O movimento ATTAC teria "vetado" a presença de Fidel no II Fórum Social Mundial, marcado para Porto Alegre, entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro. Plantada pelo diário francês "Le Monde", em 20 de dezembro, a "informação" foi reproduzida no Brasil, um dia depois, por "O Estado de S.Paulo" - que copiou a mentira alheia e acrescentou outras, de lavra própria. Não é difícil entender as razões da intriga. Cuba é um símbolo da revolução do Sul, de nossa batalha sempre viva contra o imperialismo. O ATTAC, que centra sua atuação na reflexão para a ação construtiva de alternativas, participa com destaque do movimento internacional que, nos últimos anos, tomou as ruas a cada nova reunião das instituições globalitárias, para deixar claro que não estamos condenados ao neoliberalismo.

Mas as calúnias contra o ATTAC não param por aí. Soma-se à primeira inverdade o relato falso de um encontro que nunca aconteceu entre Bernard Cassen, Presidente da ATTAC França, e o presidente Fernando Henrique Cardoso, no qual, teria sido feito o hilário convite para que FHC presidisse a ATTAC no Brasil. E, como se não bastassem os ataques pessoais e raivosos contra o presidente da ATTAC França, estes estendem-se ao "Le Monde Diplomatique", publicação cujo editoral de dezembro de 1997 deu início ao movimento ATTAC.

Os interessados em manter nossa sociedade desunida e impotente têm todos os motivos para tentar nos consumir em falsas disputas internas, para evitar que enfrentemos juntos a dominação selvagem anunciada, por exemplo, pela ALCA ou pelo Plano Colômbia. Lamentavelmente, a experiência ensina que, às vezes, gente que diz estar em nosso campo engole a isca. As causas podem ser a falta de informação, o excesso de vaidade, a cultura autofágica que continua a paralisar a esquerda. As conseqüências são sempre repulsivas. A partir de 26 de dezembro, um certo Laerte Braga passou a difundir, via Internet, mensagens nas quais repete as mentiras fabricadas por "Le Monde" e "O Estado de S.Paulo" - e vai muito além. Partidário de idéias que é incapaz de demonstrar, INVENTA fatos que tornem suas teses verossímeis. Eis os atentados contra a verdade e os movimentos sociais:

1. "RELATAR" UM FALSO ENCONTRO ENTRE BERNARD CASSEN E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Maldosamente intitulada "Os negócios da esquerda", a mensagem em que Laerte inicia sua agressão ao ATTAC e a Bernard Cassen é uma peça de ficção. Rica em detalhes inventados, como data, duração e local em que haveria acontecido uma reunião entre Bernard Cassen e Fernando Henrique Cardoso, em Paris, o autor ainda dedica-se a analisar as conseqüências deste encontro que nunca aconteceu.

Todo o relato de Laerte é mentiroso. Cassen *não estava na França* no dia em que teria se encontrado com FHC; Cassen e FHC *nunca* se encontraram; e FHC jamais foi ou será convidado para assumir a ATTAC no Brasil. Tais afirmações são risíveis.

A estratégia do autor é forjar uma vinculação entre o ATTAC e FHC para fazer parecer que a finalidade do ATTAC é não permitir que o Fórum Social Mundial assuma um caráter anticapitalista. Tal estratégia é reforçada pela redução das lutas deste movimento anti-globalização neoliberal à Taxa Tobin, que nunca foi a bandeira principal do ATTAC no Brasil, e não é a do ATTAC-França.

2. APRESENTAR "LE MONDE DIPLOMATIQUE" COMO "JORNAL LIGADO AO CAPITAL"

Mas as calúnias contra o ATTAC não se restringiram às hilárias acusações pessoais a seu presidente, na França, e às sugestões de "instrumento da social-democracia"; estenderam-se também à prestigiosa publicação mensal dirigida por Ignacio Remonet e ele, o "Le Monde Diplomatique"

O "Diplô" foi apresentado como vendido ao capital. Para quem não sabe, o "Le Monde" e "Le Monde Diplomatique" são duas publicações de periodicidade, controle acionário e principalmente linha editorial inteiramente distintas. O segundo nasceu do primeiro. A partir de meados dos anos 90, contudo, os integrantes de sua redação desenvolveram uma ação rara no jornalismo. Interessados em alcançar independência editorial, foram à luta. Articularam a criação de uma "Sociedade Amigos do Le Monde Diplomatique", formada por milhares de cidadãos dispostos a contribuir financeiramente para o surgimento de uma imprensa livre. Esta sociedade, juntamente com outra associação que agrupa a equipe do jornal, adquiriu o controle do "Diplô", tornando-o autônomo em relação ao "Le Monde". A redação é, assim, completamente livre de toda tentativa de pressão contra sua independência.

No final do ano passado, "Le Monde" abriu seu próprio capital e colocou ações em bolsa. Na sua edição de dezembro, "Le Monde Diplomatique" criticou explicitamente a decisão, em mais uma demonstração de rebeldia. O diretor do "Le Monde" requereu direito de resposta na edição de janeiro de 2002 do "Diplô", e, num ataque claro a Cassen, acusou "membros da redação de "Le Monde Diplomatique" de "envolverem-se em atividades militantes".

