São Paulo, 1.º de novembro de 2003, Av Paulista, 14:00hs. Lá estava eu na expectativa de fotografar e participar da 1.ª Passeata Verde, manifestação pacífica pela legalização da Cannabis Sativa. Até então não sabia direito (e ainda não sei) quem estava por trás daquilo, e duvidava um pouco da possibilidade de um evento como esse ocorrer sem uma interferência violenta e arbitrária por parte da polícia. Felizmente eu estava enganado. Entre fins de setembro e início de outubro os fóruns na Internet dedicados à discussão da legalização-descriminalização de drogas começaram a ser bombardeados por panfletos eletrônicos que conclamavam os interessados para a manifestação do dia 1.º de novembro, naquele que seria o Dia Nacional de Luta pela Legalização da Maconha, segundo os organizadores. No entanto o movimento se espalhou rapidamente pela via digital, escapando ao controle de qualquer organização e tomando em seguida o caráter de manifestação espontânea. Chegando à Av Paulista com 15 minutos de antecedência, na intenção de não perder nenhum detalhe da manifestação, deparei-me com uma quantidade incomum de policiais. Mais ou menos 8 viaturas e uns 40 PMs vigiando um imenso vazio do vão livre do MASP. Qual foi minha surpresa ao perceber que somente a polícia foi pontual: até mais ou menos 14:30hs os manifestantes não passavam de 20 ou 30. Mais policiais do que manifestantes. Por um momento achei que aquilo não ia acabar bem. Um PM, vendo meu equipamento fotográfico, me perguntou se eu era de algum jornal: ?Não, sou independente!?, respondi-lhe. Até aproximadamente 15:00hs o movimento indicava a falência total da manifestação. No entanto, não sei ainda se por alguma peculiaridade comum aos manifestantes, lá pelas 15:30hs o número de, perdoem-me a expressão, ?maconheiros? começou a crescer de maneira inacreditável, de modo que às 16:00hs já beirava a casa dos 200. Então aprendi que em manifestação de maconheiros o atraso compõe o tom do protesto. Timidamente as pessoas foram chegando. Muitas faixas, muitos cartazes, camisetas irreverentes, skates, fotos do Bob Marley, bandeiras da Jamaica e sobretudo, muita alegria. E muitos olhos vermelhos também. Imediatamente o tenente da PM que comandava a operação (sujeito muito simpático) passou a fiscalizar de perto cartazes e faixas. ?Vocês podem pedir a legalização, mas incitar o uso eu não vou permitir!?, dizia ele em tom solene. Conversou com diversos manifestantes e mostrou-se até simpático à causa, provavelmente por saber que aquilo representaria a minoração de diversos problemas ligados à Segurança Pública. Seus subordinados permaneciam atônitos, sem saber direito o que lhes esperava. Por volta das 16:15hs houve a primeira tentativa de invasão da Av. Paulista, que foi imediatamente reprimida pela polícia. Aos gritos de ?abaixo a repressão? os manifestantes conseguiram convencer os policiais a parar o trânsito da famosa avenida para que a Passeata Verde finalmente pudesse pôr-se em marcha. A alegria contagiou a todos! Era mesmo inacreditável que a Passeata Verde estivesse tomando a principal avenida de São Paulo. ?Polícia é pra ladrão, pra maconheiro não!?, ?Ei, polícia, maconha é uma delícia!?, ?Governo sem vergonha, legalize a maconha!?. A multidão seguia entoando em uníssono esses gritos de guerra. Ao passar em frente ao McDonalds, e foram 4 até chegar no Ibirapuera, entoavam ?Maconha é natural, Big Mac é que faz mal?. Em frente à FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) os gritos eram ?Experimenta! Experimenta! Experimenta!?, em tom bem-humorado e provocativo ao símbolo do capital industrial brasileiro. Quando passava diante dos botecos, a massa gritava ?Ei cachaceiro, vira maconheiro!?. Como se vê, o bom humor foi a tônica do movimento, que promete novas e mais criativas ações para um futuro próximo. A confusão mesmo começou quando, após tomar a avenida Brigadeiro Luís Antonio e percorrê-la até as proximidades do Parque do Ibirapuera, a massa encontrou o portão 10 fechado e com um número incrível de policiais da GCM (Guarda Civil Municipal). Note-se que este portão habitualmente fica aberto até 0:00, como indica a enorme placa verde nele pendurada. Muitos gritos, confusão, cacetes para todo o lado, até que os guardas se convenceram de que todos os manifestantes, como cidadãos, tinham o direito de adentrar o parque. Na praça da Paz armou-se um grande (grande mesmo) círculo humano. No centro foram colocados os cartazes, faixas e algumas tochas, que serviam sobretudo para disfarçar o cheiro de ?marihuana? que aos poucos começava e se espalhar pelo Parque. Todos os panfletos que informavam sobre o evento eram taxativos sobre a imperiosa necessidade de observar a principal recomendação: ?não levar drogas?, sob o risco de pôr em descrédito o movimento. E sobretudo para evitar as investidas da polícia. Mas muitos manifestantes, até pelo caráter do movimento, não deram ouvidos aos apelos, e acenderam seus cigarrinhos. No fim da Av. Brigadeiro muitos já entoavam: ?chega de andar, tá na hora de fumar?. E de fato dentro do parque o consumo da ?perniciosa erva? rolou solto, mas de forma discreta, dentro do círculo humano que mais lembrava o festival de Woodstock. Mas a polícia (GCM), insultada pela ousadia de alguns garotos que fumavam abertamente próximos às viaturas, agiu rapidamente, prendendo dois bodes expiatórios, que foram levados para a Delegacia de Polícia da rua Tutóia, coincidentemente o antigo prédio do DOI-CODI. A Passeata Verde terminou com uma concentração de cerca de 60 pessoas defronte da delegacia, na tentativa de soltar os dois rapazes. No entanto, o clima reinante no decorrer da manifestação foi de paz e alegria, como fica evidente nas imagens que captei. A expectativa de todos era de que no próximo ano o evento possa ser maior e mais organizado. E sem prisões! Na minha avaliação, sucesso total.