Membro da Comissão de Relações Anarquistas da Venezuela e do grupo @apatia No, e atualmente morando na cidade alemã de Düsseldorf, Johnny Castro, fala a seguir sobre o anarquismo na Alemanha e ainda disseca, na segunda parte da entrevista, o chamado "processo revolucionário" venezuealano.


Agência de Notícias Anarquistas - Como que você chegou até a Alemanha? Parece que todos os compas da Comissão de Relações Anarquistas da Venezuela estão indo morar em algum país da Europa. (risos)

Johnny Castro - Bom, depois de estar viajando algum tempo por aqui em várias excursões com a banda que temos, @patia No, permanecemos por aqui estabelecidos. A primeira vez que vimos pela Europa foi em fevereiro de 2002 quando fizemos a primeira excursão. Também fizemos algumas palestras sobre a situação política da Venezuela, principalmente pela Espanha (recordo uma na França e outra na Polônia). Depois retornamos para a Venezuela e gravamos algumas canções para novos discos, aí planejamos regressar para a Europa, para outros lugares aonde não havíamos estado e também para fazer algo muito melhor organizado, já que na primeira ocasião não contávamos com muita experiência numa excursão longa, nem nada disso. Assim foi como viemos para cá, também pensando um pouco de como seria se permanecemos aqui depois da segunda excursão, e isso foi o que fizemos, procurando novos rumos e novos caminhos. Assim mesmo os problemas por ter ficado um tempo sem documentos foram grandíssimos. Mas a experiência foi positiva no sentido que particularmente estive em vários "acampamentos", "demos"... E este tipo de atividades que são realizadas por aqui possibilita divulgar um pouco a situação que vive a Venezuela. Visto que existe, verdadeiramente, muita desinformação e, também, manipulação da mesma.

Sobre os outros companheiros, sim, coincidentemente estão outros amigos na Espanha, Áustria e Itália.


ANA - Neste tempo que você está morando aí, qual a principal diferença em ser anarquista na Venezuela, e ser anarquista na Alemanha?

Johnny - Realmente isto não poderia te dizer exatamente neste momento, já que tenho muito pouco tempo por estas terras, e na cidade onde fiquei mais tempo, foi muito pouco. A idéia ácrata é muito clara e com uma corrente bastante definida, a idéia é aplicá-la um pouco no contexto em que você vive e te desenvolvas, mas sempre e quando não se mudem os meios e objetivos do anarquismo.

Na Venezuela sim te posso contar que o trabalho é bastante difícil neste momento pelo tipo de governo que existe, que é um governo de esquerda, se é que se pode ser chamado assim. Este tipo de governo colocou um sem número de recursos à disposição de grupos sociais e de bairro para que estes os "manipulem mesmo aparentemente", e em alguns casos existem exemplos interessantes de analisar (não anarquista diretamente, penso eu), mas em outros, acredito é mais que a mesma coisa, já que tentam disfarçar este tipo de manipulação do Estado com idéias que no fundo não são realmente assim: por exemplo, o caso da "autogestão", onde supostamente muitas organizações falam de autogestão e o Estado dá-lhes todos os recursos (?).

Bom, mas especificamente falando do trabalho da Comissão de Relações Anarquistas da Venezuela (existem outros coletivos também que sei de sua existência, mas não conheço sua organização). No momento é trabalhar para tentar informar e difundir a situação do que ocorre na Venezuela com o chamado "processo revolucionário" como eles chamaram. Também, claro, por em evidência a péssima campanha que desenvolvem os grupos de oposição que não são mais que grupos de direita, tentando ser o poder.

Acredito, que uma diferença bastante clara que pude ver é que na América Latina, por exemplo, muitos dos anarquistas em sua maioria (não todos, é claro) estão ligados ao movimento anarco-punk, coisa que aqui na Alemanha a primeira impressão não existe tanto auge anarco-punk, posso estar errado, mas é o que eu me dei conta. A movida punk por esses lados está super institucionalizada: muita "moda". E isto devido que aqui as coisas são mais fáceis e existem maiores recursos econômicos, talvez seja por isso que aconteça essa coisa. As necessidades da América Latina e daqui são realmente diferentes e incomparáveis.


ANA - Além dos problemas burocráticos que encontraram aí, já tiveram também problemas com a xenofobia alemã? As notícias que chegam daí afirmam que existe muito preconceito e até agressões contra latinos...

