Johnny Castro, da Comissão de Relações Anarquistas da Venezuela e do grupo @patia No, solta “cobras e lagartos” sobre Chávez e o chamado “processo revolucionário” venezuelano na entrevista a seguir.
ANA - Eu li uma declaração de Chávez que ele dizia que era preciso formar uma frente opositora “que derrotasse tendências anarquistas, golpistas, terroristas, paramilitares, bushistas”... Esse homem é louco mesmo, não?
Johnny - Esta declaração foi real, há até mesmo um projeto de lei que penaliza o anarquismo com prisão. O discurso de Chávez é bem mais que um "duplo discurso", e muito ambíguo também. Enquanto numa coletiva de imprensa, ou no seu maratônico programa "Alô Presidente" de todos os domingos está dizendo, "...mais nenhuma gota de petróleo para os EUA", por outro lado faz e assina super acordos com multinacionais petrolíferas, com concessões de até 30 anos para estoque de gás e petróleo.
Ao passo que lança discursos contra o paramilitarismo, por outro lado esconde e apóia grupos armados em favor da "revolução bolivariana", fomentando o militarismo que é o problema real, e também gerando uma espécie de "paramilitarismo de esquerda", como foi chamado nas páginas do último número do "El Libertario" (N° 38, pág. 2). Os que chamam de "golpistas", são alguns grupos de "direita" e de "oposição" que estão sendo apoiados pela CIA, é verdade, nada disso é desconhecido, mas as pessoas esquecem-se também que Chávez foi "golpista" há 12 anos atrás, quando tentou tomar o poder no dia 4 de fevereiro de 1992. Também chama Bush de "pendejo", e por outro lado diz que “...a relação com Estados Unidos é histórica e profunda". Fala que os meios de comunicação privados são manipulados e mentirosos, mas por seu lado esconde a verdade com os meios de comunicação do Estado. As pessoas podem sacar conclusões precipitadas, acredito...
ANA - Nessa polarização de forças venezuelanas, entre chavistas e oposicionistas, com grupos armados, milícias paramilitares e parapoliciais... Você acredita que numa situação extrema, os anarquistas e a dissidência em geral da Venezuela correm risco de vida?
Johnny - A meu ver a Venezuela é uma bomba relógio. A bipolarização está em todos os setores da sociedade, e muitas pessoas estão preparadas e armadas para defender sua parte no bolo. Os anarquistas, realmente nada pintam neste enfrentamento, visto que nós não estamos com nenhum dos dois grupos. O trabalho atualmente é meramente contrainformativo, revelando coisas que não dizem nenhum dos dois bandos. Para os "chavistas", nós somos da "oposição", e para a "oposição", nós somos "chavistas". Na hipótese de algum choque sério como "guerra civil" ou "mudança de poderes”, muitas pessoas serão detidas, investigadas, sufocadas, e, logicamente, aconteça o que aconteça, os anarquistas estão numa espécie de "linha de fogo". Não é para ser paranóico, mas é melhor prestar atenção a estas situações, já que a história fala-nos de mortes e desaparecimentos de pessoas ligadas em planos políticos.
ANA - E que papel os anarquistas fora da Venezuela devem ter em relação às coisas que vêm ocorrendo no seu país?
Johnny - Isto é muito importante, acredito que a idéia é estar atentos a situação na Venezuela, e em nosso caso debater e fazer ações com respeito ao que ocorre lá, já que por estes lados Chávez realmente tem bastante popularidade entre os grupos de esquerda, porque como todo Estado, manipula a informação como lhe dá na telha, sempre de acordo com seus interesses e nunca dizendo a verdade. Talvez contando a coisa pela metade, escondendo coisas. Por isso estamos constantemente em contato com os nossos companheiros do nosso coletivo CRA para falar de qualquer informação, visto que as informações tampouco chegam aqui. Tem que buscá-las.
ANA - Você sabia que aqui no Brasil é comum encontrar bandeiras da Venezuela em manifestações da esquerda institucional, inclusive com círculos bolivarianos organizados?
