Temas: gozo, prazer, autonomia, vida, situações... e também: desemprego, troca e uso, desespero, crise, capital, trabalho, máquinas, dinheiro, "globalização", Estado, máfias, mercadorias, capitalismo de estado (URSS etc), contrabando, megafusões, sobrevivência, narcotráfico, repressão, bolsas de valores, guerras, "sociedade de consumo", petróleo, "sociedade da informação"...
http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/Membros/fardo.htm
O FARDO SEM FIM DA REINVENÇÃO
INCESSANTE DA RODA
Um esboço para uma conceituação do
mundo contemporâneo, do seu curso e sentido
Autor Anônimo
APRESENTAÇÃO - VIDA & SOBREVIVÊNCIA
O mundo só existe para o animal como deglutição, consumo, objeto de desgaste e destruição - a busca da repetição incessante desse mundo faz da sobrevivência seu campo de realização.
Só o homo sapiens sabe que vai morrer. Então, para ele, não faz nenhum sentido que o mundo seja apenas a incessante repetição da busca por comer e copular. Ele não pode mais deixar que lhe passe com indiferença a existência que lhe resta: só quem tem consciência da proximidade crescente da morte é capaz de estabelecer a vida como sua esfera de existência.
O homem inventa o arco e a flecha para não ter que passar o resto da vida correndo sem parar atrás da comida. Ele precisa cantar, dançar, brincar, conversar, inventar, imaginar, pensar, em suma, ele precisa transformar o mundo de maneira que deixe de meramente sobreviver e passe a viver. Ele precisa fazer do mundo um lugar bonito, musical, gostoso e aconchegante onde ele não precise mais brigar por comida, onde ele possa encontrar seus amigos e mostrar para eles seus inventos, danças, músicas, pensamentos, brincadeiras e conhecer o que seus amigos têm de novo, para que, juntos, possam transformar novamente o mundo num lugar onde tudo isso possa se realizar.
Queremos descobrir por que hoje o homem esqueceu da vida, fazendo os meios de vida que inventou se transformarem em simples meios de sobrevivência. Queremos descobrir por que os meios que ele inventou para se libertar da sobrevivência, desde o arco e flecha até os atuais robôs, acabou perpetuando-a, aumentando o trabalho até fazer deste a finalidade que ocupa toda existência das pessoas. E por que todas aquelas coisas que não são busca pela sobrevivência, como cantar, brincar, dançar, imaginar, criar, pensar, transformar o mundo... são consideradas bobas ou absurdas e substituídas pela busca sem fim do mero desgaste e destruição dos objetos, o consumo, refazendo eles eternamente pelo trabalho para serem eternamente destruídos, consumidos.
Enfim, queremos descobrir porque hoje as pessoas não podem desfrutar o mundo transformando-o e realizando-se, mas só podem trabalhá-lo para consumi-lo.
TROCA & USO
O consumo, ou seja, o uso, é o modo de ser daquilo que o trabalho produz, uma petrificação do mundo em contraposição à multilateral transformação do mundo que envolve todos os sentidos e desejos, que é a vida. O uso pressupõe uma ação abstrativa de cada um dos elementos do mundo de modo a isolá-los numa dimensão específica (por exemplo, a fruta é para comer, o papel higiênico, para limpar a bunda, a roupa, para vestir, a rua, para chegar ao trabalho ou ao centro de consumo, a escola, para estudar, o museu, para ver obras de arte, o quarto, para dormir...).
O panorama onde os elementos do mundo se encontram perde sua força de conexão interna desses elementos. Este panorama não é mais uma situação, um ambiente de infinitas dimensões que o homem encontra e transforma, criando novas situações, novos estados de ser e de espírito (realização da vida). O panorama do mundo se desintegrou num conjunto de elementos coisificados, num conjunto de fragmentos sem nenhuma relação interna entre si.
A fragmentação dos diversos elementos do mundo em dimensões específicas em função do valor de uso, por sua vez, significa o surgimento de uma força de conexão externa entre eles, que é o uso abstraído de qualquer dimensão específica. Essa conexão em exterioridade dos elementos fragmentados é a redução deles a uma única dimensão radicalmente abstrata (uma abstração das diversas abstratizações específicas dos elementos): o valor de troca. Os elementos são trocados entre si, para serem usados. O valor de troca é a abstração de todos os usos possíveis e é representado no dinheiro. Quanto mais alguém tiver dinheiro, mais pode usar. Mas assim ele só se satisfaz em suas dimensões específicas, fragmentadas, não em seu ser, não em seu espírito. Diante do panorama fragmentado que destrói as situações, ele não pode reconhecer a si mesmo no mundo como unidade de infinitas e irreversíveis manifestações e dimensões, o que o iguala a qualquer animal, que só encara o tempo como deglutição/destruição do objeto de necessidade e repetição desse gesto ao infinito.
O usuário, por isto, só pode reconhecer os outros seres humanos como simples médiuns para alcançar o uso, como simples portadores de dinheiro, por ser o único meio de relação possível com o mundo e, assim, consigo mesmo, com sua própria sobrevivência. A individualidade é suprimida numa abstração, "o homem", com seus direitos e deveres.
O homem se reduz ao seu dinheiro, se curva a ele e o adora, e só é reconhecido assim pelos outros, caso contrário, estes o matam - simplesmente impedindo-o de comer, ou seja, torturando-o até a morte.
Sem as situações, me é impossível encontrar e criar os estados ser e de espírito onde eu possa me realizar, e então estes só podem aparecer para mim como fuga da realidade, como consumo de drogas, de bebidas, como uso de televisão, de video-games, hobbies, como religião, misticismo, em suma, como esquecimento da minha morte e, consequentemente, do tempo que me resta, que se torna um mero passa-tempo, mera perda de tempo cuja falta de sentido só posso suportar com essas ilusões.
Esse estado em que nos encontramos não é algo dado, natural, ontológico. Ele é um produto concreto da sociedade, foi e só é possível através de um determinado tipo de ação sobre a natureza pelo homem - o trabalho.
TRABALHO VERSUS ATIVIDADE HUMANA
Eu só troco uma coisa que fiz se esta coisa não tem utilidade para mim. Então, a única utilidade do que fiz é a ausência de qualquer utilidade específica, é a abstração de todas as utilidades: a troca. Portanto a produção de coisas para trocar requer que minha atividade não me seja útil, que se transforme numa atividade abstrata, indiferente, em trabalho. Eu já não caço, planto, teço roupas ou faço uma obra de arte, mas simplesmente trabalho. Se meu objetivo é o uso, o consumo, que alcanço através da troca, o conteúdo da minha atividade deve ser indiferente para mim. A minha atividade só interessa na medida que me faça conseguir dinheiro para poder consumir. Ela é um mero trabalho. Eu só consumo porque eu me consumo.
