dias atrás o EZLN divulgou quatro comunicados sobre a guerra cujas traduções você vai encontrar após esta mensagem. Entre as atividades que eles sugerem, está a assinatura de um manifesto cujo texto e endereço eletrônico para ir direto à página da subscrição foram colocados após o material traduzido.
Boa leitura, e que a voz não se canse de repetir o nosso NÃO à guerra.
Grande abraço.
Ezequiel.
Atenção:
Se você conhece pessoas ou entidades interessadas em receber gratuitamente o material traduzido é só pedir para enviarem uma mensagem a
ezequielrn@osite.com.br ou encaminhe a elas este mesmo e-mail. Devido a problemas com hakers, não abra nenhum documento que se apresente como anexo a esta mensagem.
Encomendas do livro "Chiapas: as comunidades zapatistas reescrevem a história", com Robson, Fone/fax: (0xx21) 25.44.55.52 E-mail:
letralivre@gbl.com.br _______________________________________________________________
Site Ya Basta:
http://www.ezln.org/ Site da Marcha à Cidade do México:
http://ezlnaldf.org/ Site FZLN:
http://www.fzln.org.mx Site Arquivo EZLN-BR:
http://www.chiapas.hpg.com.br Site La Jornada:
http://www.jornada.unam.mx/ ________________________________________________________________
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.
MÉXICO.
Outra geografia.
I. A torre de Babel: entre a maquiagem e o closet.
Século XXI. O novo século repete lá em cima a vocação de seu predecessor: as propostas políticas se fundamentam na dominação ou na exclusão do outro. O que há de novo? Como antes, hoje se recorre à guerra, à mentira, à farsa, à morte. O poder repete a história e trata de nos convencer de que, agora sim, vai preencher as páginas com uma letra boa.
O projeto de mundo do neoliberalismo nada mais é a não ser uma reedição da torre de Babel. De acordo com o relato do Gênesis, os homens, empenhados em chegar às alturas, concordam quanto a um projeto fora do comum: construir uma torre alta que alcance o céu. O deus dos cristãos castiga sua soberba com a diversidade. Falando línguas diferentes, os homens não podem levar adiante a construção e se dispersam.
O neoliberalismo tenta a mesma edificação, mas não para alcançar um céu improvável e sim para livrar-se de vez da diversidade, aquela que ele considera ser uma maldição, e para garantir ao poder que ele nunca deixe de sê-lo. O anseio de eternidade surge nos albores da história escrita com aqueles que são poder.
Mas a torre de Babel neoliberal não é empreendida só no sentido de conseguir a homogeneidade necessária para a construção. A igualdade que destrói a heterogeneidade é igualdade a um modelo. “Sejamos iguais a isso”, nos diz a nova religião do dinheiro. Os homens não se parecem a si mesmos, nem uns aos outros, e sim a um esquema que é imposto por quem hegemoniza, quem manda, quem está na parte de cima desta torre que é o mundo moderno. Lá em baixo estão todos os diferentes. E a única igualdade que existe nos andares inferiores é a de renunciar a ser diferente ou optar por sê-lo de forma envergonhada.
O novo deus do dinheiro repete a maldição das origens, só que às avessas: ou seja, condenando o diferente, o outro. No papel de inferno: a prisão e o cemitério. O boom dos lucros das grandes empresas transnacionais é acompanhado pela proliferação dos presídios e dos túmulos.
Na nova torre de Babel, a tarefa comum é um pacto com quem manda. E quem manda faz isso só porque supre a falta de razão com excesso de força. A ordem é para que todas as cores se maquiem e mostrem o brilho da cor do dinheiro, ou que vistam sua variedade de cores só na escuridão da vergonha. A maquiagem ou o closet. O mesmo vale para homossexuais, lésbicas, migrantes, muçulmanos, indígenas, pessoas “de cor”, homens, mulheres, jovens, anciãos, inválidos e todos os nomes que os outros assumem em qualquer lugar do mundo.
Este é o projeto da globalização: fazer do planeta uma nova torre de Babel. Em todos os sentidos. Homogênea em sua forma de pensar, em sua cultura, em seu patrono. Hegemonizada não por quem tem a razão, mas sim a força.
Se na torre de Babel da pré-história da humanidade era possível pela palavra comum (o mesmo idioma), na história neoliberal o consenso se obtém pelo argumento da força, das ameaças, das arbitrariedades, da guerra.
