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| | Hakim Bey para iniciantes Por Ari Almeida 20/08/2003 às 12:19 De tanto praticar Terrorismo Poético e Arte Sabotagem, resolvi finalmente ler uns livros e descobrir afinal de contas, que caralho é esse Hakim Bey. Elaborei este modesto texto sobre o sujeito em questão, espero que gostem. Um tiro na boca de todos com Muito Amor & Muito Carinho. Ari. A política e o caos Hakim Bey para iniciantes Desde Heráclito os filósofos pensam sobre instabilidade e impermanência. Na política, o assunto é debatido desde Aristóteles e Platão e é, provavelmente, o tema principal da disciplina, mesmo antes de ela ser considerada "ciência", no século 19: por que um governo nunca é estável e tem de conviver com inúmeros conflitos? Por que o caos nunca morre? Mesmo as ditaduras mais radicais têm de conviver com pontos onde os poderes se dissolvem e são questionados. Sempre há lugares, grupos e pessoas que não aceitam se subordinar. Por mais que sejam derrotados e incorporados pelos Estados em troca de uma suposta estabilidade, segurança e equilíbrio, esses "núcleos de caos" se renovam e se transformam na História da humanidade, nunca desaparecem. No final dos anos 80, um pensador norte-americano chamado Peter Lamborn Wilson começa a se dedicar ao estudo dessas experiências temporárias de subversão. Mais conhecido como Hakim Bey, ele não dá entrevistas, não se deixa fotografar, diz ser sustentado pelo "Wilson Family Trust" e lança textos com copyright livre, distribuídos em fanzines, sites e via emails. Procura não se comportar como um "autor", tenta desaparecer, mas não muito - em quase todos os seus escritos há uma pista de quem ele é e de que vive em New Jersey, EUA. Diz não tentar bancar o teórico mas escreveu um livro chamado TAZ – Zonas autônomas temporárias, no qual passa o texto todo fazendo teoria, definindo um conceito. O de TAZ, que nos faz retomar a idéia de impermanência. Revolução ou revolta? Hakim Bey critica a idéia de revolução. Ele aprendeu com o filósofo Max Stirner (1806-1856) que a tomada do Estado geralmente leva a instauração de novas ditaduras e outras relações baseadas nos mesmos princípios: violência, obediência, sujeição e vigilância. As revoluções querem prosperar, isto é, durar. Enquanto isso, levantes e insurreições são considerados fracassados porque são derrotados após algum tempo de resistência. Stirner inspira Bey a perguntar: o que acontece durante o tempo em que a insurreição esteve viva? Que tipo de intensidades foram vividas ali? Estas devem ser valorizadas. Não criar um novo poder, mas inventar espaços de liberação. Durem o quanto durarem. Este é o cerne da idéia de zona autônoma temporária: lugares no espaço, no tempo e nas idéias que escapam dos poderes. Ou melhor: invisíveis aos poderes, durante algum tempo e de uma maneira nunca absoluta – já que não existe "liberdade total". TAZ são espaços nos quais pessoas desenvolvem autogoverno(s) e expandam desejos múltiplos. Festas, comunas, surubas, invasões ou simplesmente comunidades, livre-associações. Bey identifica diversas TAZ na história: algumas ilhas habitadas por corsários e piratas (como as míticas Salé e Libertatia), os primeiros momentos dos levantes de maio de 1968 na França, além de inúmeras insurreições que proporcionaram experiências de pico. Esperando Godot? Assim, o problema não é se libertar, mas liberar-se. Não é preciso esperar o mundo mudar. Nem agir segundo um planejamento abstrato para que ele atinja um sentido que seria "seguro" e "justo". Falamos sobre Caos, criação permanente: "Você pediu uma utopia prática & possível. Aqui está ela. Um esquema que poderíamos adotar amanhã, a não ser pelo fato de que todos os seus aspectos violam certas leis, revelam alguns tabus absolutos da sociedade norte-americana, ameaçam a própria trama social etc. Este é o nosso desejo verdadeiro & para realizá-lo precisamos contemplar não apenas uma vida de arte pura, mas também o crime puro, a insurreição pura. (...) O CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização". Não há paraísos, nem previsão de um futuro estável e domesticado. A TAZ também não é "democrática" e politicamente correta. Não se trata de performances em frente das câmeras de TV, nem de ONGs, mas de correr riscos. Do ponto de vista do poder, uma TAZ não é apenas engraçadinha ou pitoresca. É crime, tabu ou, no mínimo, um perigo a ser vigiado. Por isso Bey enfatiza que a TAZ é também uma tática de desaparecimento. Você não quer ser visto, rotulado... ou pego. O que estou fazendo da minha vida? Se a revolução é geralmente conservadora, as preocupações