Johnny - Realmente não sabia que no Brasil existiam esses tipos de grupos, mas realmente não me surpreende, já que havia tido notícias que no Uruguai ou Argentina, por exemplo, já existiam pessoas bolivarianas trabalhando. É louco contar-te isso, mas meses atrás vi uma parte de um jogo de futebol da Venezuela contra Uruguai (em Montevidéu acho, não recordo muito bem), e nos alambrados haviam faixas de apoio a Chávez, assinadas por círculos bolivarianos uruguaios. Sem ir muito longe, aqui na Europa eu pude notar que muitos grupos de esquerda levantam também a bandeira do chavismo, e mesmo em canais culturais importantes e independentes estão transmitindo documentários da chamada "revolução bolivariana", e apesar do fato de que muitas coisas que dizem são certas, estão escondendo a informação completa, isto é, dizem a verdade parcialmente. Não é estranho dizer que Chávez financia documentários de modo que os transmitem em outras partes do mundo. Por isso são necessários os meios de comunicação de contrainformação, para dizer realmente o que está acontecendo.
ANA - E tem mais uma sobre os brasileiros, dias atrás um escritor conhecido no Brasil entregou para Chávez, naquele programa de TV comandado por ele, o “Alô Presidente”, um abaixo assinado de artistas, políticos e intelectuais (a maioria de esquerda), intitulado “Se eu fosse venezuelano, votaria em Hugo Chávez”. E parece que foi entregue outro abaixo-assinado, desta vez com nomes internacionais, como Noam Chomsky, Mano Chao, Eduardo Galeano etc., dando apoio a Chávez. Isso tudo é triste, mas não deixa de ser muito engraçado, não? Dentro da Venezuela como os artistas e intelectuais se posicionam?
Johnny - Muitos grupos também se mostraram simpatizantes de Chávez na Venezuela, porque Chávez e os "Círculos Bolivarianos" facilitam-nos recursos para fazer concertos nas ruas e parques. Por outro lado, acredito que na Venezuela o caso é diferente, porque a maioria dos artistas trabalham nas televisões privadas, então, ou se parcializam pela "oposição" e "coordenadoria democrática", ou não dizem nada realmente. Creio que é como uma espécie de política dos canais de televisão. Assim mesmo não é nada desconhecido que muitos trabalhadores de televisão foram removidos de seus cargos por ser de uma opinião política ou outra, seja qual for.
ANA - Como você vê essa questão de que existe por volta de 8.000 médicos venezuelanos desempregados, mas Chávez “convidou” 10 mil médicos cubanos para trabalhar nas regiões mais pobres do país?
Johnny - Está é a história que nunca se acaba, já que muitos destes médicos desempregados, supostamente assinaram contra Chávez no plebiscito e as pessoas do chavismo alegam que não podem tê-los trabalhando com eles, porque são pessoas que votaram contra eles, coisa que atenta macabramente contra a liberdade de expressão e de opinião. Então o que acontece na Venezuela atualmente é que só não há esta grande quantidade de médicos desempregados, mas um grande número de pessoas que perderam postos de trabalho por assinar contra Chávez. Também quando vais procurar um emprego num escritório destes do Estado, ou outro que tem concessões/contratos com o Estado, a primeira coisa que te perguntam é: "assinastes contra Chávez?" E, logicamente, se fizeste isso, você não pode conseguir trabalho, não lhe dão o contrato etc.
No caso dos médicos, por ser algo super importante, Chávez encheu o vazio com médicos cubanos, e de acordo com comentários de amigos que vivem em zonas onde há muitos destes médicos, muitas vezes eles não têm nada o que comer, nem onde dormir, e, portanto, as pessoas dali lhes oferecem permanência, o cafezinho e algo assim. Nesse sentido as pessoas se solidarizam um pouco com estes médicos, já que eles não têm culpa. Mas é a mostra de que acontecem coisas muito anormais atualmente na Venezuela. Hoje o populismo é realmente muito absorvente na sociedade venezuelana. Outros exemplos que poderia citar se refere à construção das ferrovias atualmente. Na Venezuela existem muitíssimas empresas com trabalhadores que podem construir e licitar muito bem estas ferrovias, mas não! O governo venezuelano contrata uma "supermultinacional européia" para fazer dita ferrovia, e tem pessoas européias especializadas trabalhando com salários de até 3 e 4 mil Euros ao mês, e os poucos empregados venezuelanos que estão trabalhando ganham só 200 Euros ao mês... Há um sem número de casos e se deve tomar cuidado com estas coisas.
