"Ecologia, mudança climática e a própria campanha virou tema de conversa corrente nos pubs e metrôs"
O anarquista Jolly Roger é brasileiro e está há cerca de dois meses morando na Inglaterra, ele participou dois dias do Acampamento pela Ação Climática e contra a ampliação do aeroporto de Heathrow, em Londres. Na entrevista a seguir, ele conta um pouco dessa iniciativa que "agitou" a Inglaterra durante cinco dias, de 17 a 21 de agosto.
Agência de Notícias Anarquistas - Como você foi parar no Acampamento pela Ação Climática? Você participou todos os dias do acampamento?
Jolly Roger - Bom, o acampamento foi notícia em tudo quanto é veículo midiático aqui, não tinha como não ficar sabendo. Infelizmente, devido a enorme distância de onde moro para o local do acampamento, não pude participar todos os dias. Mas durante a semana estive envolvido em atividades e reuniões que aconteciam na cidade sobre a campanha. Quando li nos jornais a declaração de um ativista sobre o domingo de ação direta, de que "choques com a polícia são esperados", não me contive. Como anarquista sempre segui a máxima: "onde há fogo, a gente leva a gasolina".
ANA - Mas como eram essas chamadas na mídia, alarmantes, puro sensacionalismo?
JR - Mídia coorporativa é igual em todo lugar. Claro, jogavam contra os/as ativistas. Os relatos no Metrô (jornaleco gratuito distribuído no trem) do dia seguinte ao bloqueio do BAA HeadQuarter, por exemplo, diziam que a polícia havia confrontado os/as manifestantes respondendo ao ataque a um oficial de polícia. Eu participei do conflito, vi como começou, e não foi nada parecido com o que eles descreveram. Mas, enfim, isso não me surpreendeu. Já não é de hoje que sei que a grande mídia mente descaradamente, se não por jogo de interesses, por simples incompetência mesmo.
ANA - O que você destaca dessa jornada? Qual é a sua avaliação...
JR - Uma campanha muitíssima bem organizada. Muito trabalho de formação, com vários workshops acontecendo dentro e fora do acampamento. Destaque para o workshop da Anarchist Federation: "No clime change, but social change!". E o mais importante, trabalho de base com os trabalhadores e a comunidade próxima.
O acampamento em si, foi fantástico. Com água encanada, eletricidade gerada por energia eólica (cata-ventos gigantes espalhados pelo campo), instalações artísticas, cozinhas comunitárias (com deliciosas refeições veganas), tudo construído pelos/as próprios/as ativistas, obviamente.
O que destaco foi à impressão causada pela campanha na opinião pública. E não falo só do apoio no domingo de ação direta por parte dos/as trabalhadores/as da Cargo (uma terceirizada do aeroporto) que romperam em uma greve de solidariedade, ou dos/as moradores/as de Sipson (vila próxima que será destruída para a construção da terceira pista) que organizaram uma grande passeata. Mas falo de pessoas não envolvidas diretamente com o acampamento, que, se não compareceram pelo menos um dia a alguma atividade da campanha, demonstravam seu apoio defendendo os/as ativistas em conversas sobre o tema.
Aliás, ecologia, mudança climática e a própria campanha virou tema de conversa corrente nos pubs e metrôs durante a semana. E acho que esse foi o grande êxito da jornada. Ponto pra Gaia! (risos)
ANA - Teve até um bloco de crianças, não? (risos)
JR - Sim, fiquei sabendo. Mas essa eu perdi. Uma pena. (risos)
ANA - E passou por alguma tensão? Pelas fotos e relatos deu para perceber que foram dias bem agitados...
JR - Sim, foram. O domingo foi o dia escolhido para as ações diretas. Aconteceram várias (nem sei precisar quantas), em vários locais, tanto na região do aeroporto, quanto em Sipson, e até em outros pontos de Londres. Grupos estendendo banners gigantes em pontes e edifícios, gente se prendendo e/ou bloqueando entradas de prédios públicos, passeatas pelas ruas etc.
Um bloco maior partiu para Heathrow, na tentativa de bloquear/sabotar o aeroporto, enfim, causar algum transtorno as companhias aéreas. Segui com um outro grande bloco cujo objetivo era bloquear a saída do BAA HeadQuarter, que era de onde saiam as mini-vans da polícia para reprimir as diversas ações que aconteciam na região.