de uma revolta diária são radicalmente diferentes. Sai de cena a ênfase no governo, seus mecanismos e instituições. Entra a vivência intensa do cotidiano: quero comer bem e não comida somente industrial; ter acesso a alimentos e experiências proibidos; fazer sexo com quem desejar ("na família só me interessa a possibilidade do incesto"); poder circular pelo mundo sem me prender a nacionalidades, sem pertencimentos absolutos a culturas ou Estados. O enfoque no dia-a-dia é herdado dos situacionistas, particularmente de Raoul Vaneigem. Mas vai além ao se aliar a idéias dos filósofos franceses Gilles Deleuze e Felix Guattari. Hakim Bey propõe o nomadismo psíquico ou cosmopolitismo desenraizado. Correr ou ficar? Muitas pessoas acham que nômade é igual a migrante (que vai de um ponto determinado a outro), ou cigano (que sempre muda de espaço). Pelo contrário, é aquele que sente toda a Terra como seu habitat. Ele não quer sair de um lugar, é obrigado a isso. E quando o faz, não tem um destino planejado. Como diz Deleuze/Guattari, no seu Tratado de nomadologia, o nômade se move de maneira turbilhonar pelo espaço. E faz das suas roupas e pertences, o seu "território". O nômade nunca muda, ele sempre está em casa. Por isso nomadismo psíquico não significa turismo das idéias. E sim a capacidade de ir além dos cientificismos, pós-modernismos, objetividades, misticismos, religiosidades e até alucinações. É movimentar-se turbilhonarmente pelo conhecimento. Pensamento máquina de guerra. Diz Bey: "abra um mapa do território; sobre ele, coloque um mapa das mudanças políticas; sobre ele, um mapa da internet, especialmente da contra-net, com sua ênfase no fluxo clandestino de informações e logística; e, por último, sobre tudo isso, o mapa 1:1 da imaginação criativa, estética, valores. A malha resultante ganha vida, animada por inesperados redemoinhos e explosões de energia, coagulações de luz, túneis secretos, surpresas". Ele desenvolve melhor estas idéias em seu texto O palimpsesto. Hakim Bey incentiva o descolê? A parte mais conhecida do pensamento de Hakim Bey é a que se refere às técnicas de Terrorismo Poético (TP) e Arte-Sabotagem (AS). Herdadas do dadaísmo e do Provos holandês, essas técnicas acabaram incentivando o aparecimento de algumas "vanguardas" no Brasil. São pequenos grupos de "artistas" que celebram a si próprios fazendo encenações uns para os outros. Mas as propostas de Bey têm muito pouco a ver com isso. TP é uma ação ritualística que visa transformar, causar um momento de espanto, medo ou intensidade. Dançar nu para simbolizar algo; invadir locais não para roubar, mas para deixar mensagens ou objetos (exemplo: um vibrador em cima de um painel de caixa eletrônico); ou até "seqüestrar alguém & fazê-lo feliz". Não se trata de performances para grupos que entenderão aquilo que você vai fazer. TP dirige-se exatamente àqueles que não vão considerá-lo artista. Não objetiva apenas aparecer na mídia. Não é entretenimento para a sociedade de controle. A Arte-Sabotagem esbarra em aspectos já conhecidos dos regimes políticos, fascistas ou democráticos: censura e violência. É Hakim Bey que sugere: "Queima pública de livros – por que caipiras reacionários & funcionários das alfândegas devem monopolizar esta arma?" Mais: "Jogar dinheiro para o alto no meio da bolsa de valores seria um Terrorismo Poético bastante razoável – mas destruir o dinheiro seria uma excelente Arte-Sabotagem. Interferir numa transmissão de TV & colocar no ar alguns minutos de arte incendiária e caótica seria um grande feito de TP – mas simplesmente explodir a torre de transmissão seria um ato de AS perfeitamente adequado". O autor diz que AS é contra idéias e não contra pessoas, mas todos sabemos que nem sempre se consegue atingir uma sem esbarrar nas outras. Ou seja: definitivamente, estas não são técnicas para aqueles que acreditam na democracia, nos poderes do terceiro setor e dos assistencialismos. Um autor para a internet? As idéias de Hakim Bey se espalharam no Brasil principalmente por meio da internet, o que faz muita gente pensar que a TAZ e suas técnicas de revolta cotidiana sejam voltadas à rede. Mas elas são extremamente corporais, físicas. Por mais que a internet possa ser considerada um lugar de relacionamento nada virtual - que também altera corpo e mente, além de movimentar toda uma rede de relações sociais e tecnológicas muito materiais - , Bey insiste que a TAZ deve evitar as mediações. Sejam telas de computador, instituições, TVs ou aparelhos. A internet é importante como uma ferramenta para criar TAZ. Mas não só: permite circular informações clandestinas, desenvolver