Trabalho é sacrifício, e, não por coincidência, é uma palavra cuja origem etimológica vem do latim, tripalium, um antigo instrumento de martírio, de tortura e autotortura. Mas obviamente ninguém se tortura à toa, a automortificação visa sempre (seja na terra, seja num céu ilusório) uma compensação, uma troca, e o trabalho, de fato, tem o valor de troca como momento fundamental. Nisso, a sociedade atual revela suas raízes imergindo no mito, em que se concebe a relação com as forças que englobam a sociedade e o mundo como rito de troca com os deuses - sacrifícios pagos por favores sobrenaturais. No entanto, em todas as sociedades anteriores à capitalista (seja à capitalista privada, como no Brasil, seja na estatal, como na URSS), a troca, e portanto o trabalho, era algo marginal, a própria noção de que a troca seja a base das ações era vista como característica de pessoas de mau caráter e inferiores. (Nas comunidades primitivas, ainda sem classes nem Estado, como as ainda existentes tribos brasileiras de recentes relações com os brancos, a troca, ainda sob a forma de escambo, só existia com os que eram chamados de não-homens e considerados desprezíveis, ou seja, com as outras tribos, cujo contato, fora da guerra, era visto como uma inferiorização de si e assim como autonegação; mas no interior de cada tribo, a troca era desconhecida). Para as sociedades antigas, quem trabalha não é da espécie humana, é um escravo, um animal. O objetivo da vida estava na arte, na invenção de figuras mitológicas, nas decisões da polis, na filosofia, na música, nos jogos, na caça, nas aventuras guerreiras, nos ritos etc, mas jamais no trabalho, relegado aos animais, aos escravos ou a momentos desprezíveis da vida cotidiana. Todavia o germe do moderno trabalho abstrato e do consequente culto ao dinheiro e a implantação generalizada da inquisição em nome desse fetichismo já estava lá sob a forma de uma concepção do universo na qual as existências do homem e do mundo eram determinadas por potências exteriores a eles, que nada mais é do que uma visão que extrapola para o universo as relações sociais, isto é, a sujeição real dos escravos aos senhores ou a relação com os povos considerados não-humanos.
Se um alguém quer algo que me custou sacrifício (isto é, a negação de meu prazer - trabalho) exijo em troca um sacrifício comparável, isto é, algo que tenha igualmente se realizado com semelhante "grau" de sacrifício: eis a "ética" que subjaz ao trabalho e à troca. Se, pelo contrário, ofereço a alguém algo que realizo com paixão (bater um papo, recitar poesia, inventar alguma coisa e realizá-la, tocar um instrumento musical, brincar, participar de algum jogo etc.), por maior que seja meu esforço e meu sofrimento para conseguir realizá-lo, nada imponho em troca, pois não pode ser comparado ou substituído por nenhuma outra coisa; o que vale é o gozo ou a experiência que gera em mim e nos outros. Neste último caso, a essência de meus atos, do mundo e das pessoas com as quais me relaciono não emergem senão através da manifestação dos próprios atos e relações com o mundo e com os outros, o que supõe uma realidade de múltiplas dimensões na qual reconheço e desenvolvo minhas potencialidades multilaterais. Já no caso da "ética" do trabalho e da troca, a essência das minhas atividades de relação com o mundo, comigo e os outros surge como uma potência unilateral e exterior a elas, isto é, como abstratização concreta dos meus atos e relações - o trabalho -, que os torna substituíveis, isto é, redutíveis a uma única dimensão, redução essa que impõe a troca.
O autosacrifício é portanto o comportamento que, inicialmente, está nas bases da criação de uma sociedade onde, com o desenvolvimento da divisão do trabalho, tudo se troca e se substitui ao dinheiro, e que impõe o martírio, o trabalho, como única atividade social possível, destacando-se e independentizando-se do simples estado de comportamento para se tornar a regra universal de todas as relações sociais, simultaneamente à redução à mercadoria (isto é, à troca) de todos os aspectos da existência humana.
TRABALHO & CAPITAL
Quando ocorre essa universalização da troca, o trabalho sofre um novo desenvolvimento: Se todos os homens só se reconhecem como livres e iguais vendedores e compradores de mercadorias, a "liberdade" daqueles que não têm mercadorias para vender consiste unicamente em escolher entre morrer de fome e fazer da única coisa que possuem - as energias de seu corpo e espírito - um objeto de venda.
Se, para sobreviver, sou obrigado a colocar diariamente meu corpo e espírito à disposição de alguém (indivíduo ou instituição) que me paga para isso, sou submetido inteiramente à sua vontade e capricho, pois toda e qualquer mercadoria não pertence a quem a vendeu, mas a quem a comprou e eu vendi minha força de trabalho por "livre e espontânea vontade". Então, durante a venda da minha força de trabalho, o meu corpo e espírito - minha vida - não me pertencem mais. Do mesmo modo, aquilo que me mandam fazer, os produtos dos meus atos e pensamentos, não me pertencerão. Estes produtos serão acumulados por quem comprou minha força de trabalho, vendidos e transformados em acúmulo de dinheiro, em lucro, e este, convertido em mais meios de produção e mais emprego de força de trabalho para gerar mais mercadorias e, portanto, mais lucro, e assim por diante. Eu continuarei ganhando meu salário, pois o que ele vendeu não me pertence e eu não vendi a ele meus produtos, mas somente minha capacidade de ação e pensamento - pagos pelo salário - para produzi-los.
Nessa fase de desenvolvimento do capital mundial, a força de trabalho é a mercadoria que, na escala de toda a sociedade, realiza concretamente a aparentemente mágica multiplicação do dinheiro, o lucro. Ela é a mercadoria que gera mais dinheiro do que custa porque ela produz o que será vendido mas só custa o salário. A esta diferença entre o valor do custo de produção e o valor do produto, Marx chamou de mais-valia.
Este é o capital na sua forma essencial, também chamado de produtivo, pois nele a troca deixa de ser a forma de um conteúdo "aventureiro" (pré-mercantil; por exemplo, o comércio marítimo da colonização portuguesa e a burguesia artesanal da idade média, onde a contingência, o acaso e laços comunitários condicionam a troca), para ser a forma que tem por conteúdo a própria forma (a troca), deixando de ser um "antes e depois" da produção para agora penetrar e determinar a própria produção, transformando em troca o próprio ato produtivo.
Com essa reviravolta, os atos dos diversos trabalhadores não apenas deixam de ser individuais ou comunitários mas são além disso separados, submetidos e unificados pelos meios de produção de mercadorias pertencentes ao capitalista. Os indivíduos se tornam simples apêndices das máquinas e quanto mais transformam o mundo com seu corpo e pensamento, tanto mais esse mundo emerge como um poder estranho que os domina, sob a forma de poder crescente e hostil do capital. As coisas como que ganham uma vida própria: o sistema de máquinas aparece como um imenso organismo vivo, um monstro de metal e aço, no qual os trabalhadores são dispostos como alimento que precisa ser constantemente reposto e substituído, sem nenhuma essencialidade e interrelação com os outros trabalhadores exceto a imposta pelas máquinas, pelo capital.
CLASSES EM LUTA
Surge então um antagonismo inerente a essas relações, que atravessa e, em determinados momentos, suplanta, a concorrência entre livre e iguais vendedores e compradores de mercadorias: a oposição entre os proletários (os vendedores de força de trabalho) e o capital (quem ou o que compra e consume a força de trabalho). O capital busca sempre consumir ao máximo a mercadoria força de trabalho e desvalorizá-la (diminuir o salário), para conseguir o máximo de mais-valia, enquanto o proletário busca sempre um aumento de salário e a diminuição da exploração. Estes dois movimentos são irreconciliáveis e se contrapõem de modo a se transformarem num movimento de luta, luta de classes.
Durante os últimos duzentos anos, a luta de classes desempenhou um papel determinante nas mutações históricas do capital. Essas mutações, por sua vez, transformaram e complexificaram a divisão de classes, de modo a, aparentemente, dissolvê-la na submersão da humanidade indiferenciada no fluxo universal e implacável das mercadorias.
A primeira manifestação da luta entre proletários e capital, o ludismo, expresso na destruição das máquinas, remete ainda à ideologia burguesa da revolução francesa, de "liberdade, igualdade e fraternidade" dos vendedores e compradores de mercadorias. O desenvolvimento da maquinaria era percebido como o causador da dissolução do modo de vida artesanal até então vigente, modo de vida no qual os ideais da revolução francesa teriam existido concretamente, permitindo supostamente, ao contrário do maquinário (que domina e submete os operários, além de torná-los miseráveis), a livre disposição pelo indivíduo de seu trabalho.
