Muito se tem especulado, e um sem número de artigos e livros foram escritos, na tentativa de explicar um dos mais inusitados acontecimentos da história da humanidade. Trata-se do completo e total colapso de um império que mantinha seu poderio militar intacto e sua elite formalmente no poder.

Isso simplesmente não tem nenhum precedente. Nenhum dos muitos “profetas” da ordem política ou econômica foi capaz de prevê-lo. Os serviços secretos de todo o mundo foram pegos de surpresa. Dizia-se, em tom de galhofa, que os agentes da CIA só perceberam a queda do muro de Berlim, quando alguns tijolos caíram em suas cabeças.

Em todos os casos em que impérios se desfizeram, isso decorreu de uma sucessão de derrotas militares, sangrentas guerras civis ou rebeliões em massa que as elites, divididas e decadentes, não tinham mais como controlar. O próprio fim do czarismo ocorreu dessa maneira.

A partir daí, surgiram várias hipóteses, algumas baseadas na realidade e outras em puro delírio. A crise seria ou econômica, ou política, ou derivada dos conflitos entre nacionalidades. Mikhail Gorbachev foi visto simultaneamente como herói da liberdade e como reformador desastrado e estrategista incompetente.

Outros atribuíam a Margaret Thatcher e a Ronald Reagan a elaboração da estratégia da “vitória” na guerra fria. Em outras palavras, a URSS teria tombado diante da “determinação” dos líderes do “mundo livre” em enfrentá-la. Pura fantasia.

Em todos esses casos, analisam-se os problemas estruturais da URSS e não do socialismo em si. A visão estratégica de Henry Kissinger, com sua “Realpolitik” (política “realista”), ensinou a várias gerações de analistas e estrategistas, o conceito de que a URSS era um império como outro qualquer. O socialismo não passava de um sistema de propaganda para justificar os objetivos geopolíticos da superpotência.

Acredito, como Fukuyama, que essa idéia estava profundamente equivocada. Ao contrário dos Estados do “mundo livre”, a URSS era de fato o produto de uma experiência política e econômica de cunho iluminista e uma utopia profundamente “ocidental”. Isso significa que a ideologia era um componente fundamental na lógica do sistema. Não se tratava de simples retórica.

Então o que de fato ocorreu? Teria havido de fato um colapso econômico e/ou político da União Soviética em si ou do sistema socialista, enquanto ideologia, capaz de sustentá-la? É óbvio que tudo aponta para a segunda hipótese.

Em outras palavras, a crise que se abateu sobre a organização social, política e econômica da URSS não foi uma crise do Estado soviético, e sim uma crise irreversível da crença na viabilidade do socialismo. Essa crise se deu a partir das próprias elites do sistema. Isso explica o aparente absurdo de um Estado poderoso “implodir” por iniciativa de seu próprio povo.

Para entendermos melhor essa questão, devemos nos ater ao pouco estudado “paradoxo da tecnologia” que se instalou na antiga URSS. Devemos nos lembrar que Vladimir Lênin, Joseph Stalin e Nikita Kruchev obtiveram enormes êxitos em vários sentidos.

Além de industrializar o país, derrotar a Alemanha nazista em uma guerra que exigiu enormes esforços de produção industrial e tecnológica, ainda tiveram fôlego para alcançar os Estados Unidos e a Grã-bretanha na corrida nuclear e ultrapassá-los na espacial.

Por algum tempo, parecia que a URSS logo ultrapassaria o mundo capitalista em termos de produção e avanço tecnológico. Mas na era de Leonid Brejnev, o país subitamente estagnou. Seu desenvolvimento científico e tecnológico se congelou e, ao contrário da crença de alguns estudiosos, todos pouco familiarizados com as ciências exatas, isso se estendeu inclusive ao setor militar estratégico.

Nas palavras de Fukuyama: “As experiências da união Soviética, da China e de outros países socialistas indica que, embora economias centralizadas sejam suficientes para atingir o nível de industrialização representado na Europa dos anos 1950, são aflitivamente inadequadas para criar aquilo a que se chama economias ‘pós-industriais’ complexas, nas quais a inovação tecnológica desempenha um papel muito maior”.(24)

Quem é do ramo, sabe que a partir dos anos 1970, um dos grandes negócios para as empresas de alta tecnologia do ocidente, incluindo-se a promissora e futuramente decisiva área de microeletrônica, era o “contrabando” de tecnologia para o “mundo comunista”.

Circuitos integrados LSI (integração em larga escala), de diversos modelos e funções, eram fabricados nos EUA e repassados, por vias das mais tortuosas, para serem “rebatizados” no leste europeu como se fosse produção “local”.

