Símbolo do crime organizado no Brasil, o Comando Vermelho está com sua hegemonia ameaçada no Rio. Para a polícia, o título de campeão do crime está para ser "roubado" pelo Terceiro Comando, facção surgida em meados dos anos 90 e que, há dois anos, vem tomando espaço do grupo rival, o mais antigo do país, a partir de uma estratégia que toma emprestado métodos e conceitos de expansão empresariais para expandir território na cidade. Se o Terceiro Comando vinha erigindo sua reputação aos poucos, o piscinão de Ramos, contruído no coração de sua principal área de domínio, funcionou como trampolim para a fama, quando os traficantes impuseram regras à frequência do local. O grupo ganhou ainda mais publicidade com a descoberta de um luminosos com suas iniciais que adornava o muro de uma escola pública no morro da Casa Branca, na Tijuca.

Essa recém-conquistada visibilidade é decorrente do aumento do poderio do grupo. Dados da Secretaria de Segurança Pública revelados a no. mostram que, no último ano, o Terceiro Comando venceu 63% dos confrontos territoriais contra o Comando Vermelho. A vitória mais recente ocorreu na quarta-feira, 16. As seis favelas do Complexo do Fonseca, em Niterói, foram tomadas pelo TC. Essa ascensão é vista com preocupação pelo chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, que ainda considera o CV o grupo mais poderoso, embora perca espaço rapidamente. "Para você ter uma idéia, 37% da massa carcerária do Rio é do Comando Vermelho", revela. É um exército de mais de 7 mil pessoas. "Mas o Terceiro Comando tem uma visão expansionista. Deve haver mais confrontos com o Comando Vermelho pelo domínio de novas áreas", avalia Lins, que reconhece as limitações para enfrentar o tráfico. "Apenas a polícia não dá solução. Nós podemos melhorar uma situação, manter sob controle, mas resolver...", suspira.

Na polícia já há até quem avalie que o TC alcançou o rival. "O Terceiro Comando, com a ADA (Amigos dos Amigos), é hoje a organização criminosa mais forte no Rio", avalia Marina Maggessi, chefe do setor de Investigações da DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes). Ocupando função estratégica no combate ao tráfico, Marina explica que o TC tem os melhores contatos no exterior, tem mais dinheiro, mais armamento e mais estrutura organizacional. Ela também considera que os dois grupos têm estilos distintos. "A principal diferença é a violência", afirma.

"O TC tem uma visão mais empresarial. Estão preocupados com os negócios deles. Só usam a violência para invadir territórios. Dificilmente entram em confronto com a polícia. Por isso acabam perdendo menos homens e armas. Em compensação, em qualquer favela do CV que a polícia entrar, vai ter tiro". Marina acha que, no geral, o TC tem preocupação maior em manter a ordem em sua área de influência, pratica o assistencialismo nas comunidades em que está presente ? tradição abandonada pelo CV ? e evita empregar menores de idade. "O pessoal do CV é mais jovem e abusado. Hoje em dia não tem lugar pior no Rio do que a Tijuca (que, à exceção do morro da Casa Branca, é área do CV). É bala perdida, roubo de carros, assalto a ônibus, a residências. Nas áreas dominadas pelo CV a violência é maior para todo mundo. Não só para polícia."

Essa, digamos, "postura empresarial" do TC levou a facção a adotar algumas práticas do capitalismo. O crime organizado não ficou indiferente à moda das grandes fusões que têm agitado os mercados. O Terceiro Comando resolveu firmar uma espécie de acordo operacional com a Amigos dos Amigos (ADA). Essa associação começou a ser gestada há pouco mais de dois anos. A joint venture do crime funciona da seguinte maneira: os dois grupos não se enfrentam e juntam forças (armas e pessoal) para combater o Comando Vermelho. Mas cada um tem seus fornecedor de drogas e armamento.

Álvaro Lins conta que a polícia só descobriu evidências dessa aliança em maio de 2000, no subsolo de uma casa na favela da Maré (área do TC), numa das maiores apreensões de drogas e armas até então. No meio de 30 kg de cocaína, 10 fuzis e outras armas, foram encontradas camisetas exaltando a união dos dois grupos. "De lá para cá eles se tornaram praticamente um só", avalia Lins. Desde então o poderio dessa associação cresce sem parar. Segundo o delegado Jader Machado Amaral, que chefia a Polinter (onde ficam os presos que aguardam julgamento ou condenados que esperam vagas em presídios), o número de integrantes do TC entre seus 2.700 presos passou de menos de 10% para mais de 20% no último ano.

