A retenção de 17.850 toneladas de milho Bt semana passada, no Porto do Recife, reacendeu a polêmica em torno dos transgênicos

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) acabou liberando a carga, que servirá de ração para aves, mas a discussão sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs) continua.

O debate começou quando o Governo Federal editou a Medida Provisória 113, no dia 26 de março, estabelecendo normas para a comercialização da atual safra de soja, com 10% a 50% dos grãos transgênicos.

A soja transgênica, cultivada principalmente no Rio Grande do Sul, é do tipo RR. Trata-se da Roundup Ready, da Monsanto, que chegou a ter o plantio autorizado em 98 pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

A planta recebeu um gene de bactéria que a torna resistente ao herbicida Roundup, também da Monsanto. Com isso, os agricultores podem matar as plantas daninhas sem dizimar a soja. A medida provisória autoriza a venda do produto, preferencialmente para o mercado externo.

O milho Bt é resistente a insetos. Ele recebeu informação genética da bactéria Bacillus thuringiensis, conhecida por produzir uma toxina inseticida.

A resistência dos ambientalistas a esse OGM começou quanto, em 99, a Nature publicou artigo em que apontava a variedade como nociva às pragas que atacam o milharal e à borboleta monarca.

Em dezembro do mesmo ano, a não menos respeitada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) contestou o resultado.

Os cientistas descobriram que as lagartas intoxicadas tinham sido expostas a mil grãos de pólen por centímetro quadrado. Numa plantação, no entanto, os grãos de pólen por centímetro quadrado a que está exposta uma lagarta não excedem o número de 170.

No Brasil, faltam pesquisas sobre os efeitos dos transgênicos na saúde humana ou no meio ambiente, mas sobram opiniões contrárias, principalmente de organizações não-governamentais ambientalistas, como o Greenpeace. Entre os pesquisadores, a maioria é a favor dos OGMs, especialmente os da área de biotecnologia.

Além do milho e da soja, há plantações de canola e algodão. Os EUA são os maiores produtores, seguidos da Argentina, Canadá, China e África do Sul. Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), há projetos para o desenvolvimento de café, tomate, cacau, mamão, soja, feijão, mamão, algodão e banana.

Especialistas defendem técnica e ressaltam os seus benefícios

Entre os pesquisadores, a maioria é a favor dos transgênicos, como André Furtado, do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM), a unidade da Fiocruz no Recife. 'Não sou contra os transgênicos, porque ninguém pode ser contra a ciência', afirma.

Ele diz que a polêmica dos transgênicos foi reduzida a uma luta do bem contra o mal. 'Quem é favorável é do mal e quem é contra, do bem. Tudo isso está sendo gerado pela falta de comunicação correta do que é um organismo transgênico.'

Furtado lembra que substâncias fabricadas por meio de organismos transgênicos são usadas desde os anos 80. Um exemplo é a insulina humana, empregada no tratamento do diabetes. O gene relacionado à produção da substância é introduzida na bactéria Escherichia coli, que passa a produzir a insulina humana.

Para o geneticista da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcos Morais, um alimento transgênico é tão perigoso ou tão saudável quanto um novo medicamento.

'A indústria farmacêutica leva, em média, dez anos para pôr no mercado um novo medicamento. Ele é submetido a testes de eficácia e toxicidade. Mesmo assim, é freqüente um remédio em uso há mais de 20 anos ser retirado do mercado depois de constatados efeitos colaterais. Por isso, a população vai deixar de consumir qualquer medicamento?', indaga. Na opinião do pesquisador, deve-se avaliar o tipo de transgênico. 'E não se pode ser simplesmente contra todo o tipo de transgênico.'

Morais acredita que os organismos geneticamente modificados (OGMs) podem trazer benefícios para a região. 'Os institutos de pesquisa locais podem usar a tecnologia para desenvolver plantas resistentes à alta salinidade', exemplifica.

O pesquisador diz que a polêmica dos transgênicos está mais relacionada a uma questão comercial que à científica. 'Há empresas que não podem competir com a Monsanto, por exemplo, e não admitem isso publicamente. Para fazer um jogo populista, começam a colocar as coisas num contexto ambiental e de proteção à saúde.'

Ele não vê problema no consumo humano de plantas transgênicas que tenham sido liberadas pela FDA, a agência americana de regulamentação dos alimentos e medicamentos, ou pelos organismos equivalentes da Europa e do Japão.

'Se é bom para eles, por que pode fazer mal para nós?', questiona. Ele lembra que, para ser liberada, uma planta é submetida a um rigoroso processo de análise da toxicologia.

Pesquisadores temem impacto sobre a saúde e meio ambiente

Para a médica sanitarista Lia Giraldo, da unidade da Fiocruz no Recife, toda a nova tecnologia que intervém no meio ambiente e nos padrões de consumo de alimentos exige cautela. 'É o caso dos transgênicos, em que o princípio de precaução se faz necessário', afirma.

A pesquisadora, que coordena o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da instituição, ressalta que a prevenção deve ser adotada no início do processo de discussão. 'E não no fim, quando já está consumado.'

A médica acredita que a bioética deve ser levada em conta.

'É preciso verificar os benefícios dos transgênicos para o homem, mas sem deixar de lado a avaliação sobre os seus impactos no meio ambiente. A biodiversidade precisa ser mantida, para que gerações futuras tenham acesso aos recursos naturais', afirma.

Lia não descarta a possibilidade de os transgênicos Bts, aqueles resultantes de transferências de genes com função inseticida do Bacillus thuringiensis, trazerem riscos à saúde humana.

'Se é nocivo para um inseto, pode fazer mal a outros seres vivos, dependendo da susceptibilidade e da quantidade ingerida.' Ela sugere a realização de estudos nacionais independentes para se verificar os efeitos nocivos dos transgênicos na saúde e no meio ambiente.

A engenheira agrônoma Luciane Vilela Rezende, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), defende que a pesquisa brasileira não pode ficar à margem do desenvolvimento tecnológico, mas o consumidor precisa ter o direto de decidir se quer ou não comprar alimentos feitos a partir de organismos transgênicos.

'A rotulagem dos transgênicos é fundamental', diz. 'Estamos comprando no supermercado óleo de milho e de soja transgênico e não sabemos disso.'

A pesquisadora apenas faz ressalvas às técnicas que utilizam a Escherichia coli para clonar genes utilizados na produção de alimentos geneticamente modificados.

'A bactéria é usada na clonagem do gene que será reintroduzido. Quando clonado, o gene carrega pedaços do DNA da bactéria. E ainda não se sabe se isso pode provocar algum problema', justifica.

Ela aponta a Agrobacterium tumefasciens como um dos microrganismo usados na transgenia que não oferece riscos à saúde humana.

Enquanto os transgênicos dividem a opinião dos pesquisadores, empresários ligado ao setor agrícola no Brasil procuram esclarecer a população para os benefícios dos organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).
(Jornal do Commercio, Recife, 4/5)