Os capitalistas seguiam os acontecimentos com apreensão; o temor era que esse talvez fosse o primeiro dia do fim de seu mundo, o mundo da exploração do trabalho. Já os trabalhadores e intelectuais, na sua maioria, viam na revolução incipiente, o princípio do futuro da humanidade. Finalmente haveria um mundo sem miséria, sem competição, sem luta de classes e com ampla liberdade para todos. Não foi isso, porém, o que aconteceu. O que se viu foram governos autoritários, sem a participação do povo, censura, coletivização forçada e privilégios da burocracia que governava o país. O que aconteceu com o tão sonhado socialismo? O que deu de errado?

Quando Marx termina o seu manifesto com o chamamento "Trabalhadores de todos os países, uni-vos!", ele não estava simplesmente criando uma frase de efeito. Para ele, o socialismo, ao contrário de outros sistemas sociais, não podia ficar restrito a um país ou região. Um dos "méritos" do capitalismo foi, justamente, estender a sua ação ao mundo todo. Pela primeira vez na história um sistema social, como o capitalismo, reproduziu-se em todas as partes da terra estabelecendo uma divisão de trabalho entre todos os países e, com isso, preparou a base para a sua própria substituição por um modo de produção mundial. É claro que Marx não pensou que a revolução fosse acontecer no mundo todo ao mesmo tempo. Imaginava que a revolução aconteceria primeiro em um país avançado e que os outros lhe seguiriam, como no efeito dominó. Sua previsão, como a história demonstrou, estava completamente equivocada. O mais importante, no entanto, é que, para ele, socialismo era um conceito mundial: ou o mundo é socialista ou não há socialismo algum. Mas, por que isso é assim?

Quando um país, especialmente atrasado tecnologicamente como a Rússia, faz uma revolução socialista, sofre imediatamente de um boicote econômico por parte do resto do mundo. Ora, país algum é auto-suficiente (nem mesmo o mais rico de todos) e, portanto, passa a ter de produzir lá dentro tudo o que comprava dos outros. Essa, por si só, já é uma tarefa gigantesca , agravada pela falta de intercambio com centros de tecnologia mais avançados, o que poderia facilitar a superação do atraso no país. Mas, além disso, o país também sofre com a sabotagem daqueles que detinham o poder e não querem que a revolução acabe com os seus privilégios (a Rússia teve de enfrentar uma guerra civil para defender a revolução incipiente). Tudo isso facilita o aparecimento de um comando centralizado, um governo que não admite oposição e que censura os meios de comunicação para enfrentar as pressões de fora e de dentro e implementando, à sua maneira, o socialismo à força.

A democracia exige que haja discussão de diferentes pontos de vista, e que se faça experiencias para se chegar à conclusão de como agir da melhor forma em um determinado momento. Nada disso é possível quando o país tem tarefas urgentes a resolver, como a fome, o desemprego e o desabastecimento de muitos produtos. É preciso construir fábricas, dizer o que e como produzir e treinar mão-de-obra qualificada para esse trabalho. Além disso, a ameaça constante de guerra e invasões, faz com que boa parte dos recursos conseguidos sejam desviados para a indústria bélica, o que significa um desperdício de dinheiro que poderia ser investido no bem estar da população.

AS LIÇÕES DO SOCIALISMO
Se a Rússia, a China e Cuba não são (ou eram) países socialistas, então o que são?

Sem dúvida, houve uma revolução econômica nestes países. O fato dos meios de produção não pertencerem mais a poucos indivíduos e famílias, fez com que o montante de recursos disponíveis para a população em geral fosse bem maior. Todos os países ditos socialistas tiveram um crescimento econômico surpreendente, especialmente nos primeiros anos. Apesar de gastarem a maior parte da receita com exércitos e armamentos, conseguiram dar um padrão de vida para a população que não existia antes da revolução. Todos eles praticamente acabaram com o analfabetismo, a miséria e o desemprego. Toda a população passou a ter acesso à moradia, educação e saúde. O progresso econômico foi surpreendente, comparado com o que existia antes. Porém, como já dissemos, não é possível existir como uma ilha socialista em um mar capitalista. A concorrencia externa, com o avanço tecnológico, acabou por derrotar o sistema econômico existente nesses países. Mas, afinal, por que não deu certo? Há muitas explicações e talvez a mais simples seja que não era o momento histórico adequado para uma revolução socialista mundial. Hoje, com a globalização da economia, os países são mais dependentes uns dos outros, o que tornaria mais fácil de acontecer o efeito dominó descrito anteriormente.

Se a revolução houvesse sido mais abrangente, talvez estivéssemos hoje gozando dos benefícios de viver numa sociedade onde cada indivíduo pudesse desenvolver o seu trabalho de acordo com os seus talentos, onde os elementos básicos para a sobrevivencia, como moradia, saúde, alimentação e educação fossem garantidos a todos e onde o avanço de cada um representasse o progresso de toda a sociedade.