A origem do Terceiro Comando é controversa. Ao contrário da gênese do Comando Vermelho, cuja história é bem conhecida: um fruto inesperado do convívio forçado, nos anos 70, entre assaltantes de banco e presos políticos ? ambos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. A versão mais conhecida indica que o TC seria uma continuação da Falange Jacaré, pequena facção que surgiu nos anos 80 em oposição ao CV.

Há poucas dúvidas, entretanto, sobre o momento crucial da ascensão do TC. Ele ocorreu em 13 junho de 1994, com a morte de Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, que chefiava o tráfico no Complexo do Alemão. Ele foi assassinado por Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, "dono" do Morro do Adeus, num dos episódios mais violentos da história do banditismo do tráfico. Até então os dois eram os mais poderosos chefes do Comando Vermelho em liberdade. Com Orlando Jogador foram mortos 11 integrantes da quadrilha. Os corpos foram abandonados em diferentes pontos da cidade. Uê estaria vingando assim o irmão, Ignácio Pinto de Medeiros, ferido por Orlando Jogador numa disputa por território. Por essa chacina, Uê, que já foi o bandido mais procurado do país, foi condenado a 209 anos de prisão. Desde que foi preso em 96, ele vive num cubículo de seis metros quadrados em Bangu 1.

Pela morte do desafeto, Uê foi expulso do CV e criou a ADA, onde reuniu aliados importantes. Entre eles, o mais famoso é José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, que apadrinhou o início da carreira de Uê, e Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém. Em Bangu 1 foi firmada a aliança com o TC. A polícia considera Róbson Alves da Silva, o Robinho Pinga, que é do TC e está foragido, amálgama dessa união. "Ele é padrinho da filha do Linho (Paulo César Silva dos Santos, do TC) e conhece o Celsinho desde a infância já que os dois são da Zona Oeste", explica Marina.

No CV, o poder está fracionado. Internamente, suas lideranças se entendem tão bem quanto os caciques dos partidos políticos. Brigas internas e disputas por espaço são corriqueiras. A diferença é que, no caso do CV, o derrotado normalmente acaba crivado de balas. Exemplo recente é o da morte, no ano passado, de Denir Leandro da Silva, o "Dênis da Rocinha", que controlava o tráfico na favela que lhe deu apelido. O ponto é considerado o filé mignon da distribuição de drogas no Rio por concentrar o mercado da Zona Sul carioca e centralizar o disque-drogas. A polícia do Rio avalia que "a Rocinha movimente semanalmente perto de R$ 10 milhões e tenha um exército de 300 homens". Parece pouco, mas isso representa meio bilhão de reais por ano em apenas uma das favelas do Rio.

Dênis foi morto num dos 48 cubículos individuais que formam a penitenciária Bangu 1 (reservada a presos mais violentos) por um colega de facção. Segundo a polícia, o autor seria Márcio Nepomuceno dos Santos, o Marcinho VP, que, de Bangu 1, controla o tráfico no Complexo do Alemão, principal porta de entrada de armas e drogas para o Comando Vermelho. Marcinho VP chefia a ala mais nova do CV, o Comando Vermelho Jovem. Essa sub-divisão é responsável pelas maiores dores-de-cabeça de Lins e da cúpula da polícia. O grupo é responsabilizado pelas falsas blitz e pela execução de policiais. "O CVJ é o principal personagem dessas ações mais violentas aqui no Rio. Eles são totalmente irresponsáveis e inconseqüentes. Usam a filosofia do terror. E não estão procupados em conquistar a simpatia da comunidade ou em fazer política de boa vizinhança", diferencia o chefe da Polícia.

A briga mais recente no CVJ é entre Aldair Marlon Duarte, que está foragido, e Alexsander Mendes da Silva, o Polegar, que foi recapturado no início do ano. Inicialmente, a polícia informou que Polegar havia comandado a operação que libertou Aldair, chefe do tráfico no morro da Mangueira, enfiando uma carreta no muro da Polinter, em outubro do ano passado. Agora, descobriram que os dois são inimigos e disputavam o controle da Mangueira.

