No meio do alvoroço causado pelo filme "Tropa de Elite" e das discussões sobre o papel e atuação das forças especiais da polícia militar no país inteiro e sua defesa e justificativa moral, as Rondas Ostensivas Táticas Metropolitana (ROTAM) de Goiás não poderiam deixar de buscar visibilidade e ficar descontextualizada neste momento no qual se convertem em personagens fundamentais do espetáculo. E como já é papel combinado, a ação só poderia se desenrolar através da intimidação.

Na última terça-feira (25), vários policiais da Rotam entraram fardados e armados no plenário da Assembléia Legislativa do estado ostentando seus já conhecidos rostos e gestos intimidadores em busca do deputado estadual Mauro Rubem (PT). O motivo argumentado foi uma busca de explicações pelo discurso proferido pelo deputado na quinta-feira, no qual Mauro criticou o que chamou de "banda podre da polícia" e disse que ali estariam alguns dos piores tipos de criminosos, "aqueles que matam ou desaparecem pessoas e se escondem por trás da farda da nossa gloriosa polícia militar".

Mauro Rubem é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia de Goiás e participa ativamente do Comitê Goiano pelo Fim da Violência Policial. Os grupos vêm levantando provas e indícios de execuções e desaparecimentos de pessoas no estado e reúnem famílias de vítimas da violência principalmente da ROTAM e de sua correspondente no interior do estado, o Grupo de Patrulhamento Tático (GPT).

Os policiais que visitaram o plenário na terça-feira, dentre eles estava o Major Wellington Urzêda, comandante do agrupamento, visivelmente buscavam intimidar os presentes na seção. Ali contavam com uma certa blindagem de alguns deputados da situação no estado, sendo o mais fervoroso defensor e entusiasta, Evandro Magal (PSDB), que declarou que inversamente do que se podia supor ali a situação de intimidação, ele se sentia mais seguro com a presença dos policiais. Inclusive negligenciaram o fato de que segundo o regimento da casa, não são permitidas armas no recinto e a presença ou reforço policial não havia sido solicitado no ambiente, e logo não estariam ali em serviço, o que acabaram alegando. O fato é que nem durante o período da ditadura militar, a Assembléia Legislativa foi ocupada por forças policiais. Magal ainda foi mais longe durante a semana, propôs a Medalha do Mérito Legislativo ao comandante da Rotam, major Urzêda.

Esse fato apresenta uma realidade que vêm sendo levantada sobre o descontrole dos grupos especializados em repressão e ações enérgicas da polícia. São inúmeras as denúncias de violações dos direitos humanos e de ações criminosas cometidas por alguns policiais destes agrupamentos e que, como tem demonstrado o processo histórico, são brindados com a impunidade. Em algum momento somos obrigados a nos perguntar - A ROTAM ou GPT foram criadas para conter e controlar a criminalidade e a violência ligada a ela, mas quem controla, ou melhor ainda, quem contém a ROTAM?

Essa ação de terça é algo muito pequeno diante do que acontece nas periferias, mas chama a atenção pela demonstração pública de intocabilidade destes grupos policiais. A pergunta até cômica que surge é, em momento destes, a quem vamos recorrer e exigir justiça, à polícia? E que sentimentos devemos ter ao ouvir em conversas de bastidores que o agrupamento da ROTAM está buscando sua autonomia ao comando da Polícia Militar e deseja formar seu próprio batalhão, quando na realidade a sociedade ainda se questiona muito sobre sua existência e a permanência da prestação de seus serviços?

Ao que tudo indica, o que deveria ser primordialmente exceção está se tornando a regra. A indústria cinematográfica e a mídia corporativa, com destaque aos jornais sangrentos e aos programas fascistóides de televisão, parecem construir o enredo da realidade em uma ação de banalização e legitimação do uso da violência policial para supostos fins nobres. Para quem já viu o filme do BOPE do Rio de janeiro e acompanhou os relatos dos sem-teto violentamente despejados em Goiânia em fevereiro de 2005, vai conseguir estabelecer vários elos entre as ações e a política da instauração do terror psicológico - "Faca na Caveira, Faca na Caveira...". Aparentemente se globaliza a formação para a arbitrariedade. Notoriamente se apresentam quais são os alvos e quem são os protegidos e privilegiados na história. E o fator financeiro é determinante.

Ontem os bairros de periferia dos grandes centros. Hoje a Assembléia Legislativa. Qual o próximo passo em uma sociedade regida pelo medo?