Johnny - Com respeito aos problemas típicos com os documentos, também sentimos na carne a "xenofobia" e "racismo" das pessoas que trabalham nessas instituições do Estado, quando fomos fazer as gestões dos documentos. Nas ruas também em varias oportunidades sentimos olhares e um sem número de discriminação, mas não caímos no jogo paranóico, senão acabaríamos ficando loucos por estas terras, já que apesar do fato de existir muitas pessoas boas que estão conosco, no fundo, pela limitação da linguagem e a cultura, nos sentimos sós muitas vezes. Assim mesmo penso, apesar do fato que exista aqui a xenofobia, e pude perceber mais xenofobia em outros países, já que a maioria dos países de Europa são governados mais ou menos pela mesma política.

Bom, em relação ao que sei sobre agressões contra especificamente latino-americanos poderia dizer em linhas gerais, já que a agressão é contra todo estrangeiro. Aqui o maior número de imigrantes, no caso da Alemanha, são de pessoas da Turquia, da África (marroquinos mais que tudo) e da ex-Iugoslávia. Latinos são muito poucos em comparação às quantidades de imigrantes dos países que antes mencionei. Os imigrantes daqui se acostumaram estar agrupados em certas ruas, assim, todos estão juntos. Por exemplo, na rua onde vivo mais da metade das pessoas são imigrantes, e é uma rua muito interessante, na mesma rua vivem pessoas da Turquia, Índia, Irã, Marrocos, Rússia, Croácia e assim vai...


ANA - A seu ver que país da Europa é mais xenófobo?

Johnny - Penso que toda a "União Européia" é mais ou menos igual, por isso se uniram, não? Mas não saberia te dizer que país é mais xenófobo que o outro, realmente não sei. A xenofobia existe em toda Europa, muito mais, acredito, nos países do centro/norte que do sul, por exemplo, lá sim, pode ter um país mais xenófobo que o outro, mas é difícil dizer. Aqui na Alemanha, por exemplo, há problemas de xenofobia contra as pessoas da Turquia, como te dizia antes, existem muitíssimas pessoas da Turquia aqui. Mesmo assim temos que andar com cuidado na rua. Eu já tive numa par de ocasiões problemas com "fachos" na rua.


ANA - Você disse que a movida punk aí na Alemanha está muito institucionalizada, mas você tem acompanhado o que está acontecendo nos EUA onde uma tendência do universo punk americano está se envolvendo nas eleições, uns apoiando Bush e outros não? E, claro, muitos que são contra todos.

Johnny - Sem comentários isto. Sabe, não sei porque isso veio acontecer agora com os punks velhos de lá... Não entendo muito bem estas aproximações. Nós como anarquistas não entendemos a idéia de apoiar a um poder nem outro, se ao final tudo é a mesma coisa. Insisto que isso é um pouco absurdo. Na Venezuela, falando de nosso caso, existem muitas tendências punks que apóiam também a Chávez por vê-lo como o mal menor. Igualmente sem comentários. Nós como grupo antiautoritário, estaremos contra isto e qualquer Estado.


ANA - Que "acampamentos" e "demos" são essas que vocês participaram?

Johnny - Os acampamentos que eu te falava eram especificamente alguns "anti-deportação" que são feitos a cada ano aqui na Alemanha. Estes são levados a cabo para informar os imigrantes e pessoas em geral sobre seus direitos, e são muito interessantes. Também são realizadas ações, e nos acampamentos passados ocorreram vários enfrentamentos com a polícia, sendo o saldo de detidos de até 200 pessoas. No ano passado foi na cidade de Köln, onde participaram 600 a 700 pessoas mais ou menos. E este ano se realizará em agosto, em várias cidades simultaneamente (Berlim, Hanover etc.). Existem outros tipos de acampamentos antifascistas que acontecem em toda Alemanha. Os acampamentos e demos geralmente acontecem simultaneamente também. Ultimamente há muitas demos antifascistas, porque existe muito movimento neonazista aqui.


ANA - Esses “acampamentos” e “demos” sempre contam com a participação de anarquistas, ou é só para imigrantes?

Johnny - Não. Nestes acampamentos vão muitas pessoas diversas, de diferentes coletivos sociais: anarquistas diversos, punks, e até comunistas antileninistas eu vi nos acampamentos. A idéia é que se encontrem com um objetivo especifico, mas são realizadas outras atividades também, aparte das atividades “antideportação”. Este ano o acampamento será como uma espécie de excursão por várias cidades, com atividades, ações e palestras também.


ANA - Quais são suas impressões sobre o anarquismo atual na Alemanha?