Como viver no mundo é fazer isso em proximidade com o diferente, as opções que temos são entre ser dominante ou dominado. Para o primeiro a quota está preenchida e a sucessão é hereditária. Ao contrário, para ser dominado há sempre lugares livres e o único requisito é renegar a diferença ou escondê-la.
Mas há diferentes que se negam a deixar de sê-lo. Para aqueles que vivem na torre e não estão na parte mais alta, existem formas de enfrentar os que “não se adaptam”: a condenação ou a indiferença, o cinismo ou a hipocrisia. Nas leis da torre neoliberal, a possibilidade de reconhecer a diferença é punida. O único caminho permitido é a submissão desta diferença.
Na época moderna, o Estado nacional é um castelo de cartas diante do vento neoliberal. As classes políticas neoliberais brincam de serem soberanas na forma e na altura da construção, mas já faz tempo que o poder econômico deixou de estar interessado nesta brincadeira e deixa que os políticos locais e seus seguidores se divirtam... com um baralho que não lhes pertence. Afinal, a construção que interessa é a da nova torre de Babel, e enquanto não faltam matérias-primas para sua construção (ou seja, territórios destruídos e repovoados com a morte), os capatazes e os representantes das políticas nacionais podem continuar com o espetáculo (com certeza, o mais caro do mundo e o de menor participação).
Na nova torre, a arquitetura é a guerra ao diferente, as pedras são os nossos ossos e a argamassa é o nosso sangue. O grande assassino se esconde atrás do grande arquiteto (que se não se autodenomina “Deus” é por não querer pecar por falsa modéstia).
No relato bíblico, o deus cristão castiga a soberba dos homens com a diversidade. Na moderna história do poder, deus nada mais é a não ser o agente de relações públicas da guerra (que só pode se chamar moderna pelo número de mortes e a quota de destruição que cobra a cada minuto).
II. A geografia das palavras.
Se a pré-história terminou há três anos ou há 20 séculos não parece ter muita importância. Lá em cima, aqueles que são poder e destino se empenham em nos convencer que a história se repete, apesar do que dizem os calendários. A aniquilação do diferente é uma moda sempre atualizada. E, ainda que na essência, não há nada diferente entre as catapultas do império romano e as “bombas inteligentes” de Bush, agora o avanço tecnológico funciona como o novo capelão das tropas de ocupação (pinta de bondade o que não deixa de ser um crime à distância) e o cenógrafo do espetáculo (os bombardeios pela televisão se transformam em “fascinantes” entretenimentos pirotécnicos – CNN dixit).
Sem se importar se nos damos conta ou não, o poder constrói e impõe uma nova geografia das palavras. Os nomes são os mesmos, mas muda o que é nomeado.
Assim, o erro é doutrina política e o acerto é heresia. O diferente é agora o contrário, o outro é o inimigo. A democracia é a unanimidade na obediência. A liberdade é só a liberdade de escolher a forma de esconder nossa diferença. A paz é a submissão passiva. E a guerra é agora um método pedagógico para ensinar geografia.
Onde faltam razões, sobram dogmas. Antes o dogma dá respaldo à causa, depois a deforma e a transforma em destino. No binóculo do poder, o horizonte é sempre o mesmo, imutável e eterno. A lente do poder é um espelho. O diferente será sempre inesperado e ao inesperado se oporá sempre o medo. E o medo se fortalecerá no dogma para esmagar o inesperado. Nos binóculos do poder, o mundo é plano, descarado e sujo.
Se um estadista não pode ser lembrado por sua obra humanitária, então que seja lembrado por sua ação criminosa. E assim, a história do poder se repete: os “próceres” de ontem hoje vestem todas as baixezas e rancores. Os “iluminados de Deus” de hoje, serão os hereges de amanhã.
As palavras mudam e também as imagens. Antes, na geografia das estátuas, o dogma se tornava pedra para honrar seus fanáticos. Hoje é nas capas das revistas, jornais e noticiários televisivos e radiofônicos que o dogma guarda a memória dele mesmo nas hemerotecas, e garante que vai servir de desculpa para os que darão continuidade aos pesadelos fundamentalistas.
