Mesmo sendo profissional da área de ciências exatas, encontro dificuldade em depositar uma confiança racional neste equipamento e, conseqüentemente, no sistema eleitoral brasileiro.

Como para a quase totalidade dos eleitores, a urna eletrônica é, para mim, uma "caixa-preta". Renomados técnicos e peritos desta área também levantam sérias suspeitas, especialmente em função de problemas já ocorridos em todo o território nacional, os quais a mídia amestrada não divulga, mas que podem ser conhecidos em www.votoseguro.com.

Dentre os que apontam nesta mesma direção, vale a pena destacar o professor Pedro Antonio Dourado de Rezende, de Ciência da Computação da UNB, Leonel Brizola (PDT), os senadores Roberto Requião (PMDB/PR) e Romeu da Tuma (PFL/SP), o deputado Vivaldo Barbosa (PDT/RJ) e até o presidenciável Ciro Gomes (PPS).

Procurando compreender as explicações do Ministro Nelson Jobim e analisando exaustivamente o relatório da UNICAMP, eu também ainda não estou convencido.

Para quem desejar uma visão completa deste relatório, ele é encontrado em  http://www.brunazo.eng.br/voto-e/arquivos/UNICAMP-relatorio.zip ou  http://www.tse.gov.br/servicos/download/rel_final.pdf

Evitando permitir uma profundidade além da estritamente
necessária sobre este assunto, vou ater-me tão somente e
apenas em alguns poucos pontos oficialmente abordados em
tal documento, que nos custou R$ 400.000,00 e quatro meses de trabalhos dos profissionais mais competentes deste país.

Curiosamente o TSE deseja que os técnicos dos partidos analisem o sistema em alguns poucos dias, agora no início de agosto e, neste exíguo período, constatem sua
confiabilidade. Pode?

E, quem garante que os programas agora mostrados serão os mesmos que inseminarão as urnas em 03/10/2002? Para esta e todas as demais dúvidas existentes, o TSE afirma
peremptoriamente, no melhor estilo daquele paraguaio de
uma propaganda na TV: "La garantia soy Yo!"

Vejamos, então, o que julgo mais relevante naquele
relatório:

"5. Recomendações (...)
A combinação dessas formas de proteção tem como resultado a criação de uma barreira de segurança de difícil transposição. Mesmo que cada uma das formas de proteção possa ser individualmente superada, a superação do conjunto é pouco provável, dados a extensão e a profundidade do conhecimento necessário e o grande número de participantes cujo envolvimento seria requerido para a sua realização."

A "extensão e a profundidade do conhecimento" não seria impeditiva, nem mesmo um obstáculo razoável, já que o dinheiro pode comprar e mandar trazer em jatos particulares, de qualquer parte do planeta, a quantidade
de profissionais "confiáveis", suficiente para uma operação desta natureza, cuja linguagem é universal. É fundamental concentrarmos nossa atenção no seguinte: "Pouco provável" implica logicamente que há a possibilidade real e concreta de fraude.

Ganhar na loteria é pouquíssimo provável, mas sempre
há alguém que recebe aquela fortuna sonhada por milhões
de apostadores. Então, assim sendo, devemos determinar
cientificamente quantas pessoas seriam necessárias corromper, de dentro do sistema, para vencer todos os obstáculos existentes.

O poder de determinar o resultado das eleições está, de
fato, na mãos de quantas pessoas, afinal?

Lembram-se do caso do painel do Senado? Também não foi comprado, acreditando-se que era totalmente seguro? Quanto custou aos mandantes do crime ordenarem à uma funcionária de carreira quebrar o sigilo do sistema? E, com que naturalidade ela transmitiu esta determinação mais um escalão abaixo e também foi religiosamente obedecida... Então, nestas eleições, quem poderia dar a ordem para a fraude aos funcionários que, mesmo relutantes, não conhecem historicamente fatos que os estimulem a recusá-la?

Por que a UNICAMP, nem o TSE mencionam quantos seriam? Segredo de Estado? Quem domina o Estado? Quem se beneficiaria dele, do segredo? Quais os partidos tem acesso à este dado? O partido do próprio Ministro Nelson Jobim?

Não foi ele que, de madrugada, orientou alguns caciques
do PMDB, sobre como deveriam fazer para solicitar, à ele
próprio, a mudança da sentença já obtida por outra facção sobre a convenção partidária, beneficiando assim o candidato de seu partido? Não foi ele que compartilhava do mesmo apartamento deste candidato, o ex-Ministro José Serra? Teria ele isenção para, como juiz, conduzir este processo, estando assim, tão emocionalmente envolvido?

Quanto custaria corromper este secreto número de funcionários?

Afinal, todo mundo tem seu preço... Uma chantagem; a vergonha de ser honesto, aliada o constrangimento de dizer não ao seu superior, alegando uma ética impraticável, diante da prevalência da iniqüidade (Rui Barbosa); uma grande amizade; uma promessa de promoção; a possibilidade de perder uma promoção; uma ameaça contra algum parente próximo; etc., são extremamente convincentes e eficazes, quando está em disputa o poder em dimensões assim, tão estimulantes.

Lembram-se da funcionária da Prefeitura do Rio de Janeiro que, ao multar um desembargador, o qual apropriou-se indevidamente de uma via pública, recebeu voz de prisão e foi parar na delegacia? Felizmente seus superiores agiram de forma a sustentá-la no cumprimento do dever... Mas sabemos ser este exemplo uma exceção que confirma a regra geral predominante em nossa cultura.

Quais seriam os benefícios decorrentes, para quem conseguisse vencer esta eleição fraudulentamente? A relação custo-benefício seria atraente para os poderosos do planeta e da Nação sentirem-se estimulados a fraudar o sistema?

Recentemente, assisti na TV que foi realizada nova eleição numa cidade no interior de São Paulo. Isto dois anos depois do ocorrido!... Seja erro ou fraude, alguém foi beneficiado e a população foi prejudicada. O que garante que não vá repetir-se novamente?

Se a possibilidade de fraude existe, de fato, como nos assegura um dos mais renomados institutos nacionais, e é
comprovada por casos concretos, que o TSE faz de tudo para camuflar, por que não se imprime logo voto de todas
as urnas, ao invés de um percentual insignificantes delas, curiosamente instaladas longe dos grandes centros eleitorais?

Por que a UNICAMP sequer menciona esta possibilidade em
seu relatório?

Afinal, esta é a única forma de democratizar e socializar a confiança nas urnas eletrônicas, ao invés de mantê-la nas mãos de uma elite profissional, cuja corruptibilidade é função apenas do empenho de quem deseja alcançar o poder maquiavelicamente.

Existe segurança em um sistema que não pode ser auditado
posteriormente, em caso de dúvida? Submeter tal possibilidade à disponibilidade orçamentária, como alega
o TSE, não é uma irresponsabilidade, diante do valor material e ético que está em jogo? Pode ser legal, mas é
imoral! Afinal, quem lucra com isto?

Por que, contrariando o próprio parecer técnico, que nos
custou uma pequena fortuna, o Presidente do TSE, em 02/08/2002, declarou, no Jornal da Record, que "não há nenhuma possibilidade de fraude"?

Como o TSE, nem a UNICAMP respondem estas perguntas, é melhor mesmo cada um de nós usar mais do que nunca sua capacidade crítica e tirar suas próprias conclusões:

Teoria da conspiração ou teoria da constatação?

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Heitor Reis é Engenheiro Civil e instrutor autônomo
do SEBRAE, em Belo Horizonte, MG.
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Aceita críticas e sugestões, dialeticamente.
Maiores detalhes e contatos:
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