Johnny - Existe, onde eu me dei conta a FAI-FAU. Tem publicações e é uma organização mais ou menos formada com membros, de acordo com o que fiquei sabendo, em toda Alemanha. Aqui em Düsseldorf estes dias eu me inteirei que tem pessoas trabalhando, e já estou averiguando para ver do que se trata. Eu ainda não tive contato com esta organização. Estive com gente autônoma simpatizante do anarquismo, e com estas pessoas tenho me reunido e há muitos debates. Existe, por exemplo, um coletivo aqui com uma “infoshop” que é chamada "Zapata" que divulga muita informação da situação no México, do EZLN. E também estão com os "imigrantes" que não têm documentos etc. É bastante interessante a consolidação deste tipo de trabalho em espaços definidos, e daqui posso levar uma impressão positiva deste tipo de iniciativa, que, por exemplo, a nós na Venezuela é quase impossível ter um espaço fixo, para reunião e tudo isso, mas como te dizia anteriormente, são situações diferentes. Em outras cidades em que eu fui também me dei conta de trabalhos parecidos, nesses âmbitos as pessoas estão conectadas... Isso é bom.


ANA - FAU significa União de Trabalhadores Livres?

Johnny - Sim, exatamente: Freien ArbeiterInnen Union.


ANA - É certo afirmar que há muita influência anarquista no movimento ocupa aí na Europa, mais precisamente na Alemanha?

Johnny - Eu diria que sim, mas é bastante variada a participação, já que os movimentos sociais por aqui são bastante específicos. Um exemplo, na marcha do Primeiro de Maio do ano passado aqui na Europa existiam muitos grupos anarquistas, mas as consignas eram diferentes entre eles, por exemplo, “das anarco-feministas”, “dos anarco-punks”, “dos ecologistas”, mas assim iam todos agrupados na marcha. Eu penso que no fundo todos são anarquistas, mas na prática tendem a dividir-se.


ANA - Há também aí na Europa muitas pessoas submissas e passivas que consideram uma ocupação igual a um serviço oficial de assistência social. Certo?

Johnny - O que ocorre é o seguinte. Muitas casas ocupadas (falo especificamente do caso da Alemanha que é o que eu conheço mais de perto) com o tempo, o Estado foi as "legalizando", pelo muito tempo que tem, 10 anos e até 20 anos. O que significa isto? Que essas casas ou centros estão praticamente cedidos as pessoas, mas estas pessoas devem prestar conta, como o pagamento de luz, água e, em alguns casos, o pagamento de um "simbólico" aluguel. O Estado disse praticamente: "podem permanecer no lugar", mas "tem que pagar serviços...” Então muitas pessoas fazem o "serviço social" nestes centros sociais e, em muitos casos, o Estado coloca pessoas para que trabalhem ali vigiando os trabalhos etc. Isto realmente penso eu, retira a autonomia do centro, já que tem o "inimigo dentro da sua própria casa", e sobre isso já tivemos muitas discussões. Já vi algumas pessoas que fazem o "serviço social", ficam na casa os meses que dura o “serviço social” e então desaparecem sem deixar rastro.


ANA - Como é o panorama editorial na Alemanha, muitas publicações, livros... Há alguma publicação tão boa como “El Libertário”? (risos)

Johnny - (risos) Aqui vi milhares de publicações de todos os calibres, livros, zines, caderninhos etc. Acredito que isso se deva à grande quantidade de recursos que dispõem. Existe um periódico anarco-sindicalista chamado "Direkte Aktion" que é bem interessante. A questão é que aqui cada Centro Social tem a sua publicação, mensal ou bimensal, para informar sobre as atividades do mês do "centro" especifico, e, portanto, ali escrevem artigos etc. As publicações realmente são diversas. Há uma publicação do leste, por exemplo, que se chama "Abolish the borders from Below" que traz muita informação das movimentações ácratas do leste da Europa. Para a conexão é muito interessante.


ANA - Apesar do pouco tempo morando na Alemanha, você destacaria alguma experiência anarquista daí, que chamou a sua atenção?

Johnny - Sim, os centros sociais e muitos squats estão muito bem organizados, com estruturas completamente horizontais, e isto é completamente ácrata. O formato de que todos ajudam e colaboram nestas "casas" é exemplar, já que se faz tudo pelo bem comum, que nesse caso é a "casa ocupada". Outras iniciativas são, por exemplo, o "Foods Not Bombs” que funciona constantemente por estes lados, tendo núcleos em diferentes cidades. Apesar de que não seja uma organização completamente anarquista, já que seus membros são muito diversos, mas muitos de seus núcleos funcionam também de maneira ácrata. Outras experiências que me chamaram a atenção foram as iniciativas que existem de ajuda a "Chiapas" e as comunidades indígenas do México. Existem coletivos que trabalham constantemente dando informativos, palestras e fóruns sobre a situação em "Chiapas", e o por quê disso.


ANA - Um tempo atrás existia em algumas pequenas cidades alemãs uma experiência chamada “Projeto A”, que era uma espécie de comunidades ecológicas autogestionárias. Um dos mentores desse projeto se chama Horst Stowasser, inclusive existe um livro sobre o “Projeto A”. Você sabe dizer se essa experiência continua viva?

Johnny - Oh, Moésio, desculpa, realmente não tenho conhecimento desse projeto, não sei se existe ainda, posso averiguar...


ANA - Dias atrás eu li um artigo de um companheiro cenetista da Espanha que está morando em Berlim e atuando na FAU, sobre o último Primeiro de Maio nessa cidade. E no texto ele dizia que na Alemanha à distância entre ricos e pobres é cada vez maior, que a situação da classe operária também vai piorando dia-a-dia, muito trabalho precário, contratos de lixo... Enfim, aquelas histórias ultraliberais que a gente conhece bem aqui na América Latina. Mas o que achei curioso no texto, para não falar outra coisa, é que no Primeiro de Maio, os sindicatos amarelos e partidos marxistas, leninistas, ATTAC, verdes etc. da Alemanha não permitiram, inclusive com apoio da polícia, da FAU e coletivos autônomos e anarquistas (bloco vermelho e negro), de participarem das suas manifestações. Em Hamburgo, o bloco vermelho e negro, com mais de 4.000 pessoas, também foi proibido de marchar junto com os demais sindicatos. Você ficou sabendo disso?

Johnny - Bom, falando um pouco da distância entre ricos e pobres, por aqui não acredito que a distância seja tão grande. Ao menos aqui as pessoas têm garantido uma série de necessidades básicas, coisa que na América Latina é muitíssimo mais difícil de se ter. Isto é, à distância entre ricos e pobres nunca será parecida as que existem nos países do terceiro mundo. Não vou te negar que com a "Agenda 2010" (Agenda de novas medidas econômicas na Alemanha) é muito possível que a distância cresça um pouco, já que muitos benefícios serão reduzidos e outros eliminados do plano social.

Com respeito às marcha do Primeiro de Maio, não permitem a participação dos anarquistas junto a eles nessas marchas, pelo que vejo, é por temor a desordens e distúrbios semelhantes ao "black-block" e tudo isso que conhecemos. Também pelo tipo de discurso, já que realmente é vergonhoso marchar ao lado de pessoas que têm participação no parlamento da Alemanha, como o caso "dos verdes" ou "dos sociais-cristãos”, por exemplo. Então imaginas a repulsa destes, e , portanto, para serem poupados de tudo isto, proíbem-nos. Isto ocorre na Alemanha, mas em outros países não é assim, na Suécia, por exemplo, eu pude verificar que a marcha do Primeiro de Maio é da esquerda em geral.

Ainda sobre a negativa de marchar, também, acredito que é muito possível que venha da ruptura da esquerda daqui ultimamente. Atualmente aqui na Alemanha a esquerda está muito dividida, depois dos acontecimentos do 11 de setembro, já que muitos da esquerda odeiam a política dos EUA pelo o que aconteceu logo depois desse dia, enquanto outros os defendem e ainda argumentam (?).

Veja, isto para mim é algo muito louco, sinceramente. Estas pessoas que defendem os EUA se autodenominam "anti-deutsch" (anti-alemanha), e sou sincero com você, tem uma participação bastante considerável na esquerda alemã, isto é, são bastante numerosos. Nós (os latino-americanos afins ao anarquismo) já temos tido e temos muitas brigas e discussões com estes grupos "anti-deutsch", já que tem uma série de argumentos que para mim são realmente inválidos, pois a América Latina - em nosso caso - foi explorada pelos governos norte-americanos desde que temos conhecimento. Assim mesmo pelas agências "multilaterais" que garantem os governos imperialistas. Acredito que para nós é algo lógico, estamos contra qualquer Estado, e os EUA são dos Estados que mais estragos nos faz.

continuará...


agência de notícias anarquistas-ana

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