Na moderna teoria do estado, os seres humanos nascem diferentes. Sua incorporação na sociedade consiste num processo de educação que daria inveja ao mais cruel dos reformatórios. O esforço de todo o aparelho do Estado se dirige para “igualar” este ser humano, ou seja, para hegemonizá-lo sob uma hegemonia: a de quem manda. O grau de sucesso social, então, se mede de acordo com o aproximar-se ou afastar-se de um modelo. A homogeneidade não é fazer com que todos sejamos iguais, mas sim com que todos tratemos de ser iguais a este modelo. E o modelo é aquele que é construído por quem é poder. A hegemonia não está só no fato de que alguém manda, e sim, além disso, que todos nos esforcemos para obedecer.
Aí está a homogeneidade, não temos todos as mesmas riquezas (e nem falar do fato de que poucos as possuem as custas de muitos outros), nem as mesmas oportunidades, mas temos sim o mesmo dono e a mesma vontade de obedecer a ele (que é outra forma de dizer “servi-lo”).
Quando se faz uma comparação da sociedade com a família e se diz que deve haver regras para a convivência, se “esquece” que o problema são estas determinadas regras. Aí, as palavras mudam sua geografia, já não dizem o que dizem, mas sim o que eles querem, eles que são poder, que digam.
Em algum momento da história moderna a legalidade supre a legitimidade e quando a legalidade é quebrada pelos de cima se devem adequar as leis. Quando é quebrada pelos de baixo, as leis devem ser aplicadas... para castigar seu descumprimento.
III. A geografia do poder.
Na geografia do poder, uma pessoa não nasce em algum lugar do mundo, mas sim com possibilidades ou não de dominar uma parte qualquer do planeta. Se antes o argumento de superioridade era pertencer a uma raça, agora é a geografia. Os que moram no norte não fazem isso no norte geográfico, mas sim no norte social, ou seja, estão em cima. Os que vivem no sul estão em baixo. A geografia tem se simplificado: há um em cima e um em baixo. O lugar em cima é estreito e cabem uns poucos. O de baixo é tão amplo que abrange qualquer lugar do planeta e tem lugar para toda a humanidade.
Na moderna torre de Babel, uma sociedade se diz superior quando conquista outra, não quando tem mais avanços científicos, culturais, artísticos, melhores condições de vida, melhor convivência.
Na época moderna, o poder trava múltiplas guerras de conquista. E não me refiro a “múltiplas” no sentido de “muitas”, mas sim no sentido de “em muitas partes e de muitas formas”. Assim, hoje, as guerras mundiais são mais mundiais do que nunca. Pois se o vencedor continua sendo um, os vencidos são muitos e por toda parte.
Declaram seu poder sobre os espaços com o argumento das bombas: aqueles que as jogam estão no norte, na parte “de cima” da torre; aqueles que as recebem estão em baixo, no sul.
Mas não são as bombas a alterarem a geografia. As bombas mudam a distribuição da geografia, seu domínio. Desta forma, nestes espaços limitados por pontos e linhas divisórias, agora domina um, amanhã domina outro. É o que se chama de “geopolítica”. Na realidade, os mapas geográficos não assinalam riquezas naturais, pessoas, culturas, histórias, mas sim aquele ou aqueles que não são donos deles.
Para o poderoso, a humanidade inteira é uma criança que pode ser dócil ou rebelde. As bombas lembram ao infante humano a conveniência de ser um e a inconveniência de ser outro.
Hoje, os civis do Iraque, homens, crianças, mulheres e anciãos, vão ter logo algo em comum com o próspero empresariado norte-americano. Este fabrica os mísseis cruise, aqueles os recebem. Os exércitos de Estados Unidos e Grã Bretanha são só os adoráveis carteiros que unem dois pontos geograficamente tão distantes. De tal forma que o que devemos agradecer a pessoas como Bush, Blair e Aznar é que tenham tido o trabalho de nascer em nossa época. Sem pessoas como eles, a geografia moderna seria inconcebível.
Mas esta guerra não é contra o Iraque, ou não só contra o Iraque. É contra toda tentativa, presente ou futura, de desobedecer. É uma guerra contra a rebeldia, ou seja, contra a humanidade. É uma guerra mundial em seus efeitos e, sobretudo, no NÃO que eles provocam.