Se, porém, o proletário se opõe à livre disposição de sua força de trabalho pelo capitalista e aos meios que este utiliza para consumi-la, ele vai contra os princípios básicos do direito burguês (instituídos pela própria revolução francesa), de inviolabilidade da propriedade privada, porque se eu vendo ("livremente") minha força de trabalho, sua propriedade pertence a quem a comprou, que então possui o livre usufruto desse bem, assegurado pela lei e a polícia. Este aspecto sempre presente da luta do proletário está nas raízes das primeiras lutas e críticas contra o capital e contra suas instituições que buscam não mais o retorno, mas a transformação da sociedade.
Por outro lado, se a oposição entre o proletário e sociedade da mercadoria é manifesto não apenas no seu antagonismo à redução de sua vida à força de trabalho, mas também na violação da propriedade devido à fome e desemprego (em saques e roubos, contrapondo as necessidades humanas à ditadura democrática da mercadoria), a concepção de uma possível transformação da sociedade, no entanto, não podia ainda se libertar das categorias essenciais dessa mesma sociedade.
Assim, a idéia de uma nova sociedade aparece primeiramente como mera negação abstrata da propriedade privada, pelo nivelamento por baixo de todos os indivíduos, na redução de todos à mera condição de proletários e pela anulação de toda personalidade na transposição da coletividade imposta pela fábrica (precisamente pela propriedade privada) a toda sociedade, criando uma "propriedade privada geral". Este socialismo vulgar e sentimental quer, nessa lógica complementação negativa da propriedade privada, um retorno à simplicidade pseudonatural do pobre e do indigente, negando abstratamente todo o mundo do pensamento e da cultura em nome de um culto sinistro ao trabalho, ao autosacrifício e à força bruta.
Essa ideologia estreita e vulgar de socialismo, devido a seu forte apelo sentimental às massas miseráveis e atomizadas, é um dos fatores que está nas bases da adesão dessas massas ao nacional-socialismo, aos populismos dos anos 30 e 40 e aos regimes de capital estatizado (Cuba, URSS, Coréia do Norte etc.), assim como sua variante terceiromundista, tão em voga nos anos 70 e 60, que, por sua vez, levaram o capital mundial a uma nova mutação histórica e executaram um novo desenvolvimento dos mecanismos de dominação e exploração do proletariado.
Mas a situação em que sobrevive o proletário e que o leva a lutar contra ela é muito mais complexa. Quando, na luta imediata contra o capital, isto é, a luta pela redução da exploração e pelo aumento do salário, os proletários produzem com os outros proletários uma esfera de relação e ação próprias, isto é, que se contrapõe à sua atomização pelo maquinário e pelos ditames do patrão e do Estado, suplantando assim a condição de livres e iguais concorrentes, surge ao mesmo tempo uma nova perspectiva, a saber, a da autonomia dos operários.
A comuna de Paris dos anos 70 do século XIX, os conselhos operários do fim dos anos dez e começo dos anos vinte do século passado, em várias partes do mundo, as coletividades anarquistas da revolução espanhola, em 1936, novamente os conselhos, na Hungria em 1956, e o movimento autonomia operária dos anos 70 do século XX, na Espanha e Itália, são os momentos históricos culminantes que exprimem a perspectiva autônoma, expressa no projeto histórico de superação do capital por uma livre e igual associação mundial de produtores. Neste horizonte histórico, a supressão da ditadura do capital nada tem a ver com a ideologia de distribuição igualitária e paternalista dos bens pela "propriedade privada geral" encarnada num Estado ou em cooperativas. Trata-se, muito mais, de libertar (junto com o fim da propriedade privada - estatal ou particular - dos meios coletivos de produção) os indivíduos de sua sujeição ao aparato técnico e ao poder separado de alguma classe ou instituição (o Estado, por exemplo).
As células básicas que possibilitam essa dupla libertação são concebidas como se realizando por livres encontros de indivíduos (chamadas também de "assembléias") nos quais são determinados e formados os diversos órgãos responsáveis - através da delegação de mandatos rotativos, imperativos e revogáveis a qualquer instante aos e pelos indivíduos que participam desses encontros periódicos ou extraordinários - pela execução das várias atividades necessárias à manutenção e desenvolvimento da coletividade (e, obviamente, dos indivíduos) e que vão desde órgãos encarregados da limpeza e coleta de lixo até órgãos coordenativos gerais. E cada um dos órgãos (também chamados de conselhos) se determina e forma suas instâncias internas da mesma maneira, pelos indivíduos que neles participam, assim como as esferas coordenativas entre os diversos órgãos são determinadas e formadas por encontros entre delegados dos órgãos envolvidos. A rotatividade desses órgãos, para os quais os indivíduos elegem e se elegem, liberta os indivíduos da sua redução a uma única atividade, permitindo-os que se desenvolvam em suas múltiplas potencialidades, e as atividades inerentemente desagradáveis, se reconhecidas como necessárias à vida de todos mas que, individualmente, ninguém se oferece para executar, como a coleta de lixo, é dividida racionalmente, através de estatutos (que estabelecem o sorteio, por exemplo), entre todos os indivíduos da coletividade (que, por sua vez determinaram os estatutos, inclusive com as penalidades, nas assembléias), por exemplo, conforme o que for decidido, pondo o máximo possível de pessoas nessa atividade desagradável para que ela ocupe uma duração de tempo insignificante de cada um ou tornando tão rotativo o órgão encarregado de executá-la que ninguém perde a sua vida nessa atividade.
Nessa situação, o indivíduo e, portanto, a sociedade, se reconheceria e se realizaria como autor de sua história, como ser autônomo que transforma o mundo para satisfazer seus desejos e necessidades, ao invés de se submeter à "mão invisível" do mercado e pseudovisível do Estado e, portanto, a uma atividade confinada (seja a política, seja na fábrica). Em outras palavras, os indivíduos não se submeteriam mais, por um lado, nem ao "livre-arbítrio" perante a passividade/inércia de objetos postos em prateleiras e nem, por outro, à complementar atividade abstrata, indiferente ao seu conteúdo e automortificante, de fazê-los que é o trabalho (seja assalariado ou "bicos", seja sob a ditadura dos patrões ou do Estado), o meio de conseguir dinheiro ou "boletos socialistas" para usar esses objetos.
PROCESSOS DE INTERNALIZAÇÃO E SUPRESSÃO DA AUTONOMIA
A classe dominante nunca teve outra opção senão enfrentar estas tendências, que colocam radicalmente em questão sua própria existência na medida em que a luta dos proletários cria esferas autônomas de ação e relação social que fogem às suas instituições e meios de produção, fazendo desmoronar seu domínio. Dissolver a autonomia dos proletários e reconduzi-los à concorrência, isto é, à igualdade e liberdade abstratas de vendedores e compradores de mercadorias, é a condição sine qua non da manutenção da ditadura do capital.
A medida imediata frente à autonomia consiste na repressão policial. Se isso, ao invés de atenuar, intensificar o antagonismo, e, portanto, a ameaça ao capital, o passo seguinte, mais efetivo, é internalizar a autonomia, seja transformando-a em "acordo" entre "duas partes", subsumindo-a no Estado (a expressão da ditadura dos livres e iguais mercadores, cuja expressão mais "pura" é a democracia) através de sindicatos e representações políticas, seja através da guerra entre frações do capital (que vai desde guerra entre nações até guerras contra empresas ilegais, como o narcotráfico, passando pelo fundamentalismo religioso), que simultaneamente destrói a autonomia local e tendencialmente mundial do proletariado, mediante a reconciliação dos proletários com seus patrões para derrotar proletários e patrões do campo inimigo, e isso, reciprocamente para cada campo, mediante a mentira da pátria, da raça, da etnia, da religião etc.