a pirataria e ter acesso a bens proibidos via hackers. Além de possibilitar a existência de algumas estruturas não hierarquizadas de produção e divulgação do conhecimento. Um "sedutor de menores"? Bey é um autor que faz inúmeras sínteses e, por isso mesmo, torna-se muito sedutor. Articula idéias dos filósofos Gilles Deleuze, Feliz Guattari, Nietzsche, dos situacionistas e do Provos (grupos que influenciaram as manifestações de Maio de 68 na França e a contracultura), do surrealismo, dadaísmo, sufismo, piratologia, Burroughs e Beats. Enfim, um mosaico de quase tudo o que se produziu em termos de "idéias subversivas" nos últimos dois séculos. Infelizmente, ainda é lido de três maneiras que raramente se misturam: 1) como um maconheiro erudito, que lemos pelo prazer de ouvir as palhaçadas; 2) como um "terrorista" isolado, falando para um grupelho de místicos; 3) como o revoltado da moda entre alguns descolês da internet. Parafraseando Nietzsche, para lermos Hakim Bey, talvez nos falte algo nada humano, mas bovino: a capacidade de ruminar. Ari Almeida nunca fez mestrado sobre Hakim Bey na PUC-SP. Trata-se de um delinquente da pior espécie, claro.
Email:: arialmeida2003@yahoo.com.br URL:: http://www.delinquente.blogger.com.br/ >>Adicione um comentário pode crer meu amigo ari? A tenue linha de associar terrorismo a anarquismo volta a ser cruzada... justamente por voce ter uma visao maniqueista limitada Ari voce associa TAZ e toda sua teoria com terrorismo...dá um tempo e viva o anarquismo pacifista de Tolstoy :P  | Meu coração Quero meu coração em baixo das bombas No centro de Bagdá, de Belém, de Faluja Meu coração dentro do peito do ladrão, do bandido, do verme... Enquanto toma porrada do gambé filho da puta... Meu coração no coração da criança de rua, um pequeno filho da puta... Meu coração contabilizando bombadas no coração das putas... Quero bater forte dentro do peito daqueles que vão pra morte junto com o homem bomba... Quero meu cardíaco pensando dentro do terror da velha de 28 anos que apanha do seu amor todo dia, que abaixa a cabeça quando ele fala, que é submissa... Meu coração incansável dentro do coração do médico sem remédio e sem nada e dentro do coração do doente sem esperança de médico ou coisa que o valha da Santa Casa de meu bairro... Meu coração rebelde dando força nas esquinas pro traveco nojento suportar o nojo da clientela classe A que passeia por lá... Meu coração no centro do conflito do mundo, no meio da fome, no meio da merda, da diarréia que mata mais que a guerra declarada... Coloco meu coração no escapamento dos carros que vivem de sangue preto... No meio das industrias que destroem sem cessar pra essa civilização doente que não para de comprar de comprar de comprar... Nos latifúndios que escravizam o homem da terra que não tem terra e dizem ser ele da terra que enterra, que terra é essa, que enterra o homem da terra que precisa de terra pra viver... Meu coração ta lá no meio da galera que não quer pensar, pois seus corações já não batem, não sabem nem amar nem se apaixonar nem amar, meu Deus?, nem amar... Quero o meu coração no sanatório junto ao coração dos loucos, insanos, alucinados, derrotados, perdidos, marginais, excluídos... Meu coração no coração daquela menina que vive a televisão a novela o vídeo game a merda que é ter uma família de merda moralista idiota que só trabalha para ter o que não precisa e ainda ensina que é assim mesmo meu bem... Meu coração na cabeça do drogado e da droga que não tem nada a ver com o drogado assim como o terrorista não tem nada a ver com o seu terror... Quero meu coração sentindo toda a dor e o sofrimento dos animais nos abatedouros... Quero sentir o coração de Jesus na hora da crucificação com Madalena aos seus pés, de Gandhi na hora do tiro fatídico e seu Om Rama, de Martim Luther King, do jovem libertário, do padre humanista, das mulheres nas guerras, da criança que não pode crescer, do centenário que já viu muita coisa apodrecer, na hora da morte quero meu coração no peito e na boca do todos vocês... Meu coração é incansável é imbatível é imortal! Cuidado, não mecham com o meu coração ele pode te fazer mal; mas se for por amor, cuidado, ele pode explodir dentro de seu peito, de tanta paixão... Márcio 24/12/2004 20:23 Meu planeta Mas eu não ando com loucos, observou Alice. - Oh, você não tem como evitar, disse o Gato, somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca. - Como é que sabe que eu sou louca?, disse Alice. - Você deve ser, disse o Gato, senão não teria vindo para cá. Alice no Pais das Maravilhas, Lewis Carrol Não tenho culpa que no planeta dos caretas a mente