IV. O destino de Polifemo.
A guerra do eixo tragicômico Bush-Blair-Aznar e de seus tramoeiros nas “democracias” ocidentais, já teve seu primeiro fracasso. Tentou nos convencer de que o Iraque está no Oriente Médio, e não conseguiu. Como diz qualquer livro de geografia que se respeite, o Iraque está na Europa, na União Americana, na Oceania, na América Latina, nas montanhas do sudeste mexicano, e neste “NÃO” mundial e rebelde que pinta um novo mapa onde a dignidade e a vergonha na cara são casa e bandeira.
Entre outras coisas, as mobilizações em todo o planeta comprovam que esta é uma guerra contra a humanidade.
Quem entendeu bem que o Iraque está hoje em qualquer lugar do planeta são os jovens. Quando outros olham para um mapa e se consolam medindo os milhares de quilômetros que separam Bagdá de seus próprios lugares, os jovens têm compreendido que estas bombas (as que explodem e as da desinformação) não querem destruir só o território iraquiano, mas o direito de ser diferente.
E quando um jovem pinta um “NÃO” num cartaz, numa parede, num caderno, numa voz, não está só dizendo “não à guerra no Iraque”, está dizendo também “não à nova torre de Babel”, “não à homogeneidade”, “não à hegemonia”. Porque os jovens rebeldes usam o “NÃO” como pincel, e com ele na mão e no olhar pintam e adivinham outra geografia.
Como o ciclope da literatura grega, Polifemo, o poder faz do ódio ao diferente o seu único olho. Na verdade, ele é muito forte e parece invencível. Mas, também como a Polifemo, um fantasma chamado “Ninguém” lança um desafio ao poder.
Porque quando o poderoso se refere aos outros, chama-os com desprezo de “ninguém”. E “ninguém” é a maioria deste planeta. Se o dinheiro quer reconstruir o mundo como uma torre que satisfaça sua soberba, o “ninguém” que faz girar a roda da história também quer outro mundo, um que seja redondo, que inclua todas as diferenças com dignidade, ou seja, com respeito. Não é ao céu que a humanidade aspira, mas sim a terra.
E assim, “ninguém” vai corroendo os cimentos da nova torre de Babel.
Porque a terra é redonda para que gire.
No mundo que está por fazer-se, à diferença deste e dos anteriores, cuja construção se atribui a vários deuses, quando alguém perguntar “quem fez este mundo?”, a resposta será: “ninguém”.
E para adivinhar este mundo e começar a construí-lo é necessário enxergar muito longe na geografia do tempo. Quem está em cima tem o olhar curto e se equivoca quando confunde o espelho com o binóculo. Quem está em baixo, “ninguém”, não fica sequer na ponta dos pés para adivinhar o que vem.
Porque o binóculo do rebelde não serve nem para enxergar alguns passos adiante. Nada mais é a não ser um caleidoscópio onde figuras e cores, cúmplices umas das outras com a luz, não são ferramentas de profeta, mas sim uma intuição: o mundo, a história, a vida terão formas e maneiras que ainda não conhecemos, mas desejamos. Com seu caleidoscópio, o rebelde enxerga mais longe do poderoso com seu binóculo digital: vê o amanhã.
Os rebeldes caminham sim durante a noite da história, mas para chegar ao amanhã. As sombras não os inibem para fazer algo agora, no aqui de sua geografia.
Os rebeldes não tratam de emendar a tela ou reescrever a história para que mudem as palavras e a divisão da geografia, simplesmente procuram um novo mapa para que haja espaço para todas as palavras.
Um mapa onde as diferenças entre as maneiras de dizer “vida” não estejam nas bocas de quem as diz, mas sim na totalidade com a qual se pronunciam.
Porque a música não é composta de uma única nota, mas sim por muitas, e o baile não é só um passo repetido até o tédio.
Assim, a paz não será outra coisa a não ser um concerto aberto de palavras e muitos olhares em outra geografia...
Do Iraque das montanhas do sudeste mexicano, e vendo o céu escurecer com os
aviões e helicópteros da Operação Sentinela,
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, março de 2003.
_________________________
Este comunicado foi divulgado pelo La Jornada em 03 de abril de 2003.
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.
MÉXICO.
Abril de 2003
Aos promotores do manifesto Trabalhamos pela Paz e a Justiça
http://www.zmag.org Espaço Cibernético. De: CCRI-CG do EZLN, Montanhas do Sudeste Mexicano.
Em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional do México, solicito-lhes que anexem a minha assinatura ao manifesto Trabalhamos pela Paz e a Justiça, no entendimento de que nela estão as assinaturas de todos os membros do CCRI-CG do EZLN.