Os mecanismos de dominação e controle se tornaram cada vez mais refinados. A história da manutenção da sociedade atual pode ser resumida como o desenvolvimento de mecanismos de controle e domínio da autonomia que avançam desde uma forma imediata, exterior, física (a repressão policial, por exemplo), até a introjeção desses mecanismos no inconsciente de cada indivíduo, mediante o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e a mercadorização de praticamente toda a cultura, ou seja, a subsunção de todo e qualquer meio de produção de conhecimento e de experiência sensória e vivencial ao despotismo do capital e do Estado (como, por exemplo, na chamada "sociedade de consumo" dos pontos do globo onde o capital é mais concentrado e, portanto, precisa ser mais protegidos de qualquer antagonismo).
Sabemos que, até o presente, todas as tentativas autônomas de transformação da sociedade fracassaram. Que mesmo onde os proletários, através de conselhos operários (sovietes), ultrapassaram o domínio e exploração dos capitalistas e suas empresas, como na Rússia em 1917, eles não conseguiram fazer mais do que do que substituí-los logo depois pelo domínio e exploração de uma única empresa, pertencente a um único capitalista, o Estado, destruindo sua própria autonomia e se sujeitando aos ditames da burocracia e da "mão invisível" do mercado, mercado que, enfim, levou, em 1989, essa empresa colossal à falta de competitividade no mercado mundial (em razão de déficits não mais sustentáveis na balança comercial) e, consequentemente, à falência.
O capital saiu tão vitorioso desse combate que praticamente ninguém hoje se reconhece como classe, quer dizer, ninguém procura se opor coletiva e autonomamente ao capital enquanto tal. Os mecanismos de internalização do antagonismo (que obviamente persiste, enquanto a vida do ser humano for reduzida à mercadoria) se aprimoraram de tal maneira que os explorados não percebem nenhuma fonte comum de onde possa surgir a esfera de sua autonomia. Tudo é particularizado, atomizado, fragmentado. A própria extração de mais-valia não é mais visível de forma imediata, visto o proletariado ter se fragmentado em diversas estratificações espalhadas pelo globo conforme o grau de concentração do capital mundial nesses pontos geográficos, grau esse que, por demandar uma maior ou menor proteção contra os antagonismos, acompanha proporcionalmente a parte de mais-valia mundial destinada ao refinamento dos mecanismos de internalização e destruição da autonomia nessas regiões, cidades ou bairros. Assim, um proletário do terceiro mundo tem a ilusão de que o lucro ali extraído se destina ao benefício dos proletários do primeiro mundo, que têm acesso à "sociedade do consumo", enquanto que, na verdade, tanto lá como aqui os seres humanos são igualmente submetidos à mesmíssima ditadura do capital, são meros meios de lucro, meras "coisas". Da mesma forma, os proletários do primeiro mundo se opõem aos do terceiro mundo porque aqui a mão de obra é barata e isso provoca desemprego nos países "avançados". E a mesma oposição internalizada no capital mundial acontece em regiões vizinhas ou até mesmo entre bairros numa cidade.
Resta saber se toda luta pelo fim da ditadura do dinheiro foi em vão, se não passou e não passa de um sonho irrealizável, uma utopia.
Para resolver essa questão é necessário (como viemos fazendo em toda esta investigação) buscar apreender a praxis social total e ver no próprio autodesenvolvimento desta praxis o surgimento das perspectivas históricas ou das ilusões, ao invés de ver o surgimento das perspectivas e ilusões como que tendo uma autonomia ou capacidade sobrenatural de determinação frente à complexidade contraditória dos vários aspectos da vida humana e de seu autodesenvolvimento num determinado momento histórico, isto é, frente à praxis.
AUTOMOVIMENTO & AUTOCONTRADIÇÃO DO CAPITAL
Se no decorrer de sua história, o capital consegue integrar em seus próprios processos as lutas que poderiam ou pretendiam superá-lo, é nesses mesmos processos que devemos agora investigar o seu autodesenvolvimento, as contradições e as perspectivas que dele emergem.
a) Composição técnica do capital & tempo de trabalho socialmente necessário
A transformação incessante da composição técnica do capital é uma característica inerente de seu automovimento, e inédita na história da humanidade. A busca incessante do lucro e a concorrência entre as diversas empresas levam-nas a tentar sempre reduzir os custos de produção, sob o risco de falência pela falta de competitividade, e isso se consegue principalmente através do desenvolvimento de meios de produção que necessitam cada vez menos de emprego de força de trabalho. Através das mutações da composição técnica do capital total, a diminuição do custo em força de trabalho exprime a redução do tempo de trabalho socialmente necessário para produzir as mercadorias.
Compreender o conceito de tempo de trabalho socialmente necessário é fundamental para compreender a fases do automovimento histórico do capital e as passagens entre elas. Marx o compreendeu e o descreveu do seguinte modo: um valor de uso só possui valor de troca porque nele está corporificado, materializado, o trabalho humano abstrato. Como medir a grandeza de seu valor? Por meio da "substância criadora de valor" nele contida, o trabalho. A quantidade de trabalho, por sua vez, mede-se pelo tempo de sua duração, e o tempo de trabalho, por frações de tempo, como dia, hora etc. Se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho, poderia parecer que quanto mais preguiçoso e inábil um trabalhador, tanto maior o valor de sua mercadoria, pois ele precisa de mais tempo para acabá-la. Todavia, o trabalho que constitui a substância dos valores é o trabalho humano homogêneo, abstrato, dispêndio de idêntica força de trabalho em toda a sociedade. Essa abstração dos diversos trabalhos (que, pela redução de todos eles a uma única dimensão, permite quantificá-los como valor de troca) da sociedade se constitui pelo automovimento do mercado, isto é, pela concorrência entre as empresas que assim são forçadas a reduzir incessante o tempo de trabalho necessário para produzir as mercadorias e faz com que percam a competitividade e entrem em falência as empresas cujo tempo de trabalho das mesmas mercadorias ainda é maior.
Citemos um exemplo extraído de O Capital, de Marx: "Na Inglaterra, após a introdução do tear a vapor, o tempo necessário para transformar uma determinada quantidade de fio em tecido diminuiu aproximadamente de metade. O tecelão inglês que então utilizasse ainda o tear manual, continuaria gastando, nessa transformação, o mesmo tempo que despendia antes, mas o produto de sua hora individual de trabalho só representaria meia hora de trabalho social, ficando o valor de seu produto reduzido à metade". O que acontecerá com o tecelão que utiliza o tear manual? Não conseguirá vender o seu produto com o dobro do preço do mercado e por isso terá duas possibilidades: ou passará a utilizar o tear a vapor (ou um tear mais avançado) ou então terá de fechar sua tecelagem. "Quanto maior a produtividade do trabalho, tanto menor é o tempo requerido para produzir uma mercadoria, e quanto menor a quantidade de trabalho que nela se cristaliza, tanto menor o seu valor".
b) Limites históricos do trabalho abstrato & perpetuação do valor através destes limites
No decorrer histórico desse processo se reduz a um mínimo o quantum de trabalho necessário à produção de um objeto, mas unicamente, como objetivo imediato de cada capitalista, para que o trabalho valorize ao máximo esse objeto, conseguindo mais lucro. O capital - de maneira totalmente não premeditada - reduz ao mínimo o trabalho humano, o dispêndio de energia e, por isso, a quantidade de tempo de trabalho incorporado nas mercadorias se torna insignificante e consequentemente o valor.
