Onde estão os "brancos"?
Jo / Agência Anhangüera
O momento mais emocionante e, provavelmente, mais importante deste 32º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino encerrado no sábado aconteceu na sexta-feira, durante o debate com os realizadores do filme Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo.
Ao ser questionado sobre a ausência de "brancos" em um filme com 90% de elenco negro, Milton Gonçalves, o patriarca da história pediu a palavra para fazer um longo discurso. A jornalista que provocou a fala do ator, disse que estava procurando mais brancos no filme, pois, do contrário, a produção corria o risco de se tornar um gueto.
Pausadamente, Milton iniciou um discurso no qual, em momento algum perdeu o controle, nem se alterou e muito menos foi panfletário. Com 71 anos, 50 de
carreira disse: "Eu passei meus últimos 50 anos procurando negros nos filmes de brancos, negros que não fossem bandidos, escravos ou serviçais".
Depois, contou a forma como, operário analfabeto, se tornou ator, no Grupo Arena, em São Paulo; lembrou que ajudou William Hurt a ganhar o Oscar de ator por O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, no qual contracena com o norte-americano e revelou ter sido o diretor da novela Escrava Isaura, o maior sucesso da TV brasileira em todos os tempos. "Meu nome não
está lá, mas eu fui o diretor".
Parou várias vezes, porque disse estar emocionado e não queria chorar, mas naquele momento, as atrizes Maria Ceiça e Danielle Ornellas, que estavam na
mesa, já estavam aos prantos. Ele continuou narrando parte de sua vida. Revelou que, empregado da Globo, criou os três filhos, todos com curso universitário e todos falando mais de um idioma. Todos negros.
E, finalmente repetiu que passou a vida procurando brancos em filmes nacionais e estrangeiros e nos palcos do Brasil, mas não achou. E, para encerrar, elogiou a coragem de Joel Zito Araújo em fazer um filme só com negros no qual nenhum deles é bandido, escravo ou serviçal. Foi aplaudido longamente, em pé. E, acabou, ele mesmo, chorando.
Portanto, a imagem deste festival não é somente Milton Gonçalves fazendo tal discurso, mas, na tela do cinema, colocando o negro onde ele sempre deveria estar. "Somos maioria neste País", lembrou.
Filhas do Vento coloca as coisas nos devidos lugares, ou seja, que o brasileiro negro passe a ser valorizado no País em qualquer papel que represente na sociedade. Pode não ser um grande filme, mas é bonito e tocante. Dos quatro filmes brasileiros exibidos até sexta-feira, é a melhor produção do Festival de Gramado.
