"Elogio à loucura", um clássico. Erasmus von Rotterdam escreveu-o.
Só que não dá prá ler. Isto é, ler até que é fácil, o difícil é entender o que está escrito!
Cheio de alegorias e referências indiretas aos gregos, suas filosofias e mitologia. Incompreensível para mortais comuns. Só quem está muito "por dentro" desses assuntos, chega perto do que ele pretendia transmitir.
Fico assim a comentar, apenas o título.
Na ocasião, o espírito renascentista era moda. Todos respiravam Grécia.
Na verdade ainda é, nos tempos atuais. Pois, tudo que vivemos atualmente, principalmente a ciência e tecnologia provém deles. Iluminaram a Idade das Trevas com o seu conhecimento. O pensamento científico. E o mundo ocidental renasceu da escuridão.
Aprendemos isso já nos primeiros anos de escola. Teoremas, álgebra, geometria etc. Sempre o raciocínio e o pensamento científico. Confirmados na prática, no cotidiano. Funcionam de verdade!
E assim, evoluímos com espantosa rapidez. Superamos todas as outras culturas. Por ser este o espírito dominante, o científico, o inquisidor, o investigativo. Deixamos de acreditar nos deuses e seus poderes, libertamo-nos deles. E, principalmente, dos seus erros.
Mas muitas coisas ficaram para trás.
Não nos livramos dos impulsos básicos, que nos tornam exatamente iguais aos demais seres vivos. Somos bichos, nada mais que isso. E nunca seremos diferentes.
Tornamo-nos protozoários poderosos. E fazemos mau uso disso.
Somos simultaneamente deuses e amebas. Como na mitologia grega, dotados de superpoderes e também, de irresistíveis fraquezas.
Reforçamos nossos defeitos pela força do poder. Ficamos poderosamente destrutivos. E fazemos mau uso disso.
Na verdade, perdemos o direito de agir instintivamente, de seguir os impulsos ditados por nossa longínqua ancestralidade. Teríamos que atuar como seres racionais, exclusivamente. Não podemos mais dar vazão ao bicho que realmente somos. Perdemos esse direito.
Deveríamos ser deuses, sem fraquezas. Para deixar de destruir o mundo, como estamos fazendo.
Adquirimos muitos direitos. Mas perdemos o direito à irracionalidade. Pois ficamos fortes demais, destrutivos demais.
Só que, é claro, não conseguimos fazer isso. O bicho em nós fala mais alto.
Quando estivermos com fome, iremos procurar o que comer e comeríamos até a melhor, a mais rara e valiosa obra filsófica, científica, cultural ou artística, se comestível fosse. Meu reino por um prato de lentilhas, é o que faríamos. Ou mataríamos, pais e prole, não interessa, para saciar nossa fome.
O egoísmo em nós, fala mais alto. E usamos o poder a tecnologia, o raciocínio, para reforçar este instinto que, para nós humanos todo poderosos, passou a ser um defeito.
Toda a nossa orientação é neste sentido. Ser egoísta. Obter riquezas, conhecimentos, poder, propriedades, tudo voltado apenas para satisfazer o egoísmo que nos é natural. Não consideramos o egoísmo uma virtude, mas não deixamos, um segundo sequer, de trabalhar para ele.
Todas as ferramentas dos conhecimentos estão a seu serviço. E ninguém contesta.
Quem pensar diferentemente é considerado louco. Não é possível viver a loucura de não ser egoísta. Mesmo quando isso não prejudica ninguém ou a natureza, é proibido.
Mas porque não?
Porque temos que agir sempre dentro de uma "racionalidade", que nos manda ser egoístas ao extremo, e com isso até, comprometer a própria vida na Terra?
Existe gente porém, que não é assim.
Os que são considerados clinicamente loucos, por exemplo. São julgados como tal, pelos que são saudáveis. Por aqueles que apresentam um saudável e racional egoísmo! Os critérios utilizados são escusos e nebulosos. Para excluir da sociedade, os doidos varridos. Os que pensam e atuam diferentemente do "normal".
Alguns são considerados perigosos, outros incapazes. Não sobrevivem por si próprios. Porque a sociedade não foi feita para eles. Em sua estrutura não existe espaço que os abrigue, a não ser o manicômio. São párias e apátridas. São um estorvo, pois tem que ser sustentados. Desprezíveis e dignos de pena.
Mas porque tem que ser assim?
Não seriam mais loucos os "saudáveis", com seus pensamentos voltados para a destruição de tudo que existe, quase que exclusivamente? Urãnio empobrecido, torturas, armas biológicas. Isso não é loucura maior?