ANA - Você poderia falar um pouco da relação Chávez e a multinacional “ChevronTexaco”?
Johnny - A Chevron está na Venezuela desde antes da sua fusão com a Texaco, aproximadamente em meados dos anos 40. Depois da fusão em 2001, li que a ChevronTexaco é a segunda companhia internacional de petróleo dos EUA. Depois da nacionalização do petróleo na Venezuela em 1976, as companhias haviam se retirado, mas retornaram e operam em vários poços e campos desde meados dos anos 90, e isto não mudou com a chegada de Chávez em 99, mas o que ele fez foi reafirmar a participação desta multinacional na Venezuela. O que causou mais comoção, acredito, foi à entrega que fez Chávez de uma parte da "Plataforma Deltana", localizado ao oeste do país no delta do Orinoco. Nessa área fica a maior reserva de gás da Venezuela. Isto permite demonstrar que com Chávez foi reiterada a afirmação que a Venezuela continua sendo um suplente confiável de energia para os EUA. Realmente fica comprovado que o discurso "antiimperialista" de Chávez é também ambíguo.
ANA - Você gostaria de esclarecer alguma coisa sobre a questão "Chávez"?
Johnny - Existem muitas coisas escondidas no chamado "processo revolucionário" de Chávez, mas é difícil falar de tudo em tão pouco espaço. Para mencionar alguns, pois muitas coisas soam estranhas, por exemplo: funcionamento de rádios e projetos chamados a si mesmos de "autogestionários" com recursos estatais; tomada de indústrias por parte de trabalhadores e as situações não melhoram, e sim pioram depois de tomadas; não só "ChevronTexaco" está na Venezuela, há que citar outras multinacionais européias também, como a "Repsol"; as demissões injustificadas em empresas do Estado contra pessoas com opiniões políticas diferentes, ou porque assinaram em apoio à elaboração do plebiscito revocatório; grande negligência e corrupção nos escritórios de entrega de documentos e passaportes, isto eu vivi na própria carne para retirar a cédula e o passaporte no passado mês de maio; estranhas execuções em bairros e zonas de Caracas ligados ao problema do ódio entre os bandos políticos; supostas reivindicações dos direitos dos indígenas, mas fizeram uma linha de transmissão elétrica no meio da zona onde habitavam, deslocando-os e causando até mortes destes; promulgação de inumeráveis leis que na pratica são vistas como impossíveis pela grande corrupção, o problema que nunca se acaba.
Há muitas coisas, só me veio à mente estas pensando rapidamente... Acredito que as cifras venezuelanas não nos mostram um panorama encorajador e de melhora, e que só o significado de que tantas pessoas estarem tomando parte na participação política, a oportunidade e rumo histórico do país podem ser vistos perdidos se não se pensa objetivamente na situação.
ANA - Bem, companheiros, chegamos ao fim. Obrigado pela paciência e generosidade. As palavras finais são suas...
Johnny - Obrigado Moésio, foi uma conversa longa e interessante. Envio uma saudação cordial à todos e deixo a nossa direção de e-mail e também página na internet. Se alguém tiver alguma dúvida, pode escrever, realmente somos 100% abertos ao debate, comentários, críticas etc. Até breve!
E-mail:
apatia_no@gmx.net Site: www.geocities.com/apatiano
Mais infos sobre os anarquistas venezuelanos frente ao chavismo: www.nodo50.org/ellibertario/a_chavez.htm
agência de notícias anarquistas- ana
Está chovendo? Não
bichos-da-seda comendo
as folhas, tão ávidos.
H. Masuda Goga
