Minha última sessão aconteceu dia 18 de março de 2006, no horário das 22h10min, Sala Villa-Lobos, lá na Avenida Nações Unidas 4.777, Piso Lazer. O filme, Capote. Fosse uma obra recheada de barulhos e defeitos, quero dizer, efeitos especiais, tipo Guerra nas Estrelas ou Gladiador, ainda seria possível driblar, mas diante do Capote de Philip Seymour Hoffman, com seus afetados trejeitos e silêncios minimalistas, passei um terço do tempo em luta para não sucumbir às investidas do mesmo instinto que levou Smith e Hickock ao monstruoso ato na casa dos Clutter. Descobri que finara a era em que o cinéfilo ficava no escurinho, chupando dropes de anis, pois, na melhor das situações, o cinema trocou a magia pelo barulho manducativo das pipocas, aliás anunciadas na tela como uma espécie de tônico das emoções. As perturbações, entretanto, não pararam por aí.
Craacs! Clompts! Glubs! Tantantantantantans! Blábláblás!, disseminados pela orquestra das pipocas, balas, refrigerantes, celulares que tocam Danúbio Azul e comentários despropositados, transformaram a sala escura num ambiente circense, onde entre um e outro número Clemildinha grita chamando o sorveteiro. A escolha de uma sessão no horário em que a inoportuna Clê já deveria estar na cama, com os demônios, dá na mesma. Como mudou a atitude do público! Durante a exibição, em uma daquelas cenas cruciais, em que o diretor Bennett Miller decide esconder sob o Capote as verdadeiras razões de sua fixação por Smith, eis que toca o celular de alguma Clê, que não atendeu a ligação para não ser eliminada pelos olhares assassinos de pessoas como eu, que conseguiram penetrar na sala cheio de inclinações homicidas debaixo do boné de Che Guevara, presente de minha cunhada trazido de Cuba. Na terceira tentativa, Clê atendeu. Que me desculpe o grande Strauss, mas agüentar uma polca ligeira, Sob Trovões e Relâmpagos, num momento desses, nem com os Nervos de Aço de Paulinho da Viola.
Quê fazer, como perguntou Lênin muito antes que Lenine? Como me adaptar aos novos tempos? Louco por cinema, desde os idos das matinês e seriados no Cine Diamante, em Catende, a questão passou a martelar meus miolos depois daquelas águas de março. Na madrugada deste finados, finalmente, um anjo felliniano me acordou, colocou diante do computador e passou a ditar as medidas que devo tomar para ficar no clima em minha próxima sessão de cinema. Estou tomando as providências e estejam, desde já, convidados e dadas para o evento.
Escreva, ordenou o anjinho: guardanapos e papel-toalha, saca-rolhas, faca bem amolada, pratos e talheres descartáveis, colheres, copos descartáveis, água mineral, refrigerante, cerveja em lata, pão de forma, descarte ovos e maionese, biscoitinhos e bolachinhas caem bem, salaminho e copa, queijo prato e mussarela em fatias, vegetais crus e frutas da estação, recipientes de plástico para organizar os comestíveis, repelente, estojo de primeiros socorros. Na Rua 25 de Março, adquira uma daquelas belas cestas retangulares, com alça no meio e tampas nos lados, e uma toalha xadrez quadricolor. Escolha um filme que agrade a todo mundo, confirme as presenças, antecipe a compra dos ingressos e comemore com a família a inauguração de uma nova era. Enfim, faça o primeiro piquenique cinematográfico da história. Já comprei a toalha e a cesta.
