Com a demarcação da terra indígena do Morro dos Cavalos parada há mais de dois anos, principalmente por causa de jogos de interesses econômicos e políticos, o processo leva mais um golpe com a publicação pela grande produtora de verdades, a revista Veja, de uma matéria que acusa a Funai de querer demarcar terras indígenas para índios paraguaios e argentinos.
Segue abaixo uma carta de repúdio à revista veja que contem esclarecimentos sobre a questão tratada na revista de 14/03/2007.

Gostaria de parabenizar a Revista Veja pela reportagem MADE IN PARAGUAI, publicada na revista de 14/03/2007. Esta reportagem conseguiu jogar no lixo mais de 30 anos de produção antropológica brasileira, feita nas melhores Universidades do Brasil.
Sabemos que os meios de comunicação não são imparciais, mas esconder-se atrás de uma pretensa parcialidade para publicar uma reportagem tão mal elaborada e mal intencionada, feita a partir de uma pesquisa que um aluno de ensino fundamental faria melhor, é um absurdo.
O repórter José Edward ou agiu de má fé, com intenções escusas por trás da reportagem, ou é um péssimo repórter e sugiro então à Revista Veja que o demita imediatamente. Como imagino que essa última opção não seja a que melhor retrata a situação, parece claro que setores que têm grandes interesses em não demarcar terras indígenas no Estado de Santa Catarina "encomendaram" essa reportagem. Um desses setores é a iniciativa privada, que embalada pela especulação imobiliária, têm planos mirabolantes de eco-turismo e coisas do gênero para o local. O outro setor é o próprio Governo do Estado que além de não querer contrariar os interesses do setor de turismo, um dos mais proeminentes de Santa Catarina, ainda se interessa pelos impostos que a exploração da área pode trazer.
Em primeiro lugar: embias e carijós não existem e nunca existiram. Existem sim indígenas da etnia guarani. No século XVI, quando os portugueses aqui chegaram, obviamente não existia nenhum estudo sobre as populações indígenas. Desta forma, a designação das populações nativas era arbitrária, pois os portugueses não falavam as línguas nativas e em geral essas populações não tinham auto-denominações. Assim, é comum encontrar etnônimos pejorativos, quando apontados por etnias rivais, ou senão etnônimos que significam "ser humano", como é o caso de um sub-grupo guarani que é chamado de mbyá (a pronuncia desta palavra usa fonemas que não tem equivalentes em português), que está entre as chamadas parcialidades guarani, e que parece que são os embiás referidos na reportagem. Além dos mbyás, foram citados na reportagem os nhandeva e os kaiowas, duas outras parcialidades guarani.
Os guarani mbyá ocupam pelo menos seis estados no sul e sudeste do Brasil, além de áreas na Argentina e no Paraguai. Poucos locais ocupados por estes indígenas são ideais para uma ocupação tradicional, seja no Brasil, na Argentina ou no Paraguai. Processos históricos de colonização fizeram com que grande parte da população indígena da América do Sul fosse dizimada por guerras, doenças ou fome e a parte sobrevivente foi sumariamente expulsa das terras que tinham qualquer valor para a agricultura ou para especulação imobiliária. Ficaram então reclusos em áreas sem valor para a agricultura, separadas umas das outras por cidades, plantações ou acidentes geográficos. Assim se conformou a ocupação indígena principalmente no sul e no sudeste do Brasil, onde a terra tem o maior valor comercial se comparado com outras regiões. Os guarani ficaram então ilhados em um oceano de ?civilização?.
Os guarani são conhecidos por seu constante deslocamentos, seja de indivíduos entre aldeias, seja de aldeias inteiras em busca de lugares mais propícios para se viver. Estes deslocamentos já são apontados em cartas de jesuítas dos séculos XVI e XVII como nos ensina Hélène Clastres que estudou os documentos jesuítas deste período. No início deste século Kurt Nimuendaju, eminente etnólogo alemão acompanhou migrações de um grupo guarani, desde o Rio Paraguai, território reconhecido dos guarani, até o litoral de São Paulo. Hoje os guarani continuam se deslocando, por razões que são explicitadas nos trabalhos citados acima e nas centenas de trabalhos posteriores a eles, como podemos ver em estudos bibliográficos sobre o tema feitos por Bartolomeu Meliá e Eduardo Viveiros de Castro, antropólogos de renome nacional e internacional. Estas razões fazem parte do modo de compreensão que os guarani tem do mundo, e que não pode ser comparado com a visão de mundo ocidental.
Assim, se existem guaranis que são nascidos em outros países residindo no Brasil isso se deve ao fato de que eles se deslocam muito entre aldeias. Da mesma forma é possível encontrar guaranis nascidos no Brasil residindo no Paraguai e na Argentina. O que mais importa aqui não é sua nacionalidade, mas seu pertencimento a um determinado grupo, que por razões impostas por nós se chama guarani, pois essa necessidade de auto-denominação veio junto com os europeus, assim como a necessidade de se dividir o espaço em países, fruto da criação do Estado Nação na Europa pós feudalismo. Assim os guarani não são brasileiros, não são argentinos e nem paraguaios. Eles são guaranis. E entender isso é respeitar efetivamente a pluralidade cultural presente aqui no Brasil, coisa que a reportagem da Revista Veja fez questão de anular, colocando questões completamente tendenciosas para confirmar uma tese que serve a interesses próprios de alguns grupos relacionados à questão da demarcação de terras indígenas. A questão importante no caso não é o local de nascimento dos indígenas e sim a possibilidade que eles podem ter de usufruir de um território de maneira tradicional, território esse que estudos arqueológicos mostram com clareza terem pertencidos aos ascendentes das populações guarani atuais.
Sem mais e dados os erros crassos cometidos na reportagem referida, sugiro que a Veja ofereça espaço para que seja publicado um direito de resposta, redigido por jornalistas apontados pela comunidade indígena.

Moreno Saraiva Martins
Mestrando em Antropologia Social no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina