A Bolívia já foi a maior produtora de metais preciosos do mundo. A descoberta da mina de Potosí, em 1544 pelo índio Diego Huallpa – uma montanha praticamente toda de prata – fez dessa cidade, situada num deserto gelado a 4000 metros de altitude, a maior das Américas e uma das maiores do mundo da noite para o dia, com 160.000 habitantes. Milhares de soldados, aventureiros, prostitutas, magistrados, clérigos e ladrões espanhóis congestionavam as estreitas estradas incas para subir os Andes até o verdadeiro Eldorado.

Tamanha foi a quantidade de prata extraída de Potosí que derrubou os preços da prata, cujo valor passou de 1/10 do ouro para 1/15, e gerou na Europa um dos maiores surtos inflacionários da história. Por outro lado, essa mesma prata foi responsável pelo maior “boom” econômico de todos os tempos, também na Europa – enquanto provocava o extermínio de 80% da população indígena devido ao trabalho escravo da “mita” nas minas e à contaminação por mercúrio utilizado no processo de amálgama.

Quando da independência em 1825 a produção de prata estava praticamente esgotada, e Potosí, devastada durante a guerra de libertação, contava com apenas 9.000 habitantes. Durante a guerra do salitre contra o Chile (de 1879 a 1883), a Bolívia perdeu todo o seu litoral, riquíssimo em guano – depósitos de fezes de aves marinhas, utilizado como fertilizante. A perda da saída para o mar foi um desastre pois a sua economia sempre foi voltada para a exportação de matérias-primas. No século XX, passou a depender da exportação de outro metal – o estanho – e sua história não é diferente da dos demais países latino-americanos – miséria, desigualdade e instabilidade política, só que numa escala ainda maior (em 160 anos a Bolívia sofreu nada menos que 189 golpes militares, um recorde mundial).

Em 1993 assumiu a presidência pela primeira vez Gonzalo Sánchez de Lozada, rico empresário educado nos Estados Unidos (daí o forte sotaque), e que havia controlado a hiperinflação nos anos 80. Seu governo não fugiu ao modelo neoliberal que então assolava o mundo, e executou à risca todas as determinações do “Consenso de Washington”: privatizações, corte de gastos públicos, rígido controle inflacionário. Durante seu mandato, que terminou em 1997, o crescimento médio anual do PIB foi de 4% e a inflação ficou em menos de 10%.

Porém, a toda ação corresponde uma reação em sentido contrário. As fórmulas do Consenso de Washington foram incapazes de reduzir as desigualdades e de promover um crescimento econômico sustentado. A “década perdida” dos anos 80 se tornaram o “vintênio perdido”, que se estende até hoje na América Latina. A insatisfação popular no continente ficou evidente em 2000, com a rebelião indígena que depôs o Presidente do Equador Jamil Mahuad.

Em 2002 Sánchez de Lozada, o “Goni”, voltou a concorrer à Presidência da Bolívia. Dessa vez, enfrentou um “outsider” da política boliviana, o líder cocalero Evo Morales, que apresentava um discurso afinado com o de seu guru Hugo Chávez – contra o neoliberalismo, a oligarquia e o imperialismo, pela valorização da herança indígena e pela integração da América Latina.

A coca é cultivada milenarmente na região andina, mas com a “guerra contra as drogas”, os EUA decidiram acabar com esse cultivo à força, tirando de milhares de famílias bolivianas sua única fonte de renda. A candidatura de Evo recebeu uma ajuda involuntária do embaixador dos EUA, Manuel Rocha, que de modo nada diplomático declarou que se Morales vencesse, os EUA boicotariam o país. Essa declaração foi obviamente percebida pelos bolivianos como uma ingerência descabida em seus assuntos internos, e Morales, que tinha 4% das intenções de voto em março, acabou indo para o segundo turno com 21%, logo atrás de Goni que teve 22%. Isso depois que os demais candidatos se recusaram a participar de um debate com ele e Morales não se fez de rogado, e disse que queria um debate mesmo era com o embaixador Rocha. “Eu quero debater com o dono do circo, não com os palhaços”, disse.

No segundo turno – que na Bolívia é realizado por votação indireta, pelo Congresso, Goni venceu com a ajuda de todos os partidos tradicionais, mas o Movimento ao Socialismo (MAS) de Morales se consagrou como a grande força de oposição. O presidente herdou um país novamente em crise econômica, e não conseguiu cumprir as promessas de campanha. Sua popularidade despencou para apenas 9%, enquanto o apoio a Morales se fortalecia na mesma medida. A gota d’água para a insatisfação popular foi o plano de venda de gás para os EUA através do Chile – os dois países que são o espinho atravessado na garganta dos bolivianos.

No momento em que termino de escrever estas palavras, o Presidente Goni se encontra cada vez mais cercado e abandonado – quatro ministros, entre eles os três do partido tradicional Nova Força Republicana, renunciaram em protesto pela repressão, e o Vice-Presidente Carlos Mesa também retirou seu apoio ao governo. Ainda se aguarda com expectativa uma posição mais clara do exército, e Goni só recebeu o apoio ostensivo dos... Estados Unidos – o Departamento de Estado declarou que “"O povo americano e seu governo apóiam o presidente democraticamente eleito da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, e seus esforços por construir um futuro mais próspero e justo para todos os bolivianos", segundo a Folha Online ( http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u64262.shtml) .

A Bolívia se encontra no coração da América do Sul, é o local em que os povos que habitavam as florestas do continente – os guaranis – se encontravam com os povos das montanhas andinas – os quíchuas e aimarás. O Che Guevara escolheu a Bolívia como base de sua guerrilha porque acreditava que aquele país, por sua posição cêntrica, serviria como foco de irradiação do movimento revolucionário em direção aos países vizinhos. Quem sabe, não esteja nascendo na Bolívia um novo modelo que se espalhará pela América Latina e pelo mundo.

“O pior inimigo da humanidade é o capitalismo. Isso é o que provoca insurreições como a nossa própria, uma rebelião contra um sistema, contra um modelo neoliberal, que é a representação de um capitalismo selvagem. Se o mundo inteiro não reconhece essa realidade, que os estados nacionais não estão proporcionando mesmo minimanente a saúde, educação e alimentação, então a cada dia os mais fundamentais direitos humanos estão sendo violados.”
Evo Morales