O que permite às máquinas executar o mesmo trabalho que antes o trabalhador efetuava é a pesquisa e a aplicação de leis físicas, químicas, eletrônicas etc. - que dimanam diretamente da ciência e do conhecimento. Ou seja, quanto mais a riqueza efetiva se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado, mais depende de atividades que não podem ser reduzidas à abstração do tempo de trabalho, ou seja, mais depende de atividades inerentemente não quantificáveis, imprevisíveis e de duração indeterminada (por exemplo, o conhecimento que se manifesta na engenharia, na pesquisa, na concepção do produto etc.). Isso marca a passagem para a fase atual do automovimento do capital.
A emergência de atividades não quantificáveis como agente principal da produção força as empresas a encontrarem maneiras de conseguir lucro de forma desvinculada do tempo de trabalho. A única maneira de conseguir lucro nessas condições é através da oferta de mercadorias que não têm igual no mercado e que, por conseqüência, não têm concorrentes. Dessa maneira é possível dar um valor arbitrário às mercadorias, isto é, sem se pautar no tempo de trabalho socialmente necessário (que, como vimos, fornece um valor cada vez mais insignificante a elas, e assim, fornece lucros que tendem a zero ou até mesmo "menos-valia").
A atividade não abstratizável quantitativamente, cujos produtos não se enquadram, por definição, no tempo cíclico (ou seja, o ciclo infinito, mutuamente excludente e complementar, de destruição e criação do mesmo, que se realiza pela supressão do objeto pelo uso e a conseqüente reprodução do mesmo objeto para uma nova destruição e assim por diante), é incompatível com uma sociedade que tem a troca como fundamento de todas as atividades, isto é, incompatível com uma sociedade que tem no consumo, a destruição, a condição da produção. Assim, o primeiro passo do capital para se perpetuar nas novas condições por ele criadas consiste em forçar essas atividades não cíclicas a se condicionarem pela forma trabalho, enquadrando seus produtos no tempo cíclico de maneira totalmente artificial, obrigando-as que projetem e produzam mercadorias que se tornem rapidamente obsoletas: 1) seja pela invenção incessante de novas mercadorias; 2) seja pelo desgaste fisicamente programado do objeto (novos modelos de aparelho de som, por exemplo, são projetados para que tenham uma vida útil cada vez menor), ou enfim, 3) seja subjetivamente, introjetando na cabeça dos consumidores a obsolescência do objeto (por exemplo, a moda). Este último aspecto (com o desenvolvimento do condicionamento de atividades não cíclicas sob a forma de trabalho de marketing aplicado aos meios de comunicação) que é a introjeção do desgaste - propriedade eminente física e não mental - no pensamento, é particularmente brutal, pois pressupõe a manipulação incessante da percepção dos indivíduos, tornando a percepção de seus próprios desejos infinitamente fragmentada (tanto no tempo - na percepção do "antes, o agora e do depois" como sendo totalmente desvinculados entre si -, quanto no espaço, em meio ao fluxo fragmentário simultâneo e vertiginoso de mercadorias que se oferecem para "livre escolha"), fazendo dessa forma praticamente impossível que por meio da percepção, que perde sua unidade como experiência em profundidade do próprio indivíduo, os indivíduos (e assim a coletividade) possam produzir o conceito de seus próprios desejos e de sua vida, única condição para perceber as potencialidades do mundo e, por conseqüência, transformá-lo conscientemente. Reduzindo a vida à percepção, retirando dela todo conceito, essa introjeção literalmente coisifica os indivíduos, iguala a vida a objetos físicos, ou pior, mecânicos, pois as rodas dentadas, correias e roldanas têm um movimento indiferente para si mesmos, se conformando apenas à força de um motor, tal como os indivíduos conformam seus comportamentos e pensamentos ao fluxo de sucessão indiferente e inorgânica das modas pelas quais o tempo cíclico indispensável à autoperpetuação do capital se mantém, como motor primordial.
Já vimos que a manutenção do lucro na sociedade atual, ou seja, a atribuição de um valor arbitrário às mercadorias (o valor desvinculado do tempo de trabalho socialmente necessário) requer a ausência de concorrência na venda delas. Isso só é possível de três maneiras: 1) Monopolizando ao máximo a produção mundial de uma mercadoria (petróleo, por exemplo); ou 2) em meio a uma vertiginosa concorrência, oferecendo sempre novas mercadorias diferenciadas (fisicamente, objetivamente ou introjetadas subjetivamente) para roubar clientes de outras empresas, tornando estas incompetitivas no mercado (exemplo: novos modelos de televisão, de automóveis, de autômatos, de lanchonetes, novas modas de estilos de música etc.); ou ainda, 3) através do cassino do mercado financeiro mundial, que analisaremos mais adiante.
c) Os malabarismos da autoperpetuação do capital
Cada uma dessas três possibilidades são tendências simultâneas que se interpenetram em cada atividade econômica e mantém o automovimento de todo o sistema. Mas elas só funcionam na hipótese de que existam sempre compradores para as mercadorias.
Para compreender a dimensão deste último aspecto, façamos dele uma retrospectiva histórica.
O capital, para lucrar, busca sempre o aumento da mais-valia. É reduzindo os salários dos operários e aumentando a produtividade que ele aumenta os lucros. No entanto, se há aumento de produtividade e, simultaneamente, o poder de compra da massa dos consumidores permanece igual ou diminui, é evidente que em algum momento vai haver sobreprodução, quer dizer, produção de mercadorias que não podem ser vendidas, que não podem ser convertidas em valor de troca, em lucro, justamente pela falta de compradores. A superprodução, por sua vez, causa prejuízo e força as empresas a cortar custos, reduzindo salários e demitindo trabalhadores, diminuindo dessa maneira ainda mais a massa dos consumidores, num círculo vicioso. Isso se manifestou pela primeira vez de maneira radical na crise mundial da década de 1930, quando, em plenos EUA (que já tinha passado a ser o país onde o capital mundial mais se concentrou), toneladas de alimento "em excesso" eram incineradas diante de multidões de desempregados famintos.
Mas naquele tempo ainda era possível ao capital se recuperar da crise pelo desenvolvimento e aplicação generalizada de métodos de organização do trabalho que retomam a produtividade pelo emprego de força de trabalho de maneira mais intensa e extensamente temporizada e que, pela conseqüente elevação da taxa de emprego e pelo aumento dos salários (agora visto como necessidade para a reprodução do capital), aumentam a massa de consumidores e seu poder de compra. Essa recuperação da economia não pôde se dar pela espontaneidade do mercado, já que as empresas não conseguem lucros em meio ao círculo vicioso da depressão que possam ser usados no aumento de salários (pelo qual obviamente nem se interessam individualmente) e na elevação do emprego com a aplicação generalizada de técnicas de organização do trabalho. Superar a depressão só foi possível com uma economia de guerra, isto é, com forte intervenção estatal (que nos EUA sua preparação foi o chamado New Deal, cuja política econômica foi muito influenciada pelo economista inglês John Maynard Keynes), que, com o gasto deficitário do Estado (isto é, gasto do dinheiro que ele não possui, de dinheiro "virtual", gasto negativo) financiou o surgimento das diversas empresas que devem operar dessa maneira. Desse modo, o taylorismo, o fordismo aplicados a todas as atividades econômicas e o desenvolvimento da indústria automobilística e de eletrodomésticos foram, nos pontos geográficos onde o capital mais se concentrara, a solução para o problema da superprodução e do desemprego e consequentemente para a salvação do lucro. E as apostas financeiras "virtuais" no lucro futuro das empresas tiveram resultados positivos, tendo as teorias de Keynes basicamente se confirmado: o financiamento estatal deficitário cedeu lugar ao financiamento privado, por isto, os empréstimos governamentais às empresas foram pagos, sanando o déficit e repartindo parte da mais-valia com o Estado.
