Chavismo e Anarquismo hoje na Venezuela

Continuação

P. Por que os anarquistas criticam as Forças Armadas Venezuelanas ? de origem claramente populares e nacionalistas ? e sua capacidade de apoiar um projeto revolucionário?

R. Em todo exército moderno, desde a Europa dos séculos XVII e XVIII até a América Latina de hoje, a maior parte das tropas é recrutada nos setores populares. Excetuando a origem social da maioria dos integrados, a razão de ser do exército é a defesa de uma estrutura de poder e de seus detentores, eis por que ele jamais poderá apoiar uma revolução em favor dos oprimidos. Trata-se apenas de trocar uma pessoa por uma outra e algumas regras da estrutura do poder, mas este não será eliminado porque o comando e a obediência são sua essência. Por isso não apoiamos nenhum exército, nenhuma polícia ou privilegiados que possam utilizar para seu benefício a força ou as armas contra outras pessoas. O nacionalismo não é uma posição que o anarquismo aprove, porque implica circunscrever os interesses de certas pessoas, encerradas artificialmente por um Estado em um certo território-nação, as quais consideram-se diferentes e inclusive superiores às outras. Somos inimigos de todos os tipos de privilégios por nascimento, raça, cultura, religião ou local de origem. Além disso, a história nefasta da estrutura militar venezuelana fala por si mesma: institucionalizada pelo tirano Gómez para liquidar as aspirações federais regionais; consolidada em sua vocação repressiva durante a luta contra a insurreição de esquerda durante os anos 60; e executora do massacre de fevereiro de 1986.

P. No caso de os anarquistas venezuelanos serem ?descarnados? (apelido pelo qual o chavismo faz alusão a seus opositores) suportarão, por isso, a oposição social-democrata e de direita?

R. Descarnados é uma qualificação claramente midiática [...]. Em todo o caso, se querem com isso nomear aqueles que não admitem que se atente contra a liberdade e a autonomia para submeter-lhes uma imposição autoritária de uma pessoa, de um partido, de uma ideologia, então, somos descarnados. E se, com isso, querem dizer que apoiamos correntes identificadas com o liberalismo econômico, com a desqualificação quase racista das elites em relação à maioria da população, com a escroqueria da democracia representativa ou com o retorno às formas de organização sociopolíticas ultrapassadas pela história, não somos descarnados. Na realidade, não apoiamos o regime de Chavez nem seus opositores eleitorais; podemos estar de acordo com algumas ações de uns e dos outros, com algumas declarações de uns e dos outros, entretanto, fundamentalmente, criticamos a maioria dos fatos e dos discursos de uns e dos outros. Repudiamos a frustração reiterada das esperanças das pessoas que apoiaram Chavez, mas recusamos confirmar as manobras politiqueiras da tropa de oportunistas que se dizem oposição institucional. E, sobretudo, não podemos, por razões de princípio, apoiar aqueles que fundam a busca de uma vida melhor em qualquer tipo de subordinação das pessoas à hierarquia estatista, como querem fazê-lo os dois lados.

P. Os anarquistas apenas criticam, sem contribuir para mudar essa situação. Qual é a vossa proposição para transformar positivamente a realidade venezuelana atual?

R. Nossa luta não é conjuntural ou circunstancial, é por uma nova sociedade que devemos optar; pela vida coletiva e individual. É a luta pela existência de uma sociedade sem classes, a qual é indubitavelmente veiculada, pelo anarquismo, para abolição do Estado. Por esta razão, segundo o nosso critério, a autenticidade de qualquer revolução que seja deve ser feita pela real e efetiva liquidação ? a partir do momento em que ele se produz ? do aparelho estatista e de todo o poder hierárquico. Não cessamos de insistir sobre a exigência de começar a liquidação do Estado com, e não depois, a demolição da estrutura clássica da sociedade. Entendemos a revolução não como conquista do Estado mas como a supressão dele. Nesse sentido, cremos na tomada de posse da terra e dos meios de produção, diretamente pelos trabalhadores, incluindo a necessidade de defender por qualquer meio, como a expropriação, ou melhor, a restituição de toda a riqueza àqueles que são seus legítimos proprietários, aqueles que a criaram. Defendemos, portanto, que uma proposição positiva para a atual realidade venezuelana venha pela promoção da autonomia dos movimentos sociais do país, pois neles encontra-se o espaço de tensão necessária para o desenrolar e a influência dos princípios de base do ideal anarquista: ação direta, autogestão, liberdade e igualdade na solidariedade.