Existem também os loucos, que fazem isso (ser louco), voluntariamente.
Pouquíssima gente é assim. Não os que foram compelidos a isso, pelas esmagadoras engrenagens da sociedade, pela exclusão compulsória ou por vícios que não conseguem controlar, mas sim aqueles que fazem isso espontaneamente.
Decidem-se pela loucura. Pelo ser diferente. Simplesmente discordam da normalidade.
Alguns andarilhos, moradores de rua, eremitas e excêntricos, com ou sem dinheiro, estudados ou não, fazem isso. Até os "iluminados", fundadores de filosofias, religiões e crenças atuam assim.
Jogam às traças o "sistema", escolhem ou não uma doutrina, e vivem sua vida. A que eles querem.
Segregados dos demais. Incompreendidos, por não submeterem-se às regras, não seguirem a rotina, o procedimento normal, do ser humano em sociedade. Têm por vezes ótimas idéias e pensamentos. Às vezes agrupam-se. Formam sociedade à parte.
São considerados loucos. No mínimo um atrapalho. Perniciosos com suas idéias. Muitas vezes a serem trancafiados. Em cadeia ou manicômio.
Entretanto, o que desejam é viver a seu modo. Apenas isso.
E porque não podem?
O primeiro argumento é que deveriam sobreviver, sem ser um encargo para a sociedade. Deveriam ser um elo produtivo dela. Deveriam até, de preferência, produzir mais do que o necessário para seu sustento e assim colaborar para o engrandecimento da humanidade (na verdade, o enriquecimento de poucos).
O segundo é que poderiam ser um mau exemplo. Suas idéias poderiam ser contagiosas, e perigosas!
E assim, estão errados. São loucos.
Estes argumentos entretanto, não convencem pois, muita gente vive parasitariamente e ninguém reclama. E também, estamos longe de ter uma idéia social aceitável e maravilhosa, que poderia ser piorada, por algum pensamento estranho.
Por que então, não ser diferente?
Se fossemos apenas bichos estaríamos sujeitos às leis naturais e não haveria muita escolha. Teríamos que sobreviver, seguir o "sistema" ditado pela natureza, para não perecer. As regras teriam que ser seguidas.
Mas, nós humanos, dominamos a natureza e suas forças. Ferramentas facilitam nosso trabalho. Máquina fazem força por nós, robôs o trabalho repetitivo, computadores o mental e quase também o trabalho criativo. Adquirimos liberdade com isso, não restrições, nem agruras.
Porque então não podemos simplesmente viver a nossa loucura, a que decidimos viver, voluntariamente?
Quanta gente não gostaria de fazer isso. E simplesmente não pode!
Não seria o direito à loucura, a verdadeira liberdade do ser humano?
Os que resolvem ser diferentes, não importa o motivo, contestam a validade da "normalidade" que vivemos. E com razões de sobra para isso. Mas seus argumentos são ignorados.
Espera-se que as crianças estudem, que aprendam a conduta social. Mesmo que não seja, o que elas desejam. São forçadas a isso. Se não fizerem são criticadas, punidas e marginalizadas. Espera-se que todos aprendam as regras que lhes permitam, em luta ferrenha, competir com os outros, não só pela sobrevivência, mas, muito mais que isso, pelo status, pelo ser "bem sucedido". Espera-se que as pessoas seja confiáveis, que executem aquilo que lhes foi atribuído, com fidelidade. Espera-se que cumpram o que prometeram, mesmo quando as coisas dão errado e isso os prejudique. Não existe a opção de voltar atrás, sem punição.
São forçados a tudo isso. Se não o fizerem serão excluídos, impiedosamente. Para eles não existe espaço na sociedade. E sofrerão amargamente.
Temos que ser submissos às leis, à ordem atual vigente e à moralidade. Regras universais, que mudam constantemente, ao sabor de interesses escusos. Não são aplicadas uniformemente, não valem para todos igualmente. Distorcidas sempre, nada mais que ferramentas nas mão dos mais fortes, para submeter os mais fracos.
Os que resolvem não obedecer, são excluídos. Não importa a validade ou inteligência de seus argumentos ou o quanto sejam capazes. E, em casos extremos, são trancafiados, em cadeia ou manicômio.
Somos manietados, obrigados a seguir uma ordem social, que nada tem de bom, justa ou sábia.
Não temos a liberdade de ser diferente, de cometer loucuras pois, obrigatoriamente, temos que ser egoístas.
Entretanto a loucura, o fazer atos ilógicos e irracionais, faz parte de nós, assim como o egoísmo.
Por que não permitir que sejamos loucos, assim como nos é incentivado a ser egoístas?