Se é com a economia de guerra que o capital se restabeleceu é porque a guerra foi também uma solução para a crise mundial. A Alemanha, na segunda metade da década de 30, fez desaparecer o desemprego através da produção de armas e da expansão de seu arsenal bélico. Os outros países logo seguiram o exemplo da Alemanha. E assim se formou o palco para a segunda guerra mundial. Com a guerra, e a imensa expansão do mercado mundial de armamentos que dela decorreu, o financiamento governamental deficitário da indústria armamentista permitiu aos EUA se recuperar da crise dos anos 30, e essas atividades de conteúdo puramente destrutivo são até hoje um dos principais motores da economia. A guerra exprime a racionalidade última da autoperpetuação do valor de troca que é a indiferença total às necessidades humanas, empregando desesperadamente todos os recursos possíveis para perpetuar sua autovalorização, sem nenhuma consideração pelo sentido e o conteúdo desses recursos. Assim, se por hipótese, cavar buracos para depois tapá-los produz empregos e assim aumenta a massa de consumidores, condição para o lucro, esse trabalho totalmente irracional e estúpido para o ser humano nada mais é do que a expressão da racionalidade suprema do valor de troca - a ditadura da forma sobre o conteúdo.
O fim da crise dos anos 30 só foi possível porque a exploração do tempo de trabalho abstrato ainda não havia se esgotado, isto é, os bens de consumo, naquela fase da composição técnica do capital, ainda permitiam e exigiam um extenso emprego de força de trabalho. Com o atual desenvolvimento e crescente generalização da microeletrônica, da informática e da automação, porém, algo bem diferente acontece.
Na medida em que essas tecnologias, que tornam realmente insignificante o tempo de trabalho socialmente necessário, vão ocupando o lugar das antigas máquinas, a massa de consumidores vai declinando, por causa do desemprego em massa que elas inevitavelmente acarretam.
Vejamos como o automovimento do capital mundial vai tentando contornar os efeitos desastrosos que isso ocasiona.
Cada país (e empresa) tenta transferir o problema, o excedente da oferta em relação à procura, para os outros. Este processo é o que se chama "globalização". Analisemo-lo.
Para evitar o desemprego nos países onde a concentração do capital mundial é maior (ou seja, para evitar a emergência de uma crise de superprodução nos próprios centros nodais da trama mundial do capital), e nos quais a nova composição técnica do capital primeiramente se generaliza, o capital transfere as atividades que ainda se calcam exclusivamente no tempo cíclico (que, como vimos, cada vez menos valorizam as mercadorias) para países ou regiões onde o preço da força de trabalho é no mínimo tão insignificante quanto o valor que elas incorporam nas mercadorias (única condição de evitar que os custos em tempo de trabalho sejam maiores do que o valor que ele produz), mas isso é uma ironia do destino (ou, hegelianamente falando, uma astúcia da história), pois as empresas fazem essa transferência com a finalidade subjetiva, entre outras, de expandir a massa de consumidores e seu poder de compra para os outros países, isto é, para gerar os compradores que escoarão sua produção. Com essa transferência, a redução de salários e o desemprego são evitados nos países "avançados" empregando uma parte crescente de sua população nas atividades não cíclicas (engenharia, pesquisa, concepção, design, por exemplo) e gerando um mercado calcado nessa trabalhização das atividades não cíclicas, o chamado "setor de serviços" (de que já iniciamos uma primeira investigação acima), para escoar ao máximo possível a produção.
No entanto, um valor que se produz sem o tempo de trabalho socialmente necessário (que como vimos é uma necessidade da autoperpetuação do capital acarretada pelo surgimento de atividades não abstratizáveis como o agente principal da produção em substituição do trabalho cíclico) requer a elevação da concorrência a velocidades vertiginosas por meio da oferta incessante de sempre novas ou diferenciadas mercadorias. Os resultados dessa batalha entre mercadorias, em lucros ou prejuízos às empresas, se tornam cada vez mais imprevisíveis, e por isso, as empresas se tornam cada vez mais instáveis (gerando desemprego etc.). Para sobreviver a essa turbulência, o capital gera uma esfera mundial que permita que o valor se torne tão flexível e abstrato que pode fluir incessantemente de uma empresa para outra (isto é, sem se esvair na instabilidade de cada empresa) conforme seus resultados reais ou imaginados possíveis. Isto levou à expansão mundial do mercado financeiro, no qual cada empresa coloca sua mais-valia, a divide e vende sob a forma de ações ou títulos, cujos proprietários recebem dividendos conforme os lucros da empresa. Ao mesmo tempo, a compra de ações se torna a principal maneira de financiamento das empresas, que, em meio à turbulência e instabilidade da concorrência não podem por si só, isoladamente, se financiar. Neste último caso, as ações são compradas (e assim uma quantidade de dinheiro é conseguida) sem que qualquer mais-valia real tenha se realizado, pois as empresas vendem ações (no caso, empréstimos) com a finalidade de captar dinheiro para, com ele, produzir lucros reais no futuro. O preço de cada ação é determinado pela oferta e pela procura, e esta é orientada pelo volume de vendas das ações de cada empresa, expresso num índice publicado a todo o momento, ao fim de cada venda, em painéis eletrônicos. Por fim, o volume total de vendas de ações em cada uma das sedes do mercado financeiro mundial (bolsas de valores), estabelecidas nos principais pontos de concentração do capital do planeta, têm também seu índice (traduzido em pontos percentuais negativos ou positivos) publicado diariamente nos painéis eletrônicos de todas as outras bolsas do mundo e orienta desse modo a procura por ações lucrativas ou a fuga de ações não-lucrativas, e assim o fluxo ultra-acelerado de valores através de todo globo terrestre.
É óbvio que esse pesado e intrincado aparato mundial levou a perpetuação do valor a formas cada vez mais "etéreas", "nubladas" e "fugidias". E a palavra da moda passou a ser "virtual": "economia virtual", "mundo virtual", "sociedade virtual". Os tão adorados quanto estúpidos "gurus" dos anos 80 e 90, que lucraram milhões com seus best-sellers de auto-ajuda, chegaram a falar de "espiritualização" da economia e, como sempre, declararam que vivemos no "melhor dos mundos", acrescentando, os mais fanáticos, que hoje presenciamos a própria realização do "reino de deus na terra" e o "fim da história". E, de fato, o desenvolvimento desse aparato culminou numa espécie de psiquização do valor, quer dizer, sua autovalorização passou a depender mais de temores e esperanças dos investidores do que da valorização sob a forma de produção, temores e esperanças que além do mais eram e são insuflados principalmente pelo "insight virtual" dos analistas econômicos, tão "guruificados" quanto os vendedores de best-sellers. Apenas três motores movem as bolsas: notícias que afetam os lucros futuros; fé que o preço do título amanhã será mais alto do que hoje, ou negócio na moda cujo preço subirá hoje porque subiu ontem. É evidente que isso não tarda a criar um crescente acúmulo de "bolhas financeiras" cujo resultado será um estado de crise que hoje se agrava sem parar, inclusive nos países "desenvolvidos".