Ao longo da última década, "Le Monde Diplomatique" transformou-se num pólo internacional de denúncia do neoliberalismo e de debate de alternativas. Em suas páginas aparecem com freqüência nomes como Eduardo Galeano, Noam Chomsky, ou o subcomandante Marcos. Uma das características do jornal é assumir posições corajosas sempre que os países do Sul e os movimentos de libertação enfrentam o imperialismo. Em dezembro de 1999, defendeu em editorial ("Chavez", www.monde-diplomatique.fr/1999/10/RAMONET/12526.html) as reformas políticas do presidente da Venezuela, exortando a opinião pública européia a enxergá-lo sem preconceitos. Em abril de 2000, uma reportagem de duas páginas (www.diplo.com.br/aberto/miololivre.php?id=87) destacou a integração dos guerrilheiros das FARC com a população empobrecida de seu país e desmistificou as versões segundo as quais a guerrilha é apêndice dos traficantes de drogas. Em fevereiro de 2001, um artigo (www.diplo.com.br/aberto/miololivre.php?id=405) apontou a inconsistência das "provas" apresentadas contra o governo Líbio num tribunal francês onde o governo de Muamar Khadafi é acusado de ter praticado atentado contra um avião norte-americano, em Lockerbie, Escócia).

A serviço de quem estará nosso acusador, quando, depois de fiar-se em "IstoÉ Dinheiro", procura apresentar "Le Monde Diplomatique" como inimigo, confiando na suposta desinformação de seus leitores?

3. MENTIR SOBRE O CONVITE A FIDEL PARA A MARCHA CONTRA A ALCA E A SOLIDARIEDADE AO POVO CUBANO

Ao contrário da versão difundida por "Le Monde" e "O Estado de S.Paulo" - e maldosamente reproduzida -- Fidel Castro jamais *insinuou sua vontade* de participar do Fórum Social Mundial. No final de 2001, ele *foi convidado* a participar de duas atividades ligadas ao movimento do hemisfério americano contra a ALCA. O convite partiu do MST e de três organizações gaúchas, *entre as quais o ATTAC-RS*.

Os que o convidaram apóiam-se na própria diversidade do FSM. Se, no encontro de Porto Alegre, são bem-vindos todos os que participam da luta contra o neoliberalismo, e se Cuba continua enfrentando de forma heróica o poder do Império, por que não contar com a presença do homem que simboliza esta resistência? Não seria, além de tudo, uma maneira de denunciar a odiosa exclusão imposta pelos EUA a Cuba desde que começaram as negociações para formar um "mercado comum entre as três Américas"?

Fidel atenderá ao convite? Chefes de Estado são símbolos que polarizam sentimentos, emoções, manifestações. Diversas organizações européias acreditam que o comparecimento de Fidel provocaria divisão num movimento que é heterogêneo e não-alinhado à Ilha - mas no qual repousam as esperanças de combate à globalização capitalista *e ao poder imperial que oprime Cuba*.

Caberá, nas próximas semanas, a Fidel Castro, a seus companheiros e a mais ninguém tomar a decisão. Ao longo de quatro décadas de revolução, eles deram prova de independência e inteligência política raras. Todas as organizações que formularam o convite - inclusive o ATTAC-RS - o mantêm. A versão difundida pelos jornalistas de mercado (e tristemente repetida entre nós) não passa de propaganda enganadora - e, acima de tudo, profundamente anticubana.

Aos que nos agridem com calúnias, responderemos com nossa verdade e nossa ação. Unidos, os núcleos do ATTAC no Brasil ajudarão a espalhar pelo país a chama da rebeldia e o vento da transformação.

ATTAC-RJ (Núcleo de Estudos Temáticos) / Ana Mary da Costa Lino Carneiro
ATTAC-RJ (Núcleo de Estudos Temáticos) / Ceci Vieira Juruá
ATTAC-RJ (Núcleo de Estudos Temáticos) / Maria Eloisa C.L. Mendonça
ATTAC-RJ (Núcleo de Estudos Temáticos) / Mayra J. Gomes de Oliveira
ATTAC-RS / Antonio Feix
ATTAC-RS / Afonso Sperb
ATTAC-RS / Carla Ferreira
ATTAC-RS / Felipe Vier
ATTAC-RS / Geraldo Feix
ATTAC-RS / João Gabriel Santos
ATTAC-RS / Jorge Cruz
ATTAC-RS / Mathias Luci
ATTAC-RS / Ricardo Grobovsky
ATTAC-RS / Ricardo Madeira
ATTAC-SP / Antonio Othom Rolim
ATTAC-SP / Antonio Martins
ATTAC-SP / Bianca Barreto
ATTAC-SP / Carlos Tibúrcio de Oliveira
ATTAC-SP / Daniel Merli
ATTAC-SP / Diego Azzi Filho
ATTAC-SP / Erick Moraes
ATTAC-SP / Fernando Santos
ATTAC-SP / José Corrêa Leite
ATTAC-SP / José Cabrera
ATTAC-SP / Léa Tosold
ATTAC-SP / Luís Fernando Novoa
ATTAC-SP / Paulo Goya
ATTAC-SP / Regina Egger
ATTAC-SP / Reynaldo Cué