O massacre do Carandiru aconteceu em 2 outubro de 1992, em São Paulo. A polícia foi chamada para controlar uma rebelião que começou com uma briga entre dois presos. Segundo a versão oficial, o conflito teria evoluído para um motim.

Seguindo ordens do Secretário de Segurança do Estado, Pedro Franco de Campos, e do governador Fleury, que autorizou a invasão, o coronel Ubiratan Guimarães comandou a operação.

Não houve negociação. As tropas da Polícia Militar invadiram o Pavilhão 9 às 16h30. Os 325 policiais militares que ingressaram na Casa de Detenção sob o comando de Ubiratan não utilizaram insígnias e crachás de identificação.

Duas horas depois, foram encontrados 111 detentos mortos. Destes, 103 foram vítimas de disparos e 8 foram mortos por ferimentos causados por objetos cortantes. Não houve policiais mortos. A ação resultou ainda em 153 feridos, sendo 130 detentos e 23 policiais militares.

Ao todo, foram disparados 515 tiros. A perícia concluiu que só 26 detentos foram mortos fora de suas celas. A maioria dos presos foi atingida na parte superior do corpo, em regiões letais como cabeça e coração. Os exames de balística informam que os alvos sugerem a intenção premeditada de matar.

Um detento tinha 15 perfurações de disparos de arma de fogo no corpo. No total dos 103 mortos por disparos, a cabeça foi alvo de 126 balas, o pescoço alvo de 31, e as nádegas levaram 17 balas. Os troncos tiveram 223 tiros.

Os laudos concluíram ainda que vários detentos mortos estavam ajoelhados ou deitados quando foram atingidos. Diante de tamanha violência, muitos se jogaram sobre os corpos que estavam no chão, fingindo-se de mortos para conseguir sobreviver.

A Polícia Militar afirmou que os detentos tinham armas e apresentou dezenas de armas brancas e 13 armas de fogo. O informe balístico informou que "todas as armas apresentam em suas superfícies sinais de oxidação normalmente encontrados em condições de armazenagem em ambientes inadequados". Essas informações levam a acreditar que as armas foram "plantadas".

O JULGAMENTO

O julgamento do coronel Ubiratan Guimarães começou em 20 de junho de 2001, quase 10 anos após o massacre do Carandiru. “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111", disse Ubiratan durante o processo.

Ele foi considerado culpado pela morte de 102 pessoas e por tentativa de homicídio contra outras cinco. Sua pena foi de 632 anos de prisão em regime fechado. O coronel foi condenado a seis anos de prisão por cada morte. Foram 4 votos a favor da condenação e 3 contra.

Esta foi a maior condenação da história da Justiça brasileira. Mesmo que a sentença fosse confirmada, o coronel só cumpriria 30 anos de prisão, pena máxima no Brasil.

Em junho de 2002, Ubiratan recorreu da sentença alegando contradições do júri. Ele pôde fazer isso em liberdade, já que é réu primário, compareceu a todas as etapas do processo e tem endereço fixo.

Em 2003, o coronel Ubiratan Guimarães foi eleito Deputado Estadual em São Paulo, pelo PPB (partido de Paulo Maluf). Seu material de campanha destacava o 111 de seu número como candidato, 11.190. Por causa da eleição, ele ganhou direito a um foro privilegiado dentro do Tribunal de Justiça.

No dia 15 de fevereiro de 2006, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo anulou a sentença que condenou o coronel Ubiratan Guimarães a 632 anos de prisão pelo massacre do Carandiru. Ele será julgado novamente, por um tribunal popular.

No dia em que recebeu a absolvição, Ubiratan foi comemorar junto com seus colegas num quartel da região central de São Paulo. Atualmente, ele segue exercendo seu mandato na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, onde é presidente da Comissão de Assuntos Municipais e membro efetivo das Comissões de Segurança Pública e Administração Pública.

Em seu site oficial, o coronel afirma que "Temos que parar com esse vício que existe na sociedade de tratar bandido como bonzinhos. Bandido é bandido e só respeita uma coisa: força maior do que a dele".

Dos presos que morreram no massacre do Carandiru, 80% ainda esperava por uma sentença definitiva da Justiça. Só 9 tinham recebido penas acima de 20 anos.