Voltemos agora aos países ou regiões para onde o capital transferiu o trabalho exclusivamente abstrato, os países chamados emergentes ou subdesenvolvidos. A aceleração mundial da concorrência levou ao desenvolvimento cada vez mais acelerado da microeletrônica, da informática e da automação, tornando dessa maneira o tempo de trabalho socialmente necessário ainda mais insignificante para a autovalorização do capital, ou seja, os operários, mesmo com os baixos salários nesses países, se tornaram cada vez mais "impagáveis". Resultado: taxas de desemprego crescentes. Além disso, a concorrência com as novas tecnologias arrasou as industrias incipientes desses países, sendo que as únicas que conseguem sobreviver são imensos monopólios estatais ou privados (empresas de geração de energia elétrica, de extração de minérios, de petróleo etc.). A economia informal, que sempre caracterizou esses países, se intensificou a tal ponto que surgiram máfias intercontinentais (por exemplo, o narcotráfico e a máfia chinesa, que controla grande parte do contrabando mundial) e uma infinita ramificação de máfias passa a controlar boa parte da economia (máfia dos transportes, dos hospitais, dos pontos de comércio ambulante, da política, da polícia etc.). Essa barbárie em que mergulha crescentemente esses países revela que o capital encontra modos de intensa autovalorização mesmo onde menos se espera, no caso, recuperando o lucro sobre o tempo de trabalho socialmente necessário através da produção de mercadorias que se valorizam, não mais pelo trabalho sobre a natureza, mas pelo trabalho através e contra as estruturas institucionais e jurídicas do próprio capital. (por exemplo, segundo dados da Organização das Nações Unidas, o tráfico mundial de drogas movimenta um volume superior a US$ 500 bilhões. Esta cifra supera os proventos do comércio internacional de petróleo, fazendo do narcotráfico o segundo item do comércio mundial, só sendo superado pela industria bélica, com 800 bilhões, em 1996).
Mas o colapso do mercado financeiro, com seu crescente estouro de "bolhas", estende dia a dia a barbárie em que vive os países "subdesenvolvidos" para os países "avançados".
Só para se ter uma noção disso, hoje, nos EUA, o principal pólo de concentração do capital mundial, os cada vez mais numerosos desempregados que enveredam por comportamentos ditos desviantes (ou seja, que não aceitam mais os trabalhos cada vez mais precários que a ditadura democrática da mercadoria, mediante o desemprego estrutural, os força em troca da simples sobrevivência) são "acolhidos" em prisões (com um total de dois milhões de presos, o dobro de dez anos atrás, constituindo a maior população carcerária do mundo em proporção ao total de habitantes, e que equivale a um quarto de toda a população carcerária do planeta, segundo dados oficiais) cujos custos ultrapassam os do orçamento para a Educação (o sistema penitenciário americano tornou-se o terceiro maior empregador do país, com 650 mil empregados, enquanto a Microsoft, símbolo máximo da "nova economia", tem míseros 24.000). Nos Estados Unidos, o mundo da liberdade de empresa logo entendeu que um prisioneiro não pode viver a expensas do Estado, e que ele deve trabalhar para não ser um peso para a economia. Por definição, se o prisioneiro trabalha, se transforma num escravo, e além do mais, pode ser muito rentável. Por um salário puramente simbólico, os detidos/escravos são forçados a trabalhar, seja sob a cobertura de "programas de reabilitação" ou sob a ameaça de severas penas e de prolongamento da condenação. No Oregon, a marca de calças jeans Prison Blues prevê a realização de um volume de negócios de l,2 milhões de dólares por ano. Em outras regiões, como o Texas, Louisiana, Arkansas, o Estado obriga os presos a trabalharem nos campos, sem pagamento algum, sob o controle da cavalaria armada. Além disso, a ditadura da liberdade e igualdade abstrata da mercadoria nunca tinha sido tão bem materializada fisicamente como nas atuais transformações urbanas dos EUA. Nunca o meio onde vive o homem esteve tão abarrotado de limites: barreiras, guetos, alambrados, sistemas de alarmes, câmeras, grades, muros, policiais, sirenes (nos EUA, a segurança privada custa mais do que o orçamento da Administração Interna). O conjunto do panorama urbano se apresenta cada vez mais como um imenso cárcere. Encerrados em bairros ou condomínios fechados e fortemente vigiados, entrincheirados em mansões que mais parecem prisões orwellianas, os capitalistas se protegem da massa crescente de desempregados.
Mas voltemos à questão da crise mundial.
Se, como vimos, a aceleração desenfreada da concorrência, mediada pelo imenso aparato financeiro, o único modo de realização do valor através da trabalhização de atividades não cíclicas, leva à instabilidade e, por fim, à falência cada vez mais generalizada de todas as empresas que se baseiam nessa trabalhização, sobrevivem, porém, os monopólios, e assim ocorrem fusões atrás de fusões para salvar o pouco que resta de fonte de valor, e começam a se generalizar guerras para monopolizar mundialmente os recursos naturais (que são as mercadorias que mais se adaptam à monopolização), por exemplo, guerras (financiadas, keynesianamente, pelo gasto estatal deficitário) para açambarcar o petróleo, gás natural, diamante, minérios etc.. Neste ponto, a África é a região mais "avançada" do planeta, pois a guerra generalizada e permanente pela monopolização de minérios (principalmente pedras preciosas), disfarçada de "conflitos étnicos" (ou de "choque de civilizações") para arregimentar a população e executar a matança, é uma realidade permanente há dezenas de anos.
FALSIDADE HISTÓRICA & REVOLUÇÃO SOCIAL
O que se evidencia em nossos tempos é que não há limites estabelecidos pelo próprio automovimento do capital que, por si mesmos, determinem uma automática superação por uma outra sociedade, mas que, após o tempo de trabalho ter se tornado insignificante na produção, o capital inevitavelmente passa a se perpetuar num estado de crise permanente que leva à matança crescente da humanidade não apenas pela fome, pela guerra e pela violência generalizada, mas também pela destruição da condição primária de sua própria de existência física, a natureza.
Por exemplo, é perfeitamente possível que a formação de monopólios mundiais, cujas mercadorias sempre têm um valor ao máximo possível arbitrário e, portanto, também seus lucros, permitam que se empregue a massa dos desempregados, por exemplo, para cavar e tapar buracos sem parar, principalmente através da demanda por armamentos que, no caso das guerras por monopólios se generalizarem, poderá "reaquecer" a economia mundial. Por outro lado, é também possível que, no caso de a crise se consumar completamente nos pontos de concentração mundial do capital, a economia de máfia do chamado terceiro mundo, caracterizada pela pura e simples barbárie em todas as relações mercantis, seja implantada no resto do planeta. E assim do mesmo modo o capital mundial continuaria se valorizando, podendo até mesmo, mais uma ironia do destino, realizar o sonho dos terceiromundistas antiimperialistas de que grupos econômicos oriundos de seus países dominem o mercado mundial e controlem finalmente os tão malvados "países imperialistas".
O que também se observa na autoperpetuação do capital após o fim da significatividade do tempo de trabalho é que o autodesenvolvimento do capital se torna ainda mais independente das finalidades daqueles que efetivam esse movimento, levando a economia (e consequentemente também o Estado, que ela cria como necessidade para seu funcionamento), que já em si mesma consiste na elevação das coisas à independência com relação àqueles que as efetuam (isto é, a economia enquanto tal consiste no fetichismo concreto da formação da história como atributo exclusivo das coisas, deslocando o tempo cíclico, a sobrevivência, a pré-história, como atribuição da humanidade), a uma autonomia sem precedentes, a uma subsunção ainda mais extrema da humanidade informe no seu automovimento.
