Perto do final do seu programa na noite de quinta-feira (13/11), o apresentador Gilberto Barros deixou escapar um preconceito vergonhoso, mas bastante comum, contra as regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Durante a entrevista com o ex-jogador de basquete Oscar Schimidt, Gilberto falava das dificuldades que o atleta teve que superar para obter o sucesso profissional. A primeira dificuldade (e única citada, já que ele mudou de assunto, estranhamente, como se tivesse sido alertado pela produção do programa) a que o apresentador se referiu foi que Oscar "nasceu lá em cima". Não mencionou a cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, cidade natal do ídolo do basquete brasileiro.

Se alguém falasse que Gilberto Barros "apesar de ser gordo, conseguiu ter sucesso na vida", provavelmente seria processado pelo apresentador, que costuma praticar um falso moralismo mal disfarçado, beirando o chauvinismo.

Este fato é a expressão de um gravíssimo preconceito que, apesar disso, é muito comum nas regiões sudeste e sul. No Rio de Janeiro, os nordestinos ou nortistas são geralmente chamados de "paraíba". Em São Paulo há até crimes praticados contra pessoas comuns pelo simples fato de serem nordestinas.

Desde o ano passado está em curso a campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania", que visa fiscalizar e denunciar o lixo exibido nas TVs.

Coordenada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, a campanha conta com a participação de centenas de entidades espalhadas pelo país. Os conteúdos de baixo nível são denunciados pela população, verificados e catalogados num ranking que é divulgado mensalmente e enviado aos anunciantes dos programas, como forma de questionar o papel das empresas ao patrocinar tais programas que desrespeitam a cidadania e os direitos humanos.

O episódio relatado acima já foi denunciado, de forma gratuita, pelo telefone 0800-619 619, que funciona das 8h às 20h, de segunda a sexta. O atendimento é simples e rápido.

***Qualidade técnica é inversamente proporcional à qualidade ética***

Os programas da TV brasileira, em sua maioria, têm como marca a pobreza de criatividade e de inteligência. Especialmente os canais comerciais abusam dos clichês e apelos do senso comum. Além disso, copiam-se uns aos outros sem pudor algum de assinarem o próprio atestado de mediocridade. Os recursos técnicos - que estão entre os mais sofisticados do mundo - servem para esconder a escassez de inteligência e a banalização dos valores éticos da sociedade.

A ordem vigente é a "espetacularização" de todos os aspectos da vida, como estratégia de aumentar a audiência e, assim, vender o público aos anunciantes.

Na lógica da TV, têm espaço garantido aqueles que vendem melhor os produtos e os valores do mercado, vendendo às vezes a própria dignidade em troca de melhores salários e cargos.

O sistema de radiodifusão brasileiro é praticamente todo baseado no modelo privado. Ao contrário de outros países, especialmente os europeus, os modelos público e estatal são insignificantes no Brasil.

O termo público serve apenas de alegoria na radiodifusão, uma vez que as concessões "públicas" são totalmente apropriadas de forma privada por grupos políticos e empresariais que não têm nenhum compromisso em prestar contas à sociedade.

Qualquer menção aos conceitos de "controle público" ou "controle social" dos meios de comunicação são rotulados, de forma enganosa, de censura. A mídia, através de seu discurso, defende que todas as instituições da sociedade sejam controladas e fiscalizadas pela sociedade, exceto ela própria (a mídia). A auto-regulação e a auto-regulamentação são as palavras mais doces para os empresários da comunicação.

No caso brasileiro, a situação fica ainda mais grave quando se constata que menos de uma dezenas de famílias ou grupos detêm o controle de mais de 90% da produção e da difusão da informação e do entretenimento midiático do país.

Para 2004, a Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), entidade que articula dezenas de centros e diretórios acadêmicos dos cursos de Comunicação no país, pretende desenvolver uma campanha nacional contra a renovação automática das concessões de rádio e televisão. Na prática, a renovação das concessões de TV (a cada 15 anos) e de rádio (a cada dez anos) é automática. Isto porque a não renovação depende do voto nominal de 3/5 do congresso nacional (cerca de 350 parlamentares, entre deputados e senadores). É mais fácil acreditar em duendes do que acreditar que trezentos parlamentares diriam NÃO à renovação de uma concessão de emissora filiada à Globo ou a qualquer outra grande rede. Isso fica mais óbvio ainda quando se sabe que os políticos (com mandato ou não), especialmente do PFL, PMDB, PSDB e PTB, possuem mais de 90% do total de concessões de emissoras.

A campanha da ENECOS, que deve receber adesões de outras entidades, pretende questionar a legislação e instigar o debate para a sua mudança. Diversas atividades estão sendo planejadas. Outras informações podem ser obtidas através do portal (www.enecos.org.br) e do endereço eletrônico da ENECOS ( enecos@enecos.org.br).

*Rogério Tomaz Jr. é jornalista, ex-integrante da coordenação da ENECOS e já fez a denúncia do programa do Gilberto Barros para a campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania".