A verdade sobre o despejo das famílias sem-teto Após 18 dias de luta e resistência, nós, famílias de trabalhadores e trabalhadoras sem teto do Acampamento Santo Dias-MTST, fomos obrigados a sair da área devido a uma operação de guerra montada pela tropa de choque e demais forças policiais, que foram até o acampamento para cumprir uma ordem de despejo solicitada pela empresa estrangeira Volkswagen.

Diante das mais de 4,5 mil famílias, com cerca de 3 mil crianças de zero a doze anos, a polícia montou seu aparato de repressão com o objetivo de destruir o sonho de muitos homens e mulheres que lutam por moradia e justiça social.

As armas da polícia eram: cavalaria, cães treinados para intimidar o povo, bombas de gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, cassetetes, escudos, armas de todos os calibres, inclusive fuzis, com atiradores de elite posicionados em cima da fábrica da Volkswagen, fazendo pontaria nas lideranças e demais lutadores e lutadoras de sindicatos, igrejas e outros movimentos que estavam participando da luta.

As armas da Volkswagen: uma ordem judicial assinada por uma pessoa que decide o destino de vários seres humanos sentado comodamente num gabinete; o poder econômico de uma empresa que recebeu do Brasil todos os benefícios e privilégios, ganhando terrenos do poder público, deixando de pagar vários impostos, etc; a intransigência, a intolerância e o completo desrespeito pelo povo brasileiro.

As armas do prefeito Willian Dib: a covardia, a arrogância e a incompetência, pois em nenhum momento a prefeitura quis resolver o problema das famílias sem teto de São Bernardo do Campo, cujo déficit habitacional é de 50.000 moradias.

Após o despejo, as famílias entraram em ônibus e caminhões e receberam da polícia militar a promessa de que todos seriam levados até o paço municipal, para cobrar do prefeito um lugar para abrigá-las. A polícia parou os caminhões na via Anchieta, mandou as famílias descerem, e as mesmas foram brutalmente espancadas, crianças, jovens, mulheres grávidas, todos reprimidos com bombas e tiros de balas de borracha.

Os ônibus foram levados pela polícia para locais distantes do acampamento, e as famílias foram despejadas novamente com seus pertences enquanto eram novamente reprimidas.Os feridos, quando foram ao Pronto Socorro Municipal, foram intimidados por policiais que ali estavam.

Por que tanto ódio e tanta repressão? Por que o prefeito nunca quis negociar conosco?Por que ainda precisamos ver cenas como esta num país com tantas terras e terrenos abandonados? Por que não se cumpre a Constituição, que diz que todo cidadão tem direito à moradia digna?

Neste momento estamos acampados no Paço Municipal, esperando que o poder público assuma a sua responsabilidade perante as famílias e busque uma saída negociada para este conflito que já dura vários dias.

Diante disto, nós, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), exigimos justiça e continuamos na luta pela moradia e pela reforma urbana, e pedimos para todos os cidadãos deste município e desta região que não se deixem enganar pelas mentiras arquitetadas pelo poder local e pela mídia.

Pedimos a solidariedade de toda a sociedade para que juntos possamos pressionar a prefeitura municipal para que busque uma solução satisfatória para essas famílias, pois nossa causa é justa, e por isso continuaremos unidos, organizados e dispostos a continuar nossa caminhada em busca de TETO, TRABALHO E JUSTIÇA !

MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TETO, São Bernardo do Campo, AGOSTO DE 2003.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)