A prisão de Polegar não foi o único desfalque recente para o CVJ. Há pouco, a polícia prendeu Márcio José Guimarães, o Tchaca, outro chefe do CVJ, que comandava o tráfico em sete favelas da Zona Norte da cidade. Em compensação, um dos expoentes do TC, Romildo Souza da Costa, o Miltinho do Dendê, ganhou liberdade no dia 7. É pela favela do Dendê, na Ilha do Governador, no meio da baía de Guanabara, que o TC recebe droga e armamento.

O TC tem aproveitado essas brechas para crescer. Um dos principais tropeços do Comando Vermelho foi a prisão de Fernandinho Beira-Mar no ano passado. Segundo a DRE, ele era o principal matuto (quem tem os contatos para trazer a droga) da organização e sua prisão desarticulou o fornecimento do grupo. Mas não chegou a afetar o mercado varejista. O quilo de cocaína pura continua a chegar à cidade a R$ 5 mil. Após o milagre da multiplicação do pó, que transforma um quilo em três, a cocaína vai às ruas custando cerca de R$ 30 mil.

Esse enfraquecimento do CV, sem Beira-Mar, começa a mudar a geopolítica do pó nas favelas do Rio, como mostra um mapeamento feito pela polícia das áreas controladas pelas organizações criminosas. Não estão contabilizadas nesse levantamento as bocas-de-fumo, os locais onde são feitas vendas a varejo. Entraram apenas os pontos estratégicos onde há estrutura montada e aparato armado para preservá-la. Numericamente, o CV mantém a dianteira. Mas vem perdendo espaço. "O poder do tráfico não se vê assim", explica Marina. "É preciso ver o tamanho da favela, quanto ela vende, qual sua importância, sua localização geográfica", pondera ela, que considera impossível fazer uma estimativa do volume de dinheiro movimentado pelo comércio de droga. "Isso é chute", justifica, explicando que eventualmente a polícia consegue apreender a contabilidade do tráfico em alguma área e, assim, fazer estimativa desses locais.

Hoje, o CV controla 91 favelas no Grande Rio. Além do Complexo do Alemão, a Zona Sul inteira está em suas mãos. Na Tijuca, apenas o morro da Casa Branca não está dominado. "Mas na Zona Sul o tráfico é feito no asfalto", minimiza Marina.

O TC controla 34 favelas ou complexos. Mas são bem representativas. Entre elas, segundo o mapeamento, está o Complexo da Maré, o maior aglomerado de favelas do país com 130 mil habitantes. É o lugar do já famoso piscinão de Ramos, entre Ramos e Roquete Pinto. Outras favelas famosas também caíram nas mãos do grupo, como Acari (região que ficou mais conhecida pela existência de uma feira de peças de carro roubadas), Parada de Lucas e Dendê. A ADA comanda 24 áreas. Entre elas o Morro do Adeus, área de Uê, o principal chefe da organização. E o Morro do Juramento, cuja fama está associada a Escadinha, que nos anos 80 estrelou uma fuga de helicóptero do presídio da Ilha Grande e que já cumpriu 17 anos da pena de 52 (hoje está em Bangu 4).

O tráfico vai espalhando sua influência seguindo o crescimento da cidade: rumo ao Oeste. Segundo a polícia, o TC já domina essa nova área quase completamente. As únicas favelas que não pertencem ao TC ou à ADA são Vila Kennedy e o Conjunto Cesarão. "Nesse ritmo, em breve o Terceiro Comando vai ultrapassar o Comando Vermelho", acredita Lins.

As áreas de cada um:

Comando Vermelho (CV)