Isso porque a perda da significatividade do tempo de trabalho abstrato na produção destrói a base material que antes fazia do proletariado uma classe que, no próprio fundamento essencial da valorização, a produção, se opunha necessariamente à valorização, e que, no conseqüente desenvolvimento da luta de classes, emergia como limitador e condicionador (ou mesmo como negador) do automovimento do capital. Com a dissolução da base material da qual esse antagonismo retirava sua força, o próprio capitalista também se encontra totalmente submerso no automovimento do capital e não existe nem mesmo para si e para os outros senão como o que realmente é: um meio para autovalorização das coisas.
Assim, definitivamente, uma possível superação do atual estado de coisas não pode mais ser buscada nas condições materiais cegas e nas oposições que em seu interior são gestadas. O conceito do proletariado como classe revolucionária não pode mais ser mantido como algo dado, feito, isto é como categoria meramente sociológica do capital. A única condição para a superação é a emergência da consciência como momento essencial da praxis. Ou seja, não se trata de um "ideal" a ser realizado, mas de, diante da falsidade real e crescente da perpetuação da sobrevivência, concretizar a verdade que se gestou nessa perpetuação e a torna falsa: se o trabalho é crescentemente suprimido, não existe mais sentido em tentar mantê-lo sob as inúmeras formas totalmente falsas que analisamos (e que levam inevitavelmente, como vimos, à barbárie crescente), ou seja, não existe sentido em perpetuar artificialmente o trabalho (que já crescentemente não existe) como única condição para o homem alcançar seus meios de vida. Consequentemente, a própria perpetuação do dinheiro e do mercado se torna a falsidade das falsidades.
Se antes não bastava que o pensamento buscasse a realidade, pois só podia se tornar utopia, ideologia, complementação ilusória de um mundo miserável, agora é a realidade que busca o pensamento e faz dele a única condição para não se ver falsificada até a sua completa desintegração, ou seja, até a destruição total da humanidade e de seu mundo.
Este esforço de conceituação que tens em mãos não é assinado. Nas inéditas e surpreendentes condições históricas atuais, o pensamento que se empenha na contemplação (seja acadêmica ou não) do mundo só encontra a mentira e a falsidade, e só pode ter a ilusão da reforma desse mundo mentiroso e falso. Irreversivelmente, urgentemente, inadiavelmente, o pensamento que busca a verdade só pode encontrá-la na transformação radical do mundo, e esse mundo em transformação não pode de forma alguma ser reduzido ou identificado ao esforço miserável de um indivíduo ou de um grupo.
Além disso, ao longo desta investigação torna-se evidente que qualquer recorrência ao Estado (eleição de ditadores democráticos "benevolentes" ou estatização da economia) ou a qualquer potência exterior ("heróis salvadores", seitas moralistas/milenaristas, instituições mundiais ou locais pelos "direitos humanos" etc), apenas intensifica esse poder externo e a capacidade de autoperpetuação do capital, ou seja, da crise. Só podemos contar com nossos próprios atos e nossos próprios pensamentos e, portanto, com a capacidade de, com eles, formar uma comunidade autônoma mundial capaz de realizar a transformação do mundo.
Nada disso é fácil. Primeiro porque o pensamento é, por definição, não a reprodução de doutrinas ou pensamentos que alguém pensou, mas o confronto incessante entre o que é o dado e suas potencialidades, formando os conceitos sem os quais a praxis revolucionária não é possível, sem os quais o mundo que faz dos seres humanos objetos se perpetua na submissão dos seres humanos aos seus movimentos coisificados, cegos. A distância que medeia entre a sobrevivência, a concorrência de todos contra todos, a qual hoje todos nós somos obrigados a participar e que é simplesmente o único meio atual de nós comermos, e a capacidade de pensar esse mundo e assim transformá-lo, é imensa. Há sérias razões para sermos pessimistas. Mas se queremos ser sinceros com nós mesmos, não podemos deixar de pensar e agir e estimular os outros a pensarem o mundo que faz de nós todos meros objetos.
É preciso lembrarmos que, inevitavelmente, cada um de nós vai morrer, é preciso pararmos de rodar nesse círculo sem fim que nos traga violentamente para o rodamoinho da morte em vida, da sobrevida, da sobrevivência. Viver não é fazer o que já se sabe, não é fazer o que já foi feito. Viver requer pensar e pensar é mergulhar no desconhecido, no irrepetível, no tempo radical. Porque fazer é projetar-se numa situação futura que se abre por todos os lados em direção ao desconhecido, que não podemos, pois, possuir de antemão em pensamento, mas que só podemos alcançar supondo como definida no que diz respeito às decisões atuais. Só assim encontraremos novas situações e poderemos nos realizar nelas, transformando-as.
Obras consultadas:
? de Guy Debord:
- A sociedade do espetáculo
? de Fredy Perlman
- A reprodução da vida cotidiana
? de Karl Marx:
- Grundisse (trechos: Fragmento sobre as máquinas e Formações econômicas pré-capitalistas )
- O Capital - crítica da economia política
- A ideologia alemã (primeira parte)
- Teses sobre Feuerbach
- Manuscritos econômicos e filosóficos
- Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel
? de Gyorgy Lukács:
- História e consciência de classe
(trecho: A consciência de classe)
- Velha e nova cultura
? de Hegel:
- Fenomenologia do espírito
? da Escola de Frankfurt:
- Dialética do esclarecimento (Theodor Adorno/Max Horkheimer)
- Filosofia tradicional e teoria crítica (Max Horkheimer)
- Origens da filosofia burguesa da história (Max Horkheimer)
- Razão e revolução (Herbert Marcuse)
? de Jean Barrot e/ou François Martin:
- Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista
- Fascismo e antifascismo
? de Max Weber:
- A ética protestante e o espírito do capitalismo
? de Maurice Brinton:
- A Revolução Russa
? de Paul Lafargue:
-O direito à preguiça
? do Coletivo Rete Operaia (Precari Nati):
- Notas sobre a autonomia operária na Itália
? do Grupo Comunista Internacionalista:
- Características Gerais das Lutas da Época Atual
- Contra o Mito dos Direitos e das Liberdades Democráticas
? de Kaos:
- O Mito do Socialismo Cubano
- A Liberdade Capitalista é a Escravidão Assalariada!
- Atividade Humana contra o Trabalho
? de Kick it Over:
- Comunismo de Conselhos
? de Eduardo Viveiros de Castro
- Araweté - os deuses canibais
? de Pierre Clastres
- A sociedade contra o Estado
? de Edgar Morin
- O Enigma do Homem
? de Cornelius Castoriadis
- A Instituição Imaginária da Sociedade
Publicações várias:
? MaisHumana - Nº2 - ABRIL/MAIO 2001
- A miséria atrás das grades
? Revista Forum:
-Máquina de moer gente
? M&H:
- Enfim, estamos a livrar-nos do trabalho!
? Revista eletrônica Janela da Web
- diversos textos reunidos em http://www.janelanaweb.com/crise/crise.html
? Revista Krisis:
- Artigos reunidos no livro Os Últimos Combates (Robert Kurz)
- O que é o valor ? A que se deve a crise ? (Norbert Trenkle)
- Debate - Fim de século: um balanço (Antonio Carlos Mazzeo, Boris Kagarlitsky, Elmar Altvater, Ernest Mandel, Giacomo Marramao, Jacob Gorender e Robert Kurz)
? Jornais diversos de consumo de massa ? Jornais diversos de consumo de massa