Informamos também que tomamos a liberdade de fazer um comunicado convidando a sociedade civil do México e do mundo a promoverem o conhecimento, a discussão, o enriquecimento e a assinatura do manifesto. Esperamos que não o levem a mal, mas se acharem que a nossa iniciativa pode pôr a perder o objetivo que anima a declaração, basta que nos façam saber para que nos coloquemos respeitosamente de lado.
Seja como for, dizemos a vocês que saudamos sua iniciativa e nos deixa orgulhosos saber que há intelectuais que se dirigem às pessoas de baixo e não se deixam seduzir pelo olho daltônico do ciclope do poder.
O direito à rebeldia, a desafiar quem nos oprime com várias desculpas (sempre o deus do Poder e do Dinheiro com máscaras diferentes), é universal. Dizer NÃO à indiferença que anda de mãos dadas com a atual guerra no Iraque é um dever e também é universal.
Valeu. Saúde e que o mundo que virá tenha como assinatura definidora a de ninguém.
Das montanhas do sudeste mexicano.
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional
Subcomandante Insurgente Marcos
México, abril de 2003.
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.
MÉXICO.
Abril de 2003.
Para: Adolfo Gilly
De: SupMarcos
Como você verá no comunicado e na carta anexos, decidimos assinar a declaração Trabalhamos pela Paz e a Justiça. A assinatura explícita de todo o CCRI-CG do EZLN não é possível por óbvias razões de tempo e distância, mas na minha estão as de todos eles e elas.
Pensamos que o documento tem boa origem, ou seja, não nasceu do cálculo mesquinho e estúpido de uma classe política como a mexicana, que os períodos eleitorais tornam sensível á guerra em outros lugares (que o Senado mexicano convoque uma marcha de protesto é ridículo; seus integrantes votaram a favor de uma guerra local contra os povos indígenas), mas sim de pessoas pensantes e sinceramente preocupadas com o que acontece e com o que acontecerá.
Mesmo tendo visto algumas lacunas no texto, decidimos assiná-lo incondicionalmente porque pensamos que seu enriquecimento deve ser produto da reflexão de pessoas comuns, de cidadãos do mundo todo (que, se não nos equivocamos, é o espírito que anima o manifesto).
Ainda assim, achamos conveniente fazer-lhes notar que na declaração não se faz uma clara distinção entre o governo norte-americano e o povo dos Estados Unidos da América. Levando em consideração que muitas pessoas têm se mobilizado na União Americana e têm promovido ações de desobediência civil diante desta guerra, parece-me que não seria demais uma diferenciação neste sentido. Os pronunciamentos públicos de acadêmicos, intelectuais, artistas, religiosos, trabalhadores dos meios de comunicação alternativos, estudantes e cidadãos norte-americanos contra a guerra, ainda que na contramão da manipulação a favor da guerra das grandes corporações da comunicação, nos fazem ver claramente que esta é uma guerra do governo Bush, não do povo estadunidense. Parece-nos que o objetivo desta iniciativa é o de interpelar os povos, não os governos, de forma tal que devemos incluir também o povo norte-americano.
Por último, lhe comunico que já estamos enviando um correio eletrônico para
http://www.zmag.org para que a assinatura do EZLN seja incluída no documento. Valeu. Saúde e que o sentimento universal de indignação se vista de todas as cores, inclusive das que caminham ao norte do rio Bravo.
Das montanhas do sudeste mexicano.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, abril de 2003.
COMUNICADO DO COMITÊ CLANDESTINO REVOLUCIONÁRIO INDÍGENA – COMANDO GERAL DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.
MÉXICO.
Abril de 2003.
Ao povo do México.
Aos povos do Mundo.
Irmãos e irmãs:
Violando as leis internacionais, as da razão e da humanidade, os governos dos Estados Unidos e da Grã Bretanha, com o apoio de outros governos do mundo, têm invadido o território iraquiano. O ataque ao Iraque é só uma página do livrinho de terror que o poder do dinheiro tem preparado para todo o planeta.
Nestes momentos, a guerra faz vítimas diretas sobretudo entre os civis, homens, mulheres, crianças e anciãos. A destruição que as forças dos Estados Unidos e da Grã Bretanha levam adiante provocará mais morte e mais miséria entre o povo iraquiano.