seja pequena a alma medíocre e o corpo mutilado... O mar é salgado e a água dos rios correm sempre para o mar, isso para os a caretas... Não me culpe, que no seu planeta careta o céu está sempre acima de sua cabeça e a terra só sirva para te apoiar os pés, pés que nada dão à terra... Que coisa é essa o planeta dos caretas, onde a fumaça faz mal, a comida faz mal, a bebida faz mal, o lobo faz mal para o chapeuzinho e nega a vovozinha... No planeta dos caretas a vovó quer um lobo e o lobo que come a vovó fica por ai dizendo que só gosta do chapeuzinho, como se a vovó não tivesse coisas valiosas para lhe dar, o lobo dos caretas não uiva para a lua, e a vovozinha e o vovozinho e os chapeuzinhos definham devido a moralidade destruidora de lares, a ética dos caretas é a causa de todos os males... Que eu nunca caia no planeta dos caretas, que só entendem sexo com amor e nem sabem amar, e tem medo de transar, trepar, foder, tem medo de se perder e estão sempre querendo achar algo que complete as suas carências, os caretas querem acabar com seus desejos, são autodestrutivos e não transformadores... No planeta dos caretas é proibido andar descalço, pisar na grama, correr na chuva, chover no molhado, chorar em público, andar na contramão, deixar a porta aberta, misturar Pinxinguinha com Frank Zappa, Bezerra da Silva com Bad Religion, Nana Vasconcelos com Bach, é proibido não ter nome, e pensar que não se é, tem planta até que não tem direito a vida, e as crianças não podem brincar com seus sexos, não podem tocar ali, não podem falar naquilo... No planeta dos caretas ninguém pensa na possibilidade da existência e ser poeta em tempo integral, e ficar em silêncio em meio a festa, dançar na rua na hora do rush, pegar fila só para ler Tagore, amar como se fosse a primeira e última vez, trabalhar sem pensar na sobrevivência, e não dar satisfações a ninguém na hora da morte, e fazer da televisão um lindo vaso de flores... No planeta dos caretas tudo é tudo e nada é nada, o branco é branco e o preto é preto, o certo é certo e o errado é errado, as palavras tem que estar sempre no lugar certo, as frases construídas conforme as regras, os textos tem donos, as idéias também, e as árvores morrem por eles... mas as árvores não participam do planetas dos caretas... O relógio é senhor no planeta dos caretas e o espaço é limitado, no planeta dos caretas eles discutem o que é a verdade, a ignorância, o real, a ilusão, o prazer, a dor e a felicidade e um monte de coisas sem senti-las, eles dizem que as sensações enganam, enganam os caretas, eles não sabem o que fazer com suas sensações... No planeta dos caretas a palavra de ordem é ordem, progresso, segurança, evolução, concorrência, consumo, caridade, compaixão, amor, paz, yoga, pão integral, ecologia, deus, diabo, deus, diabo, deus e o diabo.... Não há lugar para os caretas no planeta deles para a paixão, o tesão sem compromisso, o movimento do corpo destituído de regras, o caos criativo, a desordem que seduz, a felicidade da aventura, o eterno retorno, a simpatia mútua entre corpos diferentes, o trabalho desinteressado para se conquistar apenas o que se precisa, a paixão que viola a paixão do outro, a guerra como elemento primário de nossas sensações, o impulso básico que nos leva adiante... Não quero o planeta dos caretas ele é muito redondo e a toda hora você está sendo filmado, não para um curta metragem, mas para a paranóia de quem ta do outro lado... Quero vales e abismos que me levem às profundezas de minhas entranhas, quero o discurso da subida das montanhas, quero o cume sem sentido e sem razão, quero os vales verdejantes, as flores dos campos e corpos condutores que troquem comigo suas energias telúricas, quero planícies de rios serenos e sinuosos que nunca saem do lugar, quero cascatas violentas que me lancem de encontro à cara da vida, que me lancem no útero da morte, que me lancem como bomba atômica de encontro a todas as instituições familiares, corporativas, estatais, religiosas, humanitárias e que não sobrem nem uma, quero planaltos e serras de vida, de pássaros, de peixes, de feras, de mamíferos, de insetos, de vida comendo vida, quero desertos de miragens, desertos de mim mesmo, desertos tão secos e frios e quentes e úmidos, quero desertos e desertos e desertos... quero é ficar aqui mesmo em meu planeta que carrega todo mundo para outros mundos fantásticos, terríveis... No meu planeta os caretas tem lugar em meus poemas... porque a poesia transforma, transporta, transfere e transcende... Acende a chama que jamais se apagará... Márcio 21/12/2004 13:43
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