1. Alagados
2. Complexo do Andaraí (Divinéia e Flor da Mina)
3. Árvore Seca
4. Azul
5. Bandeira Dois
6. Barreira do Vasco
7. Barro Preto
8. Barro Vermelho
9. Bateau Mouche
10. Belém-Belém
11. Morro do Borel
12. Morro dos Cabritos
13. Cachoeira Grande
14. Cachoeirinha
15. Complexo da Penha (Caixa d´Água, Sereno, Chatuba, Fé e Caracol)
16. Cajueiro
17. Camarista Méier
18. Cantagalo
19. Casinhas
20. Morro do Cavalão
21. Favela Cavaleiro Esperança
22. Cerro-Corá
23. Conjunto Habitacional Cesarão
24. Chapéu Mangueira
25. Chatuba de Nilópolis
26. Cidade Alta
27. Cidade de Deus
28. Congonha
29. Favela Cosmos
30. Cruz
31. Curicica
32. Dique
33. Dique de Vilar dos Teles
34. Divinéia de Paciência
35. Dourados
36. Encontro
37. Eternit Chaves e Mata Quatro
38. Estado
39. Eucalipal
40. Morro da Fé
41. Morro do Feijão
42. Fernão Cardim
43. Final Feliz
44. Furquim Mendes
45. Galinha de Belford Roxo
46. Galinha de Inhaúma
47. Gambá
48. Gogó da Ema de Belford Roxo
49. Bairro Granja Cabuçu
50. Grotão
51. Favela Guabiru
52. Guarani
53. Horta de Madureira
54. Ititioca/ Atalaia
55. Imbariê (Avenida B., Rodrigues Alves, Vila Sapê e Santa Lúcia)
56. Jardim Sumaré de Vilar dos Teles
57. Kelson
58. Ladeira dos Tabajaras
59. Lagoinha (Niterói)
60. Morro Menino Deus
61. Favela Metrô
62. Morro Nossa Senhora da Guia
63. Nova Brasília (Morro de Niterói)
64. Outeiro
65. Outeiro das Pedras
66. Palácio
67. Parque Arará
68. Parque Boa Esperança
69. Parque Colúmbia
70. Morro Parque Silva Vale
71. Parque Tietê
72. Morro Pau Ferro
73. Paula Ramos (Santa Alexandrina)
74. Pavão/Pavãozinho
75. Pereirão
76. Rola 1 e 2
77. Sabão
78. Saçu
79. Salgueiro
80. Salgueiro (São Gonçalo)
81. São José Operário
82. São José da Pedra
83. Sapo (Conjunto Viegas)
84. Sumaré
85. Turano
86. Varginha
87. Vidigal
88. Vigário Geral
89. Vila Aliança
90. Vila Cruzeiro
91. Zinco

Comando Vermelho Jovem (CVJ)

1. Complexo do Alemão
2. Morro do Amor
3. Conjunto Habitacional Antares
4. Beco do Brizola/ Sacoaç/ Urucrânia
5. Favela Beira-Mar
6. Céu Azul
7. Chacrinha
8. Chapadão
9. Morro da Cotia
10. Dona Marta
11. Engenho da Rainha
12. Fallet
13. Fogueteiro
14. Morro da Formiga
15. Complexo Jacarezinho
16. Lixão/ Vila Ideal
17. Mangueira
18. Manguinhos
19. Matinha
20. Matriz
21. Mineira
22. Nelson Mandela
23. Nova Aurora
24. Nova Jersey/ Gouveia
25. Pinto
26. Morro dos Prazeres
27. Morro da Providência
28. Quatro Bicas
29. Quieto
30. Rato Molhado
31. Rocinha
32. Sampaio
33. Santo Amaro
34. São João
35. Vila Kenedy

Terceiro Comando (TC)

1. Acari
2. Aço ou Vila Paciência
3. Barbante
4. Barbante (Ilha do Governador)
5. Batã
6. Morro Boa Vista (Niterói)
7. Boogie Woogie
8. Brás de Pina
9. Morro da Casa Branca
10. Chatuba de Costa Barros
11. Morro da Coroa
12. Dendê
13. Faz Quem Quer
14. Fubá
15. Conjunto Fumacê
16. Favela INPS
17. Jorge Turco
18. Juca Branco (Morro de Niterói)
19. Morro dos Macacos/ Pau da Bandeira
20. Complexo da Maré (12 favelas)
21. Melhoral
22. Muquiço
23. Palmeira
24. Parada de Lucas
25. Pedreira
26. Pedrinhas
27. Favela Praia da Rosa
28. Morro do Querosene
29. Rebu
30. São Carlos
31. Serrão (Niterói)
32. Serrinha
33.Vila Ipiranga
34. Zaquia Jorge

Amigos dos Amigos (ADA)

1. Morro do Adeus
2. Águia de Ouro (Jacarepaguá)
3. Caixa d´Água
4. Catiri
5. Morro do Céu
6. Favela da Chácara
7. Chatuba (Complexo do Caju)
8. Coréia
9. Favela Cosme e Damião
10. Curral das Éguas
11. Morro 18
12. Fazendinha da Piedade
13. Guarda
14. Juramento
15. Juramento 2
16. Malvina
17. Minha Deusa
18. Morro do 48
19. Parque Alegria
20. Primavera
21. Terço
22. Urubú
23. Urubuzinho
24. Vinte e Sete

Fonte: DRE