Nunca tive medo de confronto policial, sempre procuro blocar em linha-de-frente nas manifestações de rua. Mas meu medo ali era de detenção, pois poderia ser seguida de deportação (ainda mais com essa política anti-imigrante do novo primeiro ministro Mr. Gordon "Right-Wing Bastard" Brown). Mas quando vi que as prisões não estavam sendo feitas no local (a polícia "apenas" removia a força os/as ativistas da rua e os/as isolavam nas calçadas), logo me juntei a corrente humana que bloqueava a saída dos carros. Compas foram feridos/as durante esse embate, mas nada muito sério, felizmente. E demos foi trabalho para os policiais, cada van que ia entrar ou sair agarrava uns 5 a 15 minutos. (risos)
ANA - Que comparações é possível fazer desse evento com alguma coisa atual no Brasil? Como eco-anarquista confesso que sinto um pouco de inveja dessas coisas, dessa movimentação, colorido... (risos)
JR - Cara, não tem como comparar. Nunca vi evento similar no Brasil, muito menos atualmente.
ANA - Existe uma ligação forte das lutas ecológicas com vários grupos anarquistas ingleses, não é mesmo?
JR - Sim, é verdade. O grande número de anarquistas de várias vertentes presentes no Acampamento pela Ação Climática é a maior prova disso. E o que mais me surpreendeu (positivamente), é a estreita relação de grupos ecologistas, inclusive ONGs, com a metodologia e políticas anarquistas, como ação direta, autogestão e internacionalismo.
A relação dos coletivos anarquistas daqui com ecologismo vem desde os anos 80, com os acampamentos e ações contra construções de estradas. Quem participou da AGP (Ação Global dos Povos) no Brasil na época dos Dias de Ação Global (2000, 2001, 2002), sabe da importância do RTS (Reclaim The Streets - grupo anarquista eco-radical inglês) na formação teórica e tática dos movimentos anticapitalistas contemporâneos. Quem nunca leu o já clássico texto "Abandone o Ativismo" de Andrew X (RTS) e parou para repensar suas atividades militantes?
ANA - E como está sendo participar das atividades da Anarchist Federation (AF)?
JR - A AF é uma federação anarco-comunista, com um discurso radical bem classista, que atua no Reino Unido. Tem coletivos em Londres e Manchester, e membros espalhados pela Inglaterra, Escócia e Irlanda. Não sou membro da AF. Sou apenas um colaborador, e tenho participado de algumas reuniões e atividades. O coletivo londrino é interessante, muito bem organizados e disciplinados, até demais às vezes. (risos) Ainda estou conhecendo os outros grupos de Londres. Outro dia participei de uma atividade da IWW.
ANA - Podia falar um pouco dessas atividades que tens participado da AF?
JR - Atualmente as reuniões estão temporariamente suspensas, pois é período de férias e tem muito membro viajando. Quem ficou participou do Acampamento pela Ação Climática. Antes disso houve uma gig punk em Lewisham, em benefício a prisioneiros políticos. Também estão organizando fundos para um coletivo anarquista venezuelano. Reproduziram para venda copias de um dvd chamado "Our Oil and Other Tales", que foi inclusive proibido pelo governo semi-ditatorial de Hugo Cháves. A AF trabalha muito bem a propaganda anarquista, editando uma revista de qualidade (Organise!) e boletins periódicos (cada coletivo tem o seu, o de Londres se chama Resistance), além de adesivos e organização de "public meetings".
ANA - A atividade que participou com o pessoal da IWW foi sobre a Starbucks, aquela rede internaciol de cafeterias?
JR - A Starbucks é uma famosa rede internacional de sweatshops (termo usado para as empresas que desrespeitam os direitos humanos e trabalhistas, pagando baixos salários e oferecendo péssimas condições de trabalho a seus empregados). Por isso sempre foi alvo de "redecoracões", durante protestos anticapitalistas na Europa e América do Norte, juntamente com McDonald's e lojas da Nike.
A IWW (famosa central sindical anarquista) e a NoSweat (coletivo anti-sweatshops) tem desenvolvido uma campanha de conscientização dos/as clientes e empregados/as da Starbucks sobre a verdadeira natureza da empresa.
Além da óbvia cruel exploração de mão de obra de seus funcionários, a empresa também explora o pequeno cafeicultor da América Latina, comprando seu produto pela metade do "preço justo de mercado". (risos)
A atividade da qual participei foi uma jornada onde vários pequenos grupos passavam de loja em loja da rede conversando e distribuindo informativos aos funcionários, finalizando com uma manifestação de rua em frente a uma das maiores lojas, com panfletagem, faixas e megafone. Cerca de 40 pessoas participaram do ato.
Dizem as más línguas dos economistas brazucas, que a Starbucks pretende abrir sua primeira loja em terras tupiniquins ainda este ano, em parceria com a Cafés Sereia do Brasil Participações S.A., em São Paulo. Então, fiquem ligados/as, e preparem as boas-vindas a essa corja imperialista-neoliberal!
