Construindo pontes enquanto se derrubam muros.

Como portador de HIV desde 1996, tive de reformular todos os meus valores, meu modo de ver a vida e as pessoas.

Para mim, tudo é imensamente urgente e arrebatador. Meu tempo se dilata e se contrai numa urgência inapelável.

Assim, depois do impacto inicial que o resultado positivo teve em manha vida, quando perdi emprego, amigos, casa e fui parar, literalmente, na sarjeta, comecei uma longa jornada de reconstrução de vida. Hoje, para mim, tudo é diferente.

Meus planos de mera sobrevivência se transformaram num projeto de reformulação das relações trabalhistas em que “empregador versus soropositivo” a corda sempre arrebenta do lado de cá. Não Dora assim e não teríamos, segundo informa o Ministério da Saúde, 95% da população portadora de HIV (os casos notificados são pouco mais de cem mil) desempregados.

A maioria das pessoas que vive com HIV precisa viver hipocritamente, escondendo uma doença como quem esconde um crime.

Isso decorre de um processo de construção social equivocado, baseado nas “verdades científicas” de vinte anos atrás, quando por não se saber ao certo o que causava a AIDS, aformou-se levianamente que era uma doença decorrente de “comportamentos anômalos” (como se demarcadores biológicos como pênis e vagina pudessem determinar o que é normal), de gente que vivia em “promiscuidade.

Disso decorreu o mito que trouxe o estigma; a marca.

Os portadores de HIV acabaram divididos, pelo coletivo, em dois grupos:

As vítimas inocentes (Hemofílicos que contraíram a doença de derivados de sangue não controlado, crianças que contraiam o vírus durante o parto e a amamentação e pessoas que recebiam transfusões de sangue contaminado)

E os tresloucados que transavam com qualquer um. Bichas, prostitutas e usuários de drogas injetáveis eram os culpados, estavam sendo “punidos por Deus”.

Este mito nunca se desfez. Ainda hoje há quem tema beber água no mesmo copo em que eu bebi e, por incrível que pareça, já vi pessoas limparem a mão na calça depois de me cumprimentar.
Isso em plena era da informação.

Outro dia, numa discussão um pouco maias acirrada que tive por e-mail, acabei sendo obrigado a ler que eu bem que "merecia" a minha doença...

Isso decorre do fato de eu ter ousado saltar o muro que separa os soropositivos(as) dos sononegativos(as) e soro-interrogativos(as).

São dois mundos diferentes e eu ousei pular este muro e circular como bem entender, nos dois mundos.

Isso me traz um grande volume de responsabilidades e problemas, não posso dar um passo em falso ou ponho tudo o que conquistei a perder.

E conquistei tão pouco...

Tudo o que eu tenho é um projeto de ONG e um site com pouco mais de 500 páginas em www.soropositivo.org e uma lista de discussões onde circulam cerca de 30 ou 40 mensagens por dia. Isso me trouxe o apoio da Ashoka Empreendedores Sociais ( http://www.ashoka.org.br ) e é graças a este apoio que eu ainda sub-existo como cidadão, enquanto me dedico a uma batalha árdua que é reintegrar os portadors de HIV e doentes de AIDS no mercado de trabalho.

São pouco mais de cem mil casos notificados. Mas o Ministério da Saúde estima que o numero total de pessoas contaminadas esteja se aproximando rapidamente de setecentas mil pessoas.

A maioria delas entre 15 e 45 anos, período em que o indivíduo é mais produtivo e está no ápice do ciclo reprodutovo. Se imaginarmos que cada uma das seiscentas mil pessoas que portam o vírus e não sabem, e não encontram motivos para praticar sexo seguro, se relacionem com duas pessoas por ano, teremos, em mais um anos, um total de um milhão e oitocentas mil pessoas contaminadas.

Deus me livre de fazer a conta do ano seguinte.

Mas eu vou quebrando uma pedra aqui, um pilar ali e, cedo ou tarde, farei passar uma ponte por cima deste muro.

Tenho um projeto: Vida Positiva, que abrange um grande trabalho a ser feito nestes dez anos que ainda me restam de vida produtiva (espero poder viver mais dez anos).

Dentro de alguns dias apresentarei um Sumário executivo do projeto.
Por hoje, simplesmete me apresentei
Cláudio Santos de Souza