No mundo inteiro, pessoas honestas têm se manifestado para mostrar seu repúdio a esta guerra. É digno de nota que têm sido sobretudo os jovens, as mulheres e as crianças a levantarem com maior firmeza seu NÃO à guerra.
Como nunca antes na história, esta guerra tem provocado um sentimento universal de reprovação, mesmo que ainda não tenha se refletido, em toda sua plenitude, nas mobilizações realizadas nos cinco continentes.
Como parte das ações de repúdio à guerra, dias atrás, um grupo de pessoas de vários países divulgou a declaração Trabalhamos pela Paz e a Justiça, documento que trata de definir uma posição clara e universal contra a guerra no Iraque. Entre as muitas virtudes do documento, está a de ir além da situação conjuntural provocada pelo atual conflito bélico, promovendo uma reflexão séria e intercontinental contra o neoliberalismo e os efeitos destrutivos da globalização, e propor uma dinâmica de divulgação e discussão a partir de baixo, com as pessoas, não com a classe política.
Os iniciadores da declaração têm dito que seu objetivo é impulsioná-la entre todas as pessoas que, no mundo inteiro, estão contra a guerra, incluídos os zapatistas.
Levando em consideração tudo isso, o EZLN diz a sua palavra:
Primeiro. O EZLN saúda esta iniciativa mundial e todas as mobilizações que têm sido realizadas para repudiar a morte e a destruição no Oriente Médio.
Segundo. De conseqüência, o EZLN subscreve a declaração Trabalhamos pela Paz e a Justiça, sem condição alguma. O CCRI-CG do EZLN compromete, na assinatura do seu porta-voz, a palavra de seus 77 comandantes e inicia agora sua divulgação entre os 2.222 povoados e comunidades zapatistas em todo o México.
Terceiro. O EZLN faz um apelo à sociedade civil mexicana e internacional, para que conheça, discuta, enriqueça e assine esta declaração. Convocamos sobretudo os jovens, as mulheres e as crianças a fazerem sua esta declaração e a promovê-la no mundo inteiro.
Quarto. O EZLN se dirige de maneira particular aos indivíduos, às organizações sociais e às não governamentais do México para que iniciem uma campanha nacional de divulgação do documento Trabalhamos pela Paz e a Justiça, promovendo sua discussão, enriquecimento e assinatura.
De maneira especial, o EZLN solicita à Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN) que, em unidade com as organizações sociais, grupos e indivíduos, independentes e críticos dos partidos políticos, instalem mesas de informação, discussão e coleta de assinaturas e formem brigadas que, com o mesmo objetivo, percorram unidades escolares, colônias, fábricas, comércios, povoados, ejidos, comunidades e qualquer lugar onde haja pessoas honestas e nobres, para convidá-las a unir-se ao repúdio à guerra. O EZLN propõe que em ditas mesas e brigadas se informe e discuta, não só sobre a atual guerra no Iraque, como também sobre as conseqüências funestas das políticas neoliberais e da globalização em nossos territórios, denunciando os cúmplices e agentes locais destas políticas de morte e destruição.
Quinto. O EZLN se dirige aos comitês de solidariedade com a luta zapatista na Europa, América Latina e no resto do mundo para solicitar, respeitosamente, que em seus países e de acordo com seus meios e criatividade, promovam o manifesto, seu conhecimento, discussão, enriquecimento e assinatura.
O EZLN faz um pedido especial e respeitoso aos povos norte-americano e britânico, a suas organizações e indivíduos, artistas, intelectuais e religiosos para que, seja assinando este documento como por outros meios, se afastem da loucura assassina de seus respectivos governos.
Sexto. O EZLN propõe que os diferentes órgãos a serem criados para coordenar esforços e realizar ações conjuntas, informem regularmente a opinião pública quanto às atividades a serem realizadas e ao número de assinaturas que vão acumulando, além de enviar isso ao correio eletrônico dos iniciadores do documento:
http://www.zmag.org Sétimo. O EZLN propõe que no dia 1º de Maio de 2003, dia internacional dos trabalhadores, se dê um informe mundial sobre o avanço desta iniciativa.
Irmãos e irmãs:
Não podemos permanecer calados diante do que está acontecendo agora. Enquanto os nossos governos fingem preocupar-se com a paz, enquanto os nossos governos lutam entre si pelo que sobrará de um país destruído, enquanto os nossos governos lamentam a guerra pelas possíveis quedas nos lucros das grandes empresas, enquanto nossos governos de afastam de uma definição pública e clara de condenação daqueles que levam adiante uma guerra contra a humanidade inteira, nós não podemos fazer do cinismo e da indiferença uma nova religião.
Para alguns, assinar um documento poderá parecer pouco, mas o que se propõe não é só a assinatura e sim a discussão e o enriquecimento. A subscrição da declaração não implica em abandonar a realização de outras mobilizações. Ao contrário, ela servirá para que mais gente participe, para que mais gente se faça ouvir e mais gente se envolva num movimento que é mundial como a guerra que o provoca. Para nós zapatistas não importa tanto o número de assinaturas, como a rebeldia e o desafio que as sustentam.
De todas as formas, por toda parte, em todos os lugares e com todas as cores, digamos: NÃO À GUERRA!
Democracia!
Liberdade!
Justiça!
Das montanhas do sudeste mexicano.
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional
Subcomandante Insurgente Marcos
México, abril de 2003.
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Os três últimos comunicados foram publicados no La Jornada em 05 de abril de 2003.
Manifesto “Eu defendo a paz e a justiça”
“Eu defendo a democracia e a autonomia. Eu não creio que os EUA ou qualquer outro país devam ignorar a vontade popular e violar e enfraquecer a lei internacional buscando abusar e comprar votos no Conselho de Segurança.
Eu defendo o internacionalismo. Eu me oponho a qualquer nação espalhar uma rede crescente de bases militares pelo mundo e produzir um arsenal sem paralelo no mundo.
Eu defendo a igualdade. Eu não creio que os EUA ou qualquer outro país devam construir um império. Eu não creio que os EUA devam controlar o petróleo do Oriente Médio em nome das empresas americanas e com o objetivo de controlar politicamente outros países.
Eu defendo a liberdade. Eu me oponho a regimes brutais no Iraque e em outros lugares, mas também me oponho à nova doutrina de "guerra preventiva" que garante um conflito permanente e muito perigoso e que é o motivo pelo qual os EUA são agora considerados a maior ameaça à paz em boa parte do mundo. Eu defendo uma política externa democrática que apóie a oposição popular ao imperialismo, à ditadura e ao fundamentalismo político em todas as suas formas.
Eu defendo a solidariedade. Eu defendo e junto-me aos pobres e aos excluídos. Apesar da desinformação em massa, milhões de pessoas se opõem a uma guerra injusta, ilegal e imoral e quero somar minha voz a delas. Eu defendo isto junto a líderes morais em todo o mundo, aos trabalhadores de todo o mundo e à enorme maioria dos povos de países em todo o mundo.
Eu defendo a diversidade. Eu defendo um fim ao racismo direcionado aos imigrantes e às pessoas de cor. Eu defendo um fim à repressão interna e no exterior.
Eu defendo a paz. Eu me oponho a esta guerra e às condições, mentalidades e instituições que disseminam e alimentam a guerra e a injustiça.
Eu defendo a sustentabilidade. Eu me oponho à destruição de florestas, do solo, da água, dos recursos ambientais e da biodiversidade da qual toda vida depende.
Eu defendo a justiça. Eu me oponho às instituições culturais, políticas e econômicas que promovem uma mentalidade de competição mesquinha, enormes desigualdades econômicas e de poder, dominação das empresas a ponto do trabalho escravo e o racismo e hierarquias sexuais e de gênero.
Eu defendo uma política que redireciona o dinheiro utilizado na guerra e nos gastos militares para proporcionar serviços de saúde, educação, moradia e empregos.
Eu defendo um mundo cujas instituições políticas, econômicas e sociais fomentem a solidariedade, promovam a igualdade, maximizem a participação, celebrem a diversidade e encorajem a democracia plena.
Eu defendo a paz e a justiça e, mais, eu me comprometo a trabalhar pela paz e pela justiça.”
Para acessar diretamente a página eletrônica para a assinatura do documento:
http://www.zmag.org/wspj/sign_statement_frm.cfm Inclua nome, sobrenome, e-mail nos respectivos espaços e escolha o país, depois aperte “Sign” (Assinar, em inglês)
Obs. Você pode enviar até dois nomes com o mesmo e-mail. O grupo que organiza a lista está trabalhando para possibilitar outras formas de inserir as assinaturas.