ANA - As lojas Starbucks já estão funcionando no Brasil, há algumas em São Paulo... (risos)
JR - Caracoles! Não sabia! (risos) Bom, é que não sou de São Paulo. Enfim, já que estão aí, mãos a obra, compas!
ANA - Lá pela década de 80 havia muitos squaters em Londres, depois veio uma repressão, o tal Poll Tax da Margaret Thatcher. Hoje, como está esse panorama? Ainda há casas ocupadas?
JR - Na década de 70, 80 eram bem mais numerosos, com certeza. St Agnes Place foi uma rua de squats mundialmente famosa, ocupada por rastafaris, homeless e punx de toda estirpe (dizem que Bob Marley ficava por lá quando vinha em Londres). Mas ainda hoje existem bastante squats. Principalmente em bairros mais pobres, como Hackney, Elephant and Castle, Brixton, onde a prefeitura da menos atenção e a polícia nem passa por lá (as vantagens de se morar na periferia). Squatting aqui é visto como uma questão social e não criminal, como acontece na América Latina. Então é muito mais fácil, ninguém vai "preso" por ser squatter. O lance é ocupar casas da prefeitura, ou de associações, porque de propriedade particular, o/a dono/a pode usar de meios mais duros ("intimidação") para tentar te tirar de lá. Alguns squats aqui tem água, luz, aquecimento, cara, é fantástico! Ainda ontem fui convidado por um compa de Israel para morar com ele e amigos/as em um squat em Hackney. Vou me encontrar com o pessoal essa semana e resolver a questão.
ANA - Você falou de Brixton, que é um dos bairros de Londres com muitos negros, jamaicanos... Na década de 80 haviam dezenas de squatters nesse lugar, um muito conhecido chamado "181 bookshop", que era também uma livraria anarquista. Enfim, o que quero saber é se há muitos negros participando atualmente do movimento anarquista em Londres. E mulheres, a participação é equilibrada com o número de homens?
JR - Há bastantes mulheres sim, e alguns negros, descendentes de imigrantes. Mas creio que o gênero masculino caucasiano ainda se faz predominante entre as fileiras libertárias inglesas.
ANA - E tem algum projeto libertário aí no Reino Unido que te contaram e chamou a sua atenção?
JR - Não no Reino Unido propriamente dito, mas tenho ouvido falar de um projeto na Alemanha que me parece muito interessante... Ainda estou me inteirando sobre o assunto, em breve dou mais detalhes. Suspense. (risos)
ANA - O panorama editorial parece ser bem efervescente no Reino Unido, não?
JR - Sim, o Reino Unido sempre foi famoso pelo grande número e qualidade de suas publicações de política radical (desde o fim do século XIX). Não é à toa, a imprensa (e conseqüentemente a imprensa independente) se desenvolveu aqui, na Revolução Industrial. Mal posso esperar pela Feira do Livro Anarquista em outubro, para "ir as compras". (risos)
ANA - Uma curiosidade, você sabe dizer se o artista anarquista Clifford Harper continua ativo, desenhando?
JR - Cara, não sei se continua desenhando não. Dizem que ele vai estar presente na Feira do Livro Anarquista (a maior do Reino Unido), que rola em outubro, se não me engano. Ele participa do coletivo organizador do evento. Um compa que, apesar da idade, continua engajado.
ANA - Para finalizar, já conheceu a "Freedom Press Bookshop"? Se eu não estiver equivocado, essa é a livraria anarquista mais antiga do planeta. (risos)
JR - Conheci sim, foi um dos primeiros lugares que visitei aqui em Londres, antes do Big Bem, inclusive. (risos) Eles têm um pequeno prédio de 3 andares. No térreo fica o estoque (muitas caixas mesmo!), no segundo o banheiro e a loja (relativamente pequena, mas com muita variedade) e no terceiro, uma ampla sala, com uma pequena cozinha, usada para reuniões (a AF Londres e a IWW se reúnem lá periodicamente, além de outros coletivos). Próximo ao prédio da Freedom, há também a casa do LARC, um ótimo espaço libertário, com biblioteca, PCs do Indymedia com acesso a internet etc.
ANA - Alguma coisa mais? valeu!
JR < Um salve a todos/as ativistas brasileiros. A luta deve continuar, não importando o local ou condições onde estamos. A revolução é cotidiana, e a vitória está dentro de cada um/a.
agência de notícias anarquistas-ana
Céu de primavera
no jardim dorme a menina.
Qual a flor do sonho?
Anibal Beça

