ser desviados para matar a fome e curar sida e cólera de milhões de africanos miseráveis.

Entramos na era antropozóica, (como algum cientista já disse,) que já sucede às eras cenozóica, mesozóica e paleozóica.

Isto é, em duzentos e tantos anos, a partir da Revolução Industrial, incrementamos geometricamente nossa capacidade de construção e destruição planetária, como uma espécie terraqueamente daninha, em número e qualidade de conhecimento e ação.

Estamos destruindo a biodiversidade do planeta, com nossas cidades monstruosamente grandes, nossas máquinas, bombas, técnicas, aviões, veículos, combustíveis fósseis e superpopulação. Nossa agricultura e pecuária eficientíssimas estão tomando todo o território do planeta, além das estradas e cidades.

As outras espécies vegetais e animais, se tivessem a nossa capacidade cerebral, já se teriam arregimentado num imenso exército para guerrear esta super espécie daninha que somos nós.

A Terra, no enfoque astronômico, sobreviverá muitos milhões de anos. A extinção do Sol está prevista para daqui a cinco bilhões de anos.

Mas a espécie humana de certo tornará o planeta inabitável daqui a uns poucos milhares de anos.

Ou será que teremos sabedoria suficiente para reverter ou estancar essa marcha assassina ? Ou migraremos para outros planetas e sistemas solares ?

Podemos produzir sinfonias maravilhosas de Rachmaninoff, mas também devastamos as outras espécies vegetais e animais que nos alimentam, poluímos rios e mares, atmosfera e solo, aquecemos o planeta e talvez até desviemos o seu eixo.

Que espécie perigosa a evolução legou ao mundo. E ainda nos chamamos homo sapiens, ao invés de homo deletor .

Mas talvez alguém diga que estou ruminando loucuras, que mais importante é saber das viagens de Lula, das falcatruas do Senado, das musiquinhas de Roberto Carlos, do funeral de Michael Jackson, dos campeonatos de futebol, do big brother, das novelas, do PIB, do PAC, da Bolsa, ou do cocô do cachorro na rua, ou do trânsito engarrafado, ou do crime organizado.

Tudo é relativo. O que virá depois ?