Em alguns casos, os códigos originais da Fairchild e da Motorola, por exemplo, eram usados sem cerimônia, mesmo pelos técnicos do complexo industrial-militar da URSS. Em resumo, uma superpotência nuclear e pioneira na conquista do espaço era obrigada a comprar “chips“ em mercados varejistas, como qualquer técnico de manutenção autônomo.

Existem até mesmo alguns episódios meio cômicos. Em 1981 a CIA soube por meio da França que a KGB, a polícia secreta soviética, havia criado uma divisão especial para furtar tecnologia ocidental. Segundo Thomas Reed, na época secretário da Força Aérea e membro do Conselho de Segurança Nacional, o presidente Reagan teria ordenado a venda de tecnologia com defeito para os soviéticos. Em 1982, um programa de computador “maroto” acabou fazendo explodir um gasoduto na Sibéria, com enormes prejuízos, felizmente não houve vítimas...(25)

O fato é que homens como Andei Tupolev (excepcional projetista de aviões), Mikoyan e Gurevich (autores do fabuloso MiG 21), Mikhail Kalashnikov (o projetista da arma mais usada no mundo) ou Andrei Dimitrievich Sakharov (o pai da bomba de hidrogênio soviética), subitamente desaparecem na era da informática.

Enquanto os êxitos dos computadores e seus heróis pioneiros eram celebrados nos EUA, Europa ocidental e Japão, a impressão que passava era que a URSS tornara-se incapaz de desenvolver essa tecnologia. A microeletrônica aparentemente era incompatível com o socialismo. Por que?

A explicação está no fato de que esse tipo de tecnologia não só exigia iniciativas de cunho individual, mas também tinha a propriedade de tornar-se um instrumento de difícil controle por parte de estados totalitários. As patéticas tentativas contemporâneas da China, Irã, Cuba e Arábia Saudita, por exemplo, para “domar” a internet representam a materialização dos temores dos planejadores soviéticos da época.

Isso têm precedentes claros. Quem era radioamador nos anos 1970, ficava surpreso ao descobrir que essa atividade praticamente não existia em países socialistas. Com um pouco mais de pesquisa, descobria-se que os cidadãos desses países eram proibidos, por leis rigorosas, de possuir receptores de rádio de ondas curtas.

Sinais de rádio e televisão do ocidente sofriam estranhas “interferências” nesses países. O que isso significava? É simples. As autoridades comunistas não temiam o falatório chato e dogmático das emissoras do “mundo livre”. Para isso, dispunham de um formidável monopólio de mídia para “desmascarar” as críticas a suas políticas. Temiam a tecnologia de comunicações e informática em si.

Como os imperadores chineses do passado, que ordenaram a destruição de seus próprios navios de longo curso, os burocratas soviéticos temiam os impactos de novas tecnologias sobre a “harmonia” de seu mundo. Sabiam que não poderiam controlar nada parecido com a internet, embora isso ainda não existisse.

Numa sociedade sem incentivos à criatividade, e em que a iniciativa individual era vista com grande suspeita, um microcomputador era uma enorme ameaça. Sabemos que a IBM entrou em pânico ao perceber que os “micros”, se ligados em rede, poderiam substituir com vantagens os seus gigantescos “mainframes”.

A IBM na época, era o que mais se aproximava de uma organização soviética. Toda a tecnologia era tratada de forma altamente burocrática. O pessoal de software jamais se aproximava de um equipamento alem dos seus terminais. Os engenheiros de hardware viviam em seu próprio mundo, sem contato com os programadores e menos ainda com os usuários.

Mas, diante da ameaça iminente, esses sisudos burocratas foram obrigados a confraternizar com uma nova geração de “figuras”. Mistura de hippies com “cientistas malucos”, que se caracterizavam pela excentricidade, pelo individualismo e pela indisciplina, essas pessoas formavam o núcleo da nova revolução tecnológica.

Na URSS, isso era impensável. Cientistas deviam ser solidários com o proletariado. Eles deveriam apenas sentirem-se motivados pela causa da construção do socialismo. Nada de jovens malucos com motocicletas barulhentas e hábitos pouco ortodoxos. E principalmente, nada de recompensas materiais que fugissem ao padrão igualitário e nivelador.

Isso foi fatal. Enquanto as sociedades capitalistas cumulavam seus “gênios” com todo tipo de bens de consumo e reconhecimento público, o sistema socialista reprimia com vigor qualquer demonstração de individualismo. Tratavam todos os mais capazes e talentosos como potenciais traidores.

Artistas e esportistas excepcionais, iniciaram um processo de “deserção” que logo foi seguido por profissionais altamente qualificados. O sistema reagiu com medidas draconianas. Qualquer pessoa talentosa tinha enormes dificuldades para viajar para fora do seu “paraíso proletário”. Quando o faziam, eram vigiados muito de perto, seus familiares mais próximos, tornavam-se verdadeiros reféns.

Mesmo assim, as “deserções” de escritores, cientistas, músicos, bailarinos, boxeadores, enxadristas, jogadores de basquete, técnicos em eletrônica e até militares, continuavam em escala crescente. No ocidente se acreditava que fugiam da “opressão” para a liberdade. Para os dirigentes comunistas, eram traidores, atrás apenas de recompensas materiais.

Ambos estavam errados. Essas pessoas procuravam acima de tudo o “reconhecimento”, a satisfação do “thymos” de fala Fukuyama. Isso os Estados de estilo soviético não poderia jamais lhes oferecer. Essa é de fato a contradição insolúvel do socialismo. Quanto mais bem sucedido é um indivíduo, menos ele se sente satisfeito apenas com a segurança material.

Os pioneiros da tecnologia e da arte soviéticas, se sentiam como revolucionários. Viam a si próprios como homens e mulheres em permanente desafio. Era isso, e não possíveis benefícios materiais, e menos ainda a glória coletiva personificada pelo Estado todo poderoso, sua verdadeira motivação.

As novas gerações, ao contrário, se viam em meio a um sistema burocrático e castrador. Intelectuais e cientistas deviam compartilhar com camponeses semi-analfabetos, as crenças ingênuas pregadas por burocratas cada vez mais incompetentes e corruptos. É daí que surge o paradoxo. Sem ter como satisfazer seu desejo de reconhecimento, pessoas brilhantes mergulhavam na mediocridade e na rotina.

Pintores, compositores, cineastas e escritores se dedicavam a recriar sempre as mesmas coisas. Cientistas se dedicavam a “provar” teses já definidas de antemão. Intelectuais se esquivavam de novidades “perigosas”. Administradores e técnicos temiam inovações que pudessem ser consideradas como “contra-revolucionárias”.

Decisões sobre alocação de recursos e produção não tinham de ter nenhuma relação com as necessidades reais da população. A economia se orientava pela política e não pelo desprezível mercado. Ignorava-se solenemente o fato de o “mercado” poder refletir as reais necessidades do povo.

“Ficou provado que a complexidade das economias modernas estava, pura e simplesmente, além das capacidades de gestão das burocracias centralizadas, qualquer que fosse o nível de seu avanço tecnológico”.(26)

Um velho inimigo da civilização ocidental fez sua reaparição triunfal. O domínio da “fé” revolucionária, sobre a “razão” prática, tornou-se a norma da sociedade soviética. O resultado só poderia ser a progressiva estagnação do processo de inovação tecnológica. O “socialismo” converteu-se numa religião de Estado. Com seus dogmas e tabus, afastou-se perigosamente do caminho da verdadeira civilização ocidental que lhe deu origem.

Nessas condições, não é de se estranhar que as velhas formas de identidade e reconhecimento, como a religião, a nacionalidade e a etnia, permanecessem sendo cultivadas na esfera privada. Afinal, o irracionalismo dos “comissários” não era tão diferente assim do dos “popes” ortodoxos ou dos sacerdotes islâmicos.

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Notas:

(24) “O Fim da História e o Último Homem” – Francis Fukuyama – 2ª Ed. - Lisboa – Gradiva – 1999 – Pág. 16/17.
(25) “EUA deram à URSS tecnologia defeituosa” - Folha de S. Paulo - 28/02/2004.
(26) “O Fim da História e o Último Homem” – Francis Fukuyama – 2ª Ed. - Lisboa – Gradiva – 1999 – Pág. 108.

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TEXTOS ANTERIORES:

1) Introdução:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/319082.shtml
2) As origens da civilização ocidental:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/319199.shtml
3) O Problema de uma sociedade escravagista:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/319306.shtml
4) A questão da herança cristã:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/319593.shtml
5) O ocaso da religião na cultura ocidental:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/319977.shtml
6) Supremacia da cultura ocidental:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/320239.shtml
7) Reações à cultura ocidental:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/320984.shtml
8) Primeira guerra mundial e o primeiro “Cisma Laico”:
 http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/321606.shtml
9) A crise do ocidente e o segundo “Cisma Laico”:  http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/06/321694.shtml
10) A guerra fria e a hegemonia do ocidente